O Auditório Madalena Biscaia Perdigão retomou esta semana a 10ª edição do ciclo de conferências sobre Arqueologia e Arte depois da pausa de Carnaval, com “Arqueologia nas margens: Comunidade, memória e resistência no espaço social”, por Tânia Casimiro. Depois de duas tardes dedicadas a explicar o que é afinal de contas a arqueologia, desta vez desafiou-se o próprio conceito, para perguntar o que a arqueologia pode ser, o que pode fazer e por quem.
Tânia Casimiro é investigadora na Universidade de Sterling, no Reino Unido, e detém um currículo impressionante, com diversas bolsas de investigação, mais de 200 publicações e participações em escavações arqueológicas por todo o mundo. Mas não é por isso que segue as correntes dominantes da sua área. Chama ao que faz “arqueologia social”, porque o seu interesse centra-se não nos objectos e nas infraestruturas – por mais que os reconheça como a base concreta da prática da arqueologia – mas nas pessoas, o que pensaram e sentiram ao longo da história, e o que pensam e sentem agora. O resultado é uma arqueologia “nas margens”, das convenções actuais da disciplina e também dedicada às margens da sociedade: o isolamento sénior, os bairros temporários, vivências frequentemente esquecidas ou ignoradas e que deixam para trás objectos do quotidiano, e afinal de contas é o quotidiano da Humanidade que a arqueologia estuda. E estuda para quê? Para tentar ter algum impacto social e político na sociedade actual, espera Tânia Casimiro.
Num dos projectos que partilhou, denominado Arqueologia do Isolamento Sénior, foram feitas “escavações” arqueológicas nas casas de idosos recentemente falecidos que se revelaram janelas para todo um mundo da vida nos séculos XX e XXI portugueses. O tipo de achados prosaicos que seriam tidos como um tesouro se fossem do Império Romano, disse Casimiro, portanto não serão tesouros nossos para arqueólogos do futuro? Porque não podem ser tesouros para nós agora, para olharmos para nós próprios enquanto ainda podemos fazer alguma coisa?
A palestra teve mais perguntas que respostas, porque as perguntas que devíamos estar a fazer não têm ainda respostas definitivas. Quando um local arqueológico tem memórias ainda vivas, pessoas que se lembram de como as coisas eram, o que deve a arqueologia a essas pessoas? Que responsabilidades éticas distinguem um arqueólogo de um explorador urbano nestes casos? Que responsabilidades éticas e possibilidades construtivas está a arqueologia a renegar se se focar no passado e ignorar o presente?
Outra escavação que se debruçou sobre estas questões partiu de um projecto artístico intitulado Arqueologias de Destruição, mais especificamente a destruição dos bairros do Segundo Torrão em Almada e do Talude em Loures. Reina em Lisboa (e não só) uma matemática desumana sob a qual existem salários mais baixos que qualquer renda, de maneira que enquanto alguns apartamentos são alugados exclusivamente a nómadas digitais, milhares de pessoas vivem em bairros de barracas sem electricidade nem água canalizada, até que esses bairros são declarados ilegais e destruídos. São deixados para trás os vestígios de populações nas margens, que são omitidas dos postais da cidade, e esses vestígios são prova de que estas comunidades existem, e portanto prova das condições sociais e políticas que levaram a isso. Uma arqueologia posta ao serviço desta escavação pode fazer mais pela sociedade actual que “produzir museus”, e pode ter um alcance para lá das elites que têm acesso aos museus. Tânia Casimiro neste ponto perguntou quantas pessoas visitam o Museu Municipal Santos Rocha por ano e recebeu como resposta sete mil; ao que ripostou que só num destes bairros vivem quase quatro mil pessoas. Mais uma questão-chave, com que ela lidará muito também na sua investigação sobre legados coloniais: a arqueologia é para quem? Para os resultados do trabalho serem vistos por quem? Para potencialmente ter impactos concretos nas vidas de quem?
Casimiro acredita que a arqueologia deve ser para todos, do passado e do presente; quando olha para um muro antigo vê não só as pedras mas também os graffiti, e o papel social contemporâneo que esse muro passou a desempenhar através desses graffiti, feitos por pessoas que queriam deixar a sua marca por vezes até sem saber a idade do muro. Ela afirma que se forem agora desenhar nas paredes das grutas do Vale do Côa isso não é vandalismo, é continuidade histórica, é tudo história da Humanidade. E diz que “um cantor de intervenção usa a cantiga como arma. Se eu puder usar a arqueologia, é a minha arma social”.
Ela perguntou “porque é que a arqueologia se deve interessar por quem ainda está vivo?” – porque estamos vivos agora, todos juntos, uns para os outros.
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Imagem: Arqueologias de Destruição, Susana Santa-Marta, 2024


