{"id":1790,"date":"2026-03-24T11:01:21","date_gmt":"2026-03-24T11:01:21","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1790"},"modified":"2026-03-24T11:01:21","modified_gmt":"2026-03-24T11:01:21","slug":"raizes-do-oriente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1790","title":{"rendered":"Ra\u00edzes do Oriente"},"content":{"rendered":"\n<p>Terminou na passada quarta-feira a 10\u00aa edi\u00e7\u00e3o do ciclo de confer\u00eancias sobre Arqueologia, promovido pelos servi\u00e7os culturais do Munic\u00edpio da Figueira da Foz em parceria com a Associa\u00e7\u00e3o Viver em Alegria e a Livraria do Largo. Este ano, a par da celebra\u00e7\u00e3o do 132.\u00ba anivers\u00e1rio do Museu Municipal Santos Rocha, o ciclo passou a incluir temas de Arte, e concluiu o certame com uma palestra que fundiu arte, hist\u00f3ria, e o esp\u00f3lio do Museu: <strong>\u201cTestemunhos materiais da presen\u00e7a de Portugal na \u00c1sia nos s\u00e9culos XVI a XVIII: As colchas de motivos bot\u00e2nicos ao modo da \u00cdndia e da P\u00e9rsia do Museu Municipal Santos Rocha\u201d<\/strong>, por Ana Barros Ferraz, mestre em Hist\u00f3ria da Arte da \u00c9poca moderna, especialista em t\u00eaxteis orientais.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica inicial come\u00e7ou com uma visualiza\u00e7\u00e3o de uma resid\u00eancia senhorial do s\u00e9culo XVI: por costume da \u00e9poca a mob\u00edlia n\u00e3o era muita, e era h\u00e1bito mud\u00e1-la de um lado para outro muito mais do que agora, portanto o encargo de decorar a casa, com tudo o que isso implicava \u2013 beleza, ostenta\u00e7\u00e3o de riqueza \u2013 ia para os t\u00eaxteis. Havia alcatifas, tape\u00e7arias, panos de armar, estofos, estrados, coberturas de paredes, doss\u00e9is de camas, colchas, revestimentos de cadeiras, riqu\u00edssimos em cores, com fio de ouro, prata, seda\u2026 e eram tidos como alguns dos objectos mais valiosos de uma casa, acima deles s\u00f3 os ouros, pratas e j\u00f3ias.<\/p>\n\n\n\n<p>As tape\u00e7arias eram \u201ca decora\u00e7\u00e3o figurativa por excel\u00eancia\u201d, com muitas feitas em Fran\u00e7a e na B\u00e9lgica a partir de quadros, eventos hist\u00f3ricos ou elementos do quotidiano com carga simb\u00f3lica \u2013 essas s\u00e3o agora uma fonte importante de informa\u00e7\u00e3o sobre os pequenos pormenores desse quotidiano, como o que as pessoas vestiam e que ferramentas usavam, por exemplo. J\u00e1 em termos de tapetes os mais bem-vistos eram os espanh\u00f3is, os turcos e os mais valiosos, os persas, notando-se aqui uma abertura para o Oriente, que se tornou o centro do mundo no que toca \u00e0s colchas aqui faladas.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o estabelecimento da Carreira da \u00cdndia surgiu \u201cuma nova cultura material\u201d, uma \u201cnecessidade de posse do luxo dos interiores dom\u00e9sticos\u201d, e uma burguesia que se tentava aproximar dos h\u00e1bitos dos nobres, das igrejas e das fam\u00edlias reais. E apareceram os gabinetes de curiosidades, que muitas vezes inclu\u00edam curiosidades do mundo natural junto com t\u00eaxteis asi\u00e1ticos (tudo tipos adjacentes de ex\u00f3tico para a mente colonial europeia). Eram muito apreciadas as colchas bordadas e impressas, da China e da \u00cdndia, e quando abriu uma \u201cf\u00e1brica\u201d ligada a Portugal no s\u00e9culo XVII no estado indiano de Gujarat, os motivos hist\u00f3ricos e mitol\u00f3gicos europeus foram abandonados a favor de inspira\u00e7\u00f5es bot\u00e2nicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi este o percurso hist\u00f3rico que levou \u00e0s colchas sobre as quais se debru\u00e7ou Ana Barros Ferraz, no trabalho in\u00e9dito que desenvolveu na sua tese de mestrado. Vinte pe\u00e7as, espalhadas pelo pa\u00eds em pal\u00e1cios, igrejas, museus, foram descritas e analisadas ao pormenor de forma sistematizada pela primeira vez. Estes objectos \u201creflectem a mistura cultural que havia no reino\u201d nos s\u00e9culos XVII e XVIII, e a sua an\u00e1lise revela tamb\u00e9m a influ\u00eancia do Oriente em formas de arte normalmente consideradas mais hermeticamente portuguesas: tapetes de Arraiolos e colchas bordadas de Castelo Branco passaram a servir como \u201cprodu\u00e7\u00f5es de substitui\u00e7\u00e3o\u201d, pe\u00e7as que reproduziam as est\u00e9ticas indianas, chinesas e persas de formas que quem n\u00e3o tinha dinheiro para as originais podia comprar.