{"id":1768,"date":"2026-02-21T10:34:03","date_gmt":"2026-02-21T10:34:03","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1768"},"modified":"2026-03-01T11:34:47","modified_gmt":"2026-03-01T11:34:47","slug":"se-nos-agigantamos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1768","title":{"rendered":"Se Nos Agigantamos\u2026"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Pedro Nunes*<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O conforto \u00e9 muitas vezes um lugar pequeno, seguro, rodeado de &#8220;muralhas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 assustador sair da \u00e1rea de conforto\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Quando somos assolados por uma tempestade como a Kristin, e o seu rasto de destrui\u00e7\u00e3o (\u00e0 qual a Figueira da Foz n\u00e3o escapou), somos imediatamente confrontados com a banalidade do conforto, a impot\u00eancia de nos rodearmos de muralhas e a transcend\u00eancia de um acordar que nos faz ver tudo \u00e0 nossa volta como fr\u00e1gil.<\/p>\n\n\n\n<p>Na m\u00fasica, um dos estilos musicais que consegue representar estas varia\u00e7\u00f5es, \u00e9 post-rock\/p\u00f3s-rock. Se pegarmos num grupo como os Godspeed You! Black Emperor (GY!BE), podemos ouvir algo que vai para al\u00e9m do conforto da can\u00e7\u00e3o, somos levados por &#8220;movimentos&#8221;, crescendos, que atingem muitas vezes uma intensidade que se agiganta.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo para al\u00e9m dos GY!BE s\u00e3o os Swans (grupo liderado por Michael Gira). A sua m\u00fasica \u00e9 f\u00edsica, usa-se o volume como recurso para atingir determinada intensidade, assim como a repeti\u00e7\u00e3o, a vibra\u00e7\u00e3o, etc. algo muito semelhante \u00e0 press\u00e3o sentida por uma tempestade como a Kristin.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2026 perdemos o controlo perante a vibra\u00e7\u00e3o da natureza\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Gira, nos Swans explora a submiss\u00e3o, amadurecendo a sentimento de que o poder pode desumanizar.<\/p>\n\n\n\n<p>A for\u00e7a da m\u00fasica e a for\u00e7a da natureza, ambas podem colocar em causa as estruturas sociais. Nestes momentos as &#8220;muralhas&#8221;, as hierarquias, tornam-se irrelevantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo musical \u00e9 o dos islandeses Sigur R\u00f3s. Apesar de se tratar de uma sonoridade mais suave, exploram um cen\u00e1rio vasto e et\u00e9reo. Ali\u00e1s, uma das marcas criativas do grupo \u00e9 o uso do arco de violoncelo na guitarra, o que provoca um som que parece vindo do fundo do mar. Estes cantam numa l\u00edngua inventada (Vonlenska), e desta forma libertam o ouvinte do controlo da linguagem, n\u00e3o deixando margem para a explica\u00e7\u00e3o. \u00c9 a m\u00fasica a abrir-se ao mist\u00e9rio e a tanta coisa que n\u00e3o conseguimos compreender.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixo mais um exemplo musical, os Sunn O))). Algo mais extremo, muitas vezes dif\u00edcil de &#8220;apreciar&#8221; mas que \u00e9 representativo do sentido figurado da tempestade. Aqui as notas s\u00e3o graves e prolongadas at\u00e9 criarem um drone que perturba a no\u00e7\u00e3o do tempo, destroem-se as estruturas r\u00edtmicas, ficando apenas a resson\u00e2ncia\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como na m\u00fasica, as tempestades despertam rituais que abalam as estruturas sob as quais nos movimentamos, cheios de pressa, a olhar para o rel\u00f3gio que nos indica quando tudo come\u00e7a e acaba&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O nosso controlo \u00e9 ter uma cidade de luzes acesas, o descontrolo \u00e9 a Kristin. Somos pequenos perante uma tempestade assim. Por\u00e9m, assim como na m\u00fasica, podemos agigantarmo-nos \u00e0 f\u00faria da natureza e coletivamente repararmos aquilo que for poss\u00edvel daquilo que esta nos resta&#8230; H\u00e1 aqui um claro ato de humildade, aceitamos o ru\u00eddo, em vez de o tentar controlar. Ao contr\u00e1rio do punk que \u00e9 um grito de rebeli\u00e3o, no post-rock temos a resist\u00eancia e a persist\u00eancia. \u00c9 aqui que nos agigantamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Resistimos e persistimos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Figueira da Foz, 6 de fevereiro de 2026<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Imagem:<\/strong> Tempestade Kristin na Figueira da Foz, fotografia de Paulo Novais (LUSA)<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-nowrap is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-6c531013 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-medium\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"296\" height=\"300\" src=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/foto11-296x300.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1770\" srcset=\"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/foto11-296x300.png 296w, http:\/\/odezanovedejunho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/foto11.png 320w\" sizes=\"(max-width: 296px) 100vw, 296px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>*Pedro Nunes, soci\u00f3logo e mediador lingu\u00edstico e cultural por of\u00edcio. Residente na Figueira da Foz, o seu percurso cruza projetos de inclus\u00e3o social com a funda\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de cultura independente. Interessa-se pelas linguagens, manifestas ou latentes, que definem a nossa rela\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio e com os outros.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Pedro Nunes* O conforto \u00e9 muitas vezes um lugar pequeno, seguro, rodeado de &#8220;muralhas&#8221;. \u00c9 assustador sair da \u00e1rea de conforto\u2026 Quando somos assolados por uma tempestade como a Kristin, e o seu rasto de destrui\u00e7\u00e3o (\u00e0 qual a Figueira da Foz n\u00e3o escapou), somos imediatamente confrontados com a banalidade do conforto, a impot\u00eancia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1769,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"saved_in_kubio":false,"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-1768","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-passarola"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1768"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1768\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1772,"href":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1768\/revisions\/1772"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1769"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}