{"id":1773,"date":"2026-03-01T11:35:53","date_gmt":"2026-03-01T11:35:53","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1773"},"modified":"2026-03-01T11:37:07","modified_gmt":"2026-03-01T11:37:07","slug":"arqueologia-para-quem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1773","title":{"rendered":"Arqueologia para quem?"},"content":{"rendered":"\n<p>O Audit\u00f3rio Madalena Biscaia Perdig\u00e3o retomou esta semana a 10\u00aa edi\u00e7\u00e3o do ciclo de confer\u00eancias sobre Arqueologia e Arte depois da pausa de Carnaval, com \u201cArqueologia nas margens: Comunidade, mem\u00f3ria e resist\u00eancia no espa\u00e7o social\u201d, por T\u00e2nia Casimiro. Depois de duas tardes dedicadas a explicar o que \u00e9 afinal de contas a arqueologia, desta vez desafiou-se o pr\u00f3prio conceito, para perguntar o que a arqueologia pode ser, o que pode fazer e por quem.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e2nia Casimiro \u00e9 investigadora na Universidade de Sterling, no Reino Unido, e det\u00e9m um curr\u00edculo impressionante, com diversas bolsas de investiga\u00e7\u00e3o, mais de 200 publica\u00e7\u00f5es e participa\u00e7\u00f5es em escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas por todo o mundo. Mas n\u00e3o \u00e9 por isso que segue as correntes dominantes da sua \u00e1rea. Chama ao que faz \u201carqueologia social\u201d, porque o seu interesse centra-se n\u00e3o nos objectos e nas infraestruturas \u2013 por mais que os reconhe\u00e7a como a base concreta da pr\u00e1tica da arqueologia \u2013 mas nas pessoas, o que pensaram e sentiram ao longo da hist\u00f3ria, e o que pensam e sentem agora. O resultado \u00e9 uma arqueologia \u201cnas margens\u201d, das conven\u00e7\u00f5es actuais da disciplina e tamb\u00e9m dedicada \u00e0s margens da sociedade: o isolamento s\u00e9nior, os bairros tempor\u00e1rios, viv\u00eancias frequentemente esquecidas ou ignoradas e que deixam para tr\u00e1s objectos do quotidiano, e afinal de contas \u00e9 o quotidiano da Humanidade que a arqueologia estuda. E estuda para qu\u00ea? Para tentar ter algum impacto social e pol\u00edtico na sociedade actual, espera T\u00e2nia Casimiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Num dos projectos que partilhou, denominado Arqueologia do Isolamento S\u00e9nior, foram feitas \u201cescava\u00e7\u00f5es\u201d arqueol\u00f3gicas nas casas de idosos recentemente falecidos que se revelaram janelas para todo um mundo da vida nos s\u00e9culos XX e XXI portugueses. O tipo de achados prosaicos que seriam tidos como um tesouro se fossem do Imp\u00e9rio Romano, disse Casimiro, portanto n\u00e3o ser\u00e3o tesouros nossos para arque\u00f3logos do futuro? Porque n\u00e3o podem ser tesouros para n\u00f3s agora, para olharmos para n\u00f3s pr\u00f3prios enquanto ainda podemos fazer alguma coisa?<\/p>\n\n\n\n<p>A palestra teve mais perguntas que respostas, porque as perguntas que dev\u00edamos estar a fazer n\u00e3o t\u00eam ainda respostas definitivas. Quando um local arqueol\u00f3gico tem mem\u00f3rias ainda vivas, pessoas que se lembram de como as coisas eram, o que deve a arqueologia a essas pessoas? Que responsabilidades \u00e9ticas distinguem um arque\u00f3logo de um explorador urbano nestes casos? Que responsabilidades \u00e9ticas e possibilidades construtivas est\u00e1 a arqueologia a renegar se se focar no passado e ignorar o presente?<\/p>\n\n\n\n<p>Outra escava\u00e7\u00e3o que se debru\u00e7ou sobre estas quest\u00f5es partiu de um projecto art\u00edstico intitulado Arqueologias de Destrui\u00e7\u00e3o, mais especificamente a destrui\u00e7\u00e3o dos bairros do Segundo Torr\u00e3o em Almada e do Talude em Loures. Reina em Lisboa (e n\u00e3o s\u00f3) uma matem\u00e1tica desumana sob a qual existem sal\u00e1rios mais baixos que qualquer renda, de maneira que enquanto alguns apartamentos s\u00e3o alugados exclusivamente a n\u00f3madas digitais, milhares de pessoas vivem em bairros de barracas sem electricidade nem \u00e1gua canalizada, at\u00e9 que esses bairros s\u00e3o declarados ilegais e destru\u00eddos. S\u00e3o deixados para tr\u00e1s os vest\u00edgios de popula\u00e7\u00f5es nas margens, que s\u00e3o omitidas dos postais da cidade, e esses vest\u00edgios s\u00e3o prova de que estas comunidades existem, e portanto prova das condi\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas que levaram a isso. Uma arqueologia posta ao servi\u00e7o desta escava\u00e7\u00e3o pode fazer mais pela sociedade actual que \u201cproduzir museus\u201d, e pode ter um alcance para l\u00e1 das elites que t\u00eam acesso aos museus. T\u00e2nia Casimiro neste ponto perguntou quantas pessoas visitam o Museu Municipal Santos Rocha por ano e recebeu como resposta sete mil; ao que ripostou que s\u00f3 num destes bairros vivem quase quatro mil pessoas. Mais uma quest\u00e3o-chave, com que ela lidar\u00e1 muito tamb\u00e9m na sua investiga\u00e7\u00e3o sobre legados coloniais: a arqueologia \u00e9 para quem? Para os resultados do trabalho serem vistos por quem? Para potencialmente ter impactos concretos nas vidas de quem?<\/p>\n\n\n\n<p>Casimiro acredita que a arqueologia deve ser para todos, do passado e do presente; quando olha para um muro antigo v\u00ea n\u00e3o s\u00f3 as pedras mas tamb\u00e9m os graffiti, e o papel social contempor\u00e2neo que esse muro passou a desempenhar atrav\u00e9s desses graffiti, feitos por pessoas que queriam deixar a sua marca por vezes at\u00e9 sem saber a idade do muro. Ela afirma que se forem agora desenhar nas paredes das grutas do Vale do C\u00f4a isso n\u00e3o \u00e9 vandalismo, \u00e9 continuidade hist\u00f3rica, \u00e9 tudo hist\u00f3ria da Humanidade. E diz que \u201cum cantor de interven\u00e7\u00e3o usa a cantiga como arma. Se eu puder usar a arqueologia, \u00e9 a minha arma social\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela perguntou \u201cporque \u00e9 que a arqueologia se deve interessar por quem ainda est\u00e1 vivo?\u201d \u2013 porque estamos vivos agora, todos juntos, uns para os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Imagem: <\/strong>Arqueologias de Destrui\u00e7\u00e3o, Susana Santa-Marta, 2024<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Audit\u00f3rio Madalena Biscaia Perdig\u00e3o retomou esta semana a 10\u00aa edi\u00e7\u00e3o do ciclo de confer\u00eancias sobre Arqueologia e Arte depois da pausa de Carnaval, com \u201cArqueologia nas margens: Comunidade, mem\u00f3ria e resist\u00eancia no espa\u00e7o social\u201d, por T\u00e2nia Casimiro. 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