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a observa\u00e7\u00e3o destas influ\u00eancias nas colchas de Castelo Branco que levou originalmente Ana Barros Ferraz, licenciada em Direito e mais tarde rendida \u00e0 sua paix\u00e3o pela Hist\u00f3ria da Arte, a abordar este tema no seu mestrado. Teve de escrever descri\u00e7\u00f5es que nunca tinham sido feitas, cruzar dados dispersos, pedir autoriza\u00e7\u00f5es especiais para ver e fotografar pe\u00e7as escondidas, e o resultado foi um trabalho pioneiro de aplaudir. O espanto \u00e9 perceber que estes objectos, que sintetizam tanto da rela\u00e7\u00e3o entre um Portugal de hierarquias sociais e econ\u00f3micas e uma \u00c1sia em processo de coloniza\u00e7\u00e3o, nunca tinham sido estudados.<\/p>\n\n\n\n<p>Como s\u00e3o ent\u00e3o estas colchas? S\u00e3o imponentes, com cerca de dois a tr\u00eas metros cada uma, todas com uma face frontal de seda e um refor\u00e7o de linho, bordadas com os mesmos tipos de pontos, e paletes de cores fixas. Algumas das cores j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o o que eram, e o que se pode induzir sobre quais seriam as cores originais depender\u00e1 de mais estudos \u2013 h\u00e1 sempre mais para investigar, \u00e9 preciso \u00e9 pessoas que o fa\u00e7am. T\u00eam todas a mesma estrutura de frisos, de influ\u00eancia persa. Dividem-se em tr\u00eas grupos, num gradiente de um extremo com flores de esp\u00e9cies asi\u00e1ticas mais estilizadas e com mais cores, a outro com flores mais literais e imag\u00e9tica mais europeizada como vasos e grinaldas. Resumidamente, s\u00e3o trabalhos impressionantes de bordado que tra\u00e7am quase duzentos anos de rela\u00e7\u00f5es entre dois continentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Como com tudo em Portugal, h\u00e1 poucos registos, muita gente ao longo dos s\u00e9culos que n\u00e3o quis saber da proveni\u00eancia de nada e deixou os historiadores do presente sem pontas por onde pegar, e \u00e9 por vezes dif\u00edcil distinguir pe\u00e7as indianas, de portuguesas, de indianas feitas por encomenda portuguesa. Pod\u00edamos talvez aprender alguma coisa com o qu\u00e3o misturadas as nossas culturas est\u00e3o h\u00e1 tanto tempo, e por outro lado tamb\u00e9m com o resultado a longo prazo do desprezo pelo contexto hist\u00f3rico e social da arte. Mas gra\u00e7as a pessoas que decidem p\u00f4r m\u00e3os \u00e0 obra e investigar, vamos aprendendo mais sobre a nossa hist\u00f3ria, atrav\u00e9s da arte. Uma ideia animadora que foi uma excelente conclus\u00e3o para este ciclo de confer\u00eancias de Arqueologia e Arte.<\/p>\n\n\n\n<p>Podem ver tr\u00eas destas colchas no Museu Municipal Santos Rocha, e outra estar\u00e1 vis\u00edvel na Igreja Buarcos quando abrir para esta Semana Santa. H\u00e1 muito para ver nelas, se se souber olhar. A tese de mestrado de Ana Barros Ferraz pode ser lida na \u00edntegra <a href=\"https:\/\/run.unl.pt\/entities\/publication\/5bf73548-e78a-4fe7-a9a7-ce2d16ceda6a\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/run.unl.pt\/entities\/publication\/5bf73548-e78a-4fe7-a9a7-ce2d16ceda6a\">aqui<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Imagem:<\/strong> detalhe de uma das colchas em exposi\u00e7\u00e3o no Museu Municipal Santos Rocha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Terminou na passada quarta-feira a 10\u00aa edi\u00e7\u00e3o do ciclo de confer\u00eancias sobre Arqueologia, promovido pelos servi\u00e7os culturais do Munic\u00edpio da Figueira da Foz em parceria com a Associa\u00e7\u00e3o Viver em Alegria e a Livraria do Largo. 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