{"id":1778,"date":"2026-03-03T11:34:20","date_gmt":"2026-03-03T11:34:20","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1778"},"modified":"2026-03-03T11:34:20","modified_gmt":"2026-03-03T11:34:20","slug":"carlos-saboga-um-escritor-de-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1778","title":{"rendered":"Carlos Saboga, um escritor de cinema"},"content":{"rendered":"\n<p>A 27 de fevereiro faleceu em Paris, aos oitenta e nove anos, um dos mais not\u00e1veis argumentistas do cinema portugu\u00eas e europeu. Carlos Saboga nasceu a 17 de Dezembro de 1936 na Figueira da Foz onde, tal como Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, haveria de descobrir o cinema. <strong>\u201c<em>O cinema tem uma rela\u00e7\u00e3o estreita com a inf\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e9 tanto &#8216;decidi fazer cinema&#8217;. O cinema caiu-me em cima. Ia muito ao cinema quando era mi\u00fado e come\u00e7ou no per\u00edodo da guerra&#8230;\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Filho mais novo do conhecido militante comunista Agostinho Saboga, o jovem Carlos tamb\u00e9m foi detido, por duas vezes, pela PIDE. Foi para Lisboa e chegou a integrar, com Ant\u00f3nio-Pedro Vasconcelos, Alberto Seixas Santos e Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, o grupo de jovens intelectuais que se encontrava regularmente no Vav\u00e1 mas deixou o pa\u00eds assim que p\u00f4de &#8211; em 1965, a salto e sem documentos &#8211; com uma equipa francesa que tinha vindo filmar a Portugal. Viveu sucessivamente em Paris, Roma, Argel, e de novo em Paris onde finalmente se radicou.<\/p>\n\n\n\n<p>Com uma ampla e premiada obra, ao longo dos anos Carlos Saboga exerceu <strong><em>\u201ccom mais ou menos convic\u00e7\u00e3o e assiduidade, raramente recompensado, sem diplomas\u201d<\/em><\/strong>, como gostava de dizer, as actividades de tradutor, assistente de realiza\u00e7\u00e3o, jornalista (cronista, rep\u00f3rter, correspondente, cr\u00edtico de cinema), tanto na imprensa como na r\u00e1dio e na televis\u00e3o. Participou, de diversas formas n\u00e3o creditadas, em filmes como <em>La Jeune Morte<\/em> (1965) de Claude Faraldo, <em>Il Sasso in Bocca<\/em> (1969) de Giuseppe Ferrara, <em>Jacquou le Croquant<\/em> (1969) de Stellio Lorenzi e escreveu argumentos para a televis\u00e3o e para o cinema, em Portugal e em Fran\u00e7a, tendo colaborado, entre outros, com os realizadores portugueses Ant\u00f3nio-Pedro Vasconcelos, Jos\u00e9 Fonseca e Costa, Lu\u00eds Galv\u00e3o Telles, Fernando Lopes e M\u00e1rio Barroso e com os chilenos Raul Ruiz e Valeria Sarmiento.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio dos anos 70 que o trabalho de Carlos Saboga foi aclamado pela cr\u00edtica internacional. Recebeu em 1984 o Pr\u00e9mio FPCC do melhor argumento para <em>O Lugar do Morto<\/em>, realizado por Ant\u00f3nio-Pedro Vasconcelos. Colaborou novamente com Vasconcelos em 1999, em <em>Jaime<\/em>, que venceu o Pr\u00e9mio Especial do J\u00fari no Festival de San Sebastian e o Pr\u00e9mio Cannes Junior no Festival de Cannes. A mini-s\u00e9rie <em>Les Filles du Ma\u00eetre de Chai<\/em>, realizada por Fran\u00e7ois Luciani em 1997, recebeu o Grand Prix du S\u00e9nat para melhor s\u00e9rie francesa e 7 nomea\u00e7\u00f5es para os \u201c7 d\u2019Or\u201d. Escreveu o argumento dos filmes de M\u00e1rio Barroso, <em>O Milagre Segundo Salom\u00e9<\/em>, em 2004, e <em>Um Amor de Perdi\u00e7\u00e3o<\/em>, em 2007, <em>Ordem Moral<\/em>, em 2021,selecionados para alguns dos maiores festivais (San Sebastian, Buenos Aires\u2026).