{"id":1793,"date":"2026-03-29T11:18:09","date_gmt":"2026-03-29T11:18:09","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1793"},"modified":"2026-03-29T11:18:09","modified_gmt":"2026-03-29T11:18:09","slug":"se-isto-e-uma-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1793","title":{"rendered":"Se Isto \u00e9 uma Sociedade"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Pedro Nunes*<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Primo Levi escreveu \u201cSe Questo \u00e8 un Uomo\u201d como uma pergunta dirigida aos algozes &#8211; provai-me que ainda s\u00e3o humanos. Decorreram 4 anos desde o in\u00edcio da invas\u00e3o russa \u00e0 Ucr\u00e2nia &#8211; provai-me que ainda somos uma sociedade. Coloquemos no gira-discos duas m\u00fasicas que representaram a Ucr\u00e2nia no festival da can\u00e7\u00e3o, \u201cShum\u201d de Go_A e \u201cStefania\u201d dos Kalush Orchestra &#8211; em ambas, a tradi\u00e7\u00e3o folcl\u00f3rica (instrumentos, dan\u00e7as, etc.), misturam-se com o contempor\u00e2neo (house, trap, hip-hop, etc.). Trata-se de uma afirma\u00e7\u00e3o de identidade num momento em que essa identidade est\u00e1 a ser apagada pela for\u00e7a. Para n\u00f3s, que vivemos \u00e0 beira-mar, a guerra n\u00e3o \u00e9 abstrata, j\u00e1 que nos cruzamos todos os dias com os rostos que vieram de l\u00e1. A guerra de algu\u00e9m \u00e9 sempre a guerra de todos, porque a indiferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 neutralidade \u2014 \u00e9 uma escolha. E quando escolhemos n\u00e3o ver, tornamo-nos c\u00famplices do sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 a saudade dos ucranianos? \u00c9 a mesma saudade portuguesa, a de um lamento sobre a forma de m\u00fasica nas cordas de uma guitarra dedilhada at\u00e9 \u00e0s l\u00e1grimas, acompanhada na voz pelo Fado? A saudade que \u00e9 dor para l\u00e1 do corpo, um torpor que nos amarra os pensamentos, que nos atira para um passado que j\u00e1 n\u00e3o volta mais. Gostava que esta saudade fosse outra, a saudade da Bossa Nova, a que o escritor Osvaldo Orico descreveu como sendo mais feliz que triste, mais imagina\u00e7\u00e3o que dor\u2026 a saudade que em vez de chorar, canta! Ficamos \u00e0 janela vigilantes pela aurora da vida, enquanto a vela se despede e aquece o quarto num halo quente, mas cansado pela paz que tarda em aparecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ucraniano existe a palavra \u0442\u0443\u0433\u0430 (tuha) &#8211; um lamento, uma saudade profunda, enraizada na terra e na perda. N\u00e3o \u00e9 exatamente o mesmo que o fado, nem a leveza da bossa nova. \u00c9 algo mais antigo, mais coletivo, ligado \u00e0 mem\u00f3ria de um povo que tem sido sistematicamente privado da sua identidade &#8211; pelos czares, pelos sovi\u00e9ticos, e agora pela R\u00fassia de Putin. E essa tuha tinha quem a cantasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Os kobzari eram m\u00fasicos ambulantes, muitas vezes cegos, percorriam as aldeias ucranianas a cantar dumy &#8211; baladas que preservam a mem\u00f3ria coletiva do povo. Tocavam bandura, um instrumento de cordas que parece um cruzamento entre uma harpa e um ala\u00fade. O regime sovi\u00e9tico de Estaline reuniu centenas deles numa confer\u00eancia em 1930 e mandou-os executar ou deportar &#8211; porque percebeu que matar a mem\u00f3ria cultural era matar um povo. N\u00e3o h\u00e1 imagem mais clara de que a guerra atual n\u00e3o \u00e9 nova. Tamb\u00e9m n\u00f3s sabemos o que \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o guardar aquilo que o poder quer apagar. A PIDE proibiu \u201cGr\u00e2ndola, Vila Morena\u201d porque percebeu, tal como Estaline com os kobzari que matar a mem\u00f3ria cultural \u00e9 matar um povo. Felizmente, essa m\u00fasica foi o sinal da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril. A m\u00fasica sobreviveu \u00e0 censura e tornou-se o som da liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>E talvez seja essa resposta \u00e0 pergunta de Primo Levi: uma sociedade que ainda \u00e9 sociedade \u00e9 aquela que quando n\u00e3o pode chorar, canta. E n\u00f3s, do lado de fora, estamos a ouvir?<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Imagem:<\/strong> fotografia de um grupo de kobzari na cidade de Okhtyrka em 1911.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>*Pedro Nunes, soci\u00f3logo e mediador lingu\u00edstico e cultural por of\u00edcio. Residente na Figueira da Foz, o seu percurso cruza projetos de inclus\u00e3o social com a funda\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de cultura independente. Interessa-se pelas linguagens, manifestas ou latentes, que definem a nossa rela\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio e com os outros.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Pedro Nunes* Primo Levi escreveu \u201cSe Questo \u00e8 un Uomo\u201d como uma pergunta dirigida aos algozes &#8211; provai-me que ainda s\u00e3o humanos. Decorreram 4 anos desde o in\u00edcio da invas\u00e3o russa \u00e0 Ucr\u00e2nia &#8211; provai-me que ainda somos uma sociedade. 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