Carlos Saboga, um escritor de cinema

A 27 de fevereiro faleceu em Paris, aos oitenta e nove anos, um dos mais notáveis argumentistas do cinema português e europeu. Carlos Saboga nasceu a 17 de Dezembro de 1936 na Figueira da Foz onde, tal como João César Monteiro, haveria de descobrir o cinema. O cinema tem uma relação estreita com a infância. Não é tanto ‘decidi fazer cinema’. O cinema caiu-me em cima. Ia muito ao cinema quando era miúdo e começou no período da guerra…”

Filho mais novo do conhecido militante comunista Agostinho Saboga, o jovem Carlos também foi detido, por duas vezes, pela PIDE. Foi para Lisboa e chegou a integrar, com António-Pedro Vasconcelos, Alberto Seixas Santos e João César Monteiro, o grupo de jovens intelectuais que se encontrava regularmente no Vavá mas deixou o país assim que pôde – em 1965, a salto e sem documentos – com uma equipa francesa que tinha vindo filmar a Portugal. Viveu sucessivamente em Paris, Roma, Argel, e de novo em Paris onde finalmente se radicou.

Com uma ampla e premiada obra, ao longo dos anos Carlos Saboga exerceu “com mais ou menos convicção e assiduidade, raramente recompensado, sem diplomas”, como gostava de dizer, as actividades de tradutor, assistente de realização, jornalista (cronista, repórter, correspondente, crítico de cinema), tanto na imprensa como na rádio e na televisão. Participou, de diversas formas não creditadas, em filmes como La Jeune Morte (1965) de Claude Faraldo, Il Sasso in Bocca (1969) de Giuseppe Ferrara, Jacquou le Croquant (1969) de Stellio Lorenzi e escreveu argumentos para a televisão e para o cinema, em Portugal e em França, tendo colaborado, entre outros, com os realizadores portugueses António-Pedro Vasconcelos, José Fonseca e Costa, Luís Galvão Telles, Fernando Lopes e Mário Barroso e com os chilenos Raul Ruiz e Valeria Sarmiento.

Desde o início dos anos 70 que o trabalho de Carlos Saboga foi aclamado pela crítica internacional. Recebeu em 1984 o Prémio FPCC do melhor argumento para O Lugar do Morto, realizado por António-Pedro Vasconcelos. Colaborou novamente com Vasconcelos em 1999, em Jaime, que venceu o Prémio Especial do Júri no Festival de San Sebastian e o Prémio Cannes Junior no Festival de Cannes. A mini-série Les Filles du Maître de Chai, realizada por François Luciani em 1997, recebeu o Grand Prix du Sénat para melhor série francesa e 7 nomeações para os “7 d’Or”. Escreveu o argumento dos filmes de Mário Barroso, O Milagre Segundo Salomé, em 2004, e Um Amor de Perdição, em 2007, Ordem Moral, em 2021,selecionados para alguns dos maiores festivais (San Sebastian, Buenos Aires…).

Carlos Saboga foi também o argumentista de Mistérios de Lisboa, derradeira obra-prima de Raúl Ruiz – numa adaptação do romance homónimo de Camilo Castelo Branco, de 1854 – um fresco de cerca de 4h30, elogiado pela crítica e pelo público, que foi seleccionado para vários festivais (Toronto, Nova Iorque, San Sebastian, São Paulo, Hong-Kong, Buenos Aires) e recebeu prestigiosos prémios, entre outros o Louis-Delluc em 2010, o de Melhor Realização em San Sebastian e o da Crítica em São Paulo.

Continuou a colaborar com Ruiz, para o qual escreveu um novo fresco histórico, As Linhas de Wellington (2012) e O Caderno Negro (2018), que acabariam contudo por ser dirigidos por Valeria Sarmiento, após o falecimento de Ruiz em 2011.

Saboga haveria ainda de ser o tradutor da primeira edição em língua francesa de Os Mistérios de Lisboa (ed. Michel Lafont, 2018, com posfácio de Raul Ruiz).

Carlos Saboga reconheceu que o argumentista tem um “trabalho muito anónimo” que é raramente citado pela crítica, e que tem de lidar com um certo desfasamento entre aquilo que realmente escreve e o que acaba por ser dito pelos atores e que resulta num filme. Começou por ser assistente de realização, mas a escrita de argumentos para cinema e televisão acabou por se ir impondo, ao ponto de pensar que ser realizador “era irrealizável”. Contudo, em 2012, aos 76 anos, Carlos Saboga estreou-se finalmente como realizador com a longa-metragem PHOTO, apresentada no mesmo ano na selecção oficial em competição no Festival de Roma, e estreada em sala em França e em Portugal. O seu segundo filme, A Uma Hora Incerta, sobre dois refugiados franceses de passagem por Lisboa durante a segunda Grande Guerra, foi seleccionado para a Viennale (Viena International Film Festival) em 2015. Ambos os filmes transitam entre Portugal e França, entre o passado e o presente, tal como a sua própria vida”. Apesar da dupla nacionalidade e dos regressos regulares a Portugal, sentiu-se muitas vezes um estrangeiro, num país ou noutro.

Em 2023 a Academia Portuguesa de Cinema distinguiu-o  com o Prémio Sophia Carreira, “pelo impacto imensurável que teve no cinema português desde a década de 80”.

Recentemente, adaptou de novo Camilo Castelo Branco em Memórias do Cárcere, de Sérgio Graciano. Foi o seu derradeiro trabalho, que ainda teve oportunidade de ver e que estreará em Portugal em Setembro de 2026.

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Imagem: do fotoblogue de Renaud Monfourny