<\/p>\n\n\n\n<p>Carlos Saboga foi tamb\u00e9m o argumentista de <em>Mist\u00e9rios de Lisboa<\/em>, derradeira obra-prima de Ra\u00fal Ruiz \u2013 numa adapta\u00e7\u00e3o do romance hom\u00f3nimo de Camilo Castelo Branco, de 1854 \u2013 um fresco de cerca de 4h30, elogiado pela cr\u00edtica e pelo p\u00fablico, que foi seleccionado para v\u00e1rios festivais (Toronto, Nova Iorque, San Sebastian, S\u00e3o Paulo, Hong-Kong, Buenos Aires) e recebeu prestigiosos pr\u00e9mios, entre outros o Louis-Delluc em 2010, o de Melhor Realiza\u00e7\u00e3o em San Sebastian e o da Cr\u00edtica em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuou a colaborar com Ruiz, para o qual escreveu um novo fresco hist\u00f3rico, <em>As Linhas de Wellington<\/em> (2012) e <em>O Caderno Negro<\/em> (2018), que acabariam contudo por ser dirigidos por Valeria Sarmiento, ap\u00f3s o falecimento de Ruiz em 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>Saboga haveria ainda de ser o tradutor da primeira edi\u00e7\u00e3o em l\u00edngua francesa de <em>Os Mist\u00e9rios de Lisboa<\/em> (ed. Michel Lafont, 2018, com posf\u00e1cio de Raul Ruiz).<\/p>\n\n\n\n<p>Carlos Saboga reconheceu que o argumentista tem um <strong><em>\u201ctrabalho muito an\u00f3nimo\u201d<\/em><\/strong> que \u00e9 raramente citado pela cr\u00edtica, e que tem de lidar com um certo desfasamento entre aquilo que realmente escreve e o que acaba por ser dito pelos atores e que resulta num filme. Come\u00e7ou por ser assistente de realiza\u00e7\u00e3o, mas a escrita de argumentos para cinema e televis\u00e3o acabou por se ir impondo, ao ponto de pensar que ser realizador <strong><em>\u201cera irrealiz\u00e1vel\u201d<\/em><\/strong>. Contudo, em 2012, aos 76 anos, Carlos Saboga estreou-se finalmente como realizador com a longa-metragem PHOTO, apresentada no mesmo ano na selec\u00e7\u00e3o oficial em competi\u00e7\u00e3o no Festival de Roma, e estreada em sala em Fran\u00e7a e em Portugal. O seu segundo filme, <em>A Uma Hora Incerta<\/em>, sobre dois refugiados franceses de passagem por Lisboa durante a segunda Grande Guerra, foi seleccionado para a Viennale (Viena International Film Festival) em 2015. Ambos os filmes <strong>\u201c<em>transitam entre Portugal e Fran\u00e7a, entre o passado e o presente, tal como a sua pr\u00f3pria vida\u201d<\/em><\/strong><em>. <\/em>Apesar da dupla nacionalidade e dos regressos regulares a Portugal, sentiu-se muitas vezes um estrangeiro, num pa\u00eds ou noutro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2023 a Academia Portuguesa de Cinema distinguiu-o&nbsp; com o Pr\u00e9mio Sophia Carreira, <strong><em>&#8220;pelo impacto imensur\u00e1vel que teve no cinema portugu\u00eas desde a d\u00e9cada de 80&#8221;<\/em><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, adaptou de novo Camilo Castelo Branco em <em>Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere<\/em>, de S\u00e9rgio Graciano. Foi o seu derradeiro trabalho, que ainda teve oportunidade de ver e que estrear\u00e1 em Portugal em Setembro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Imagem: <\/strong>do fotoblogue de <a href=\"http:\/\/blogs.lesinrocks.com\/photos\/\">Renaud Monfourny<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A 27 de fevereiro faleceu em Paris, aos oitenta e nove anos, um dos mais not\u00e1veis argumentistas do cinema portugu\u00eas e europeu. Carlos Saboga nasceu a 17 de Dezembro de 1936 na Figueira da Foz onde, tal como Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, haveria de descobrir o cinema. \u201cO cinema tem uma rela\u00e7\u00e3o estreita com a inf\u00e2ncia. 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