{"id":733,"date":"2025-04-24T12:53:52","date_gmt":"2025-04-24T12:53:52","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=733"},"modified":"2025-04-24T12:53:52","modified_gmt":"2025-04-24T12:53:52","slug":"a-ontologia-do-inexistente-reflexoes-sobre-a-nomenclatura-efemera-de-uma-associacao-de-ideias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=733","title":{"rendered":"A Ontologia do Inexistente: Reflex\u00f5es Sobre a Nomenclatura Ef\u00e9mera de uma Associa\u00e7\u00e3o de Ideias"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por<\/em> <em><strong>Jos\u00e9 Luiz Igl\u00e9sias<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>&#8220;\u00c0s vezes, o caos da escolha \u00e9 o primeiro passo para a cria\u00e7\u00e3o.<\/em><br><em>O nome, assim como a arte, surge do inesperado, da decis\u00e3o que nunca pode ser justificada.&#8221;<\/em><br>\u2014\u00a0<strong>Teodoro V. Allier<\/strong>,\u00a0<em>Escritos sobre a Aleatoriedade e o Significado<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O<em> O Dezanove de Junho <\/em>repousa como uma tempestade silenciosa no seio da hist\u00f3ria, tecendo-se entre o real e o imagin\u00e1rio, entre o vis\u00edvel e o oculto. Tal nome n\u00e3o \u00e9 fruto de uma escolha meramente cronol\u00f3gica ou anacr\u00f3nica, mas sim um acto de semiose, uma fragmenta\u00e7\u00e3o de significados que escapam \u00e0 pr\u00f3pria raz\u00e3o. Assim como a Figueira da Foz, a qual se assume simultaneamente como um porto de chegada e um ponto de fuga, o O\u00a0<em>Dezanove de Junho<\/em>\u00a0representa a intersec\u00e7\u00e3o de ciclos temporais que n\u00e3o podem ser compreendidos com a aus\u00eancia de se viver uma experi\u00eancia de ruptura \u2013 ou, talvez, de repeti\u00e7\u00e3o infinita.<\/p>\n\n\n\n<p>Junho \u00e9 um m\u00eas de transi\u00e7\u00e3o, um momento de suspens\u00e3o entre a primavera que se despede e o ver\u00e3o que se insinua. E o&nbsp;19 de Junho, especificamente, \u00e9 uma data que se recusa a ser aprisionada pela mem\u00f3ria hist\u00f3rica. Quando se observa o&nbsp;19 de Junho, parece que o pr\u00f3prio tempo se curva, esquecendo-se da sua linearidade. Em 1865, \u00e0 guisa de exemplo, o&nbsp;19 de Junho&nbsp;\u00e9 uma data que n\u00e3o apenas prenuncia um caos pol\u00edtico iminente, uma batalha de vontades, mas tamb\u00e9m, mais tarde, o reflexo de um continente em reconfigura\u00e7\u00e3o *. Mas ser\u00e1 que, realmente, foi nesse dia que a hist\u00f3ria se virou para o futuro? Ou ser\u00e1 que o nome&nbsp;<em>O Dezanove de Junho<\/em>&nbsp;evoca algo mais \u00edntimo e profundo, uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria colectiva que nunca se ter\u00e1 materializado?<\/p>\n\n\n\n<p>Na l\u00f3gica semiol\u00f3gica, <em>Dezanove<\/em> \u00e9 um n\u00famero \u00edmpar que perturba. Distanciando-se da simetria dos m\u00faltiplos de dez e de dois, cria, assim, uma disson\u00e2ncia estrutural que nos alerta para uma quebra na sequ\u00eancia. O&nbsp;<em>Dezanove<\/em>&nbsp;diz-nos algo sobre a pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o da cultura e do significado: a indivisibilidade, a singularidade, o n\u00famero que nunca se fecha, mas se reinventa. O n\u00famero<em> Dezanove<\/em> \u00e9 o&nbsp;<em>significante<\/em>&nbsp;que n\u00e3o se limita a um&nbsp;<em>significado<\/em>; ele escapa, ele dilui os limites da interpreta\u00e7\u00e3o, oferecendo-se a novas camadas de leitura. E \u00e9 precisamente este esp\u00edrito de transgress\u00e3o e incompletude que o nome desta associa\u00e7\u00e3o de ideias carrega consigo: um convite para explorar o que est\u00e1 para al\u00e9m da explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, para percorrer os labirintos do imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<em>O Dezanove de Junho<\/em>&nbsp;n\u00e3o nos foi dado para ser compreendido, mas para ser vivido. O nome \u00e9 uma enuncia\u00e7\u00e3o silenciosa, como um grito que se dissolve nas ondas do Atl\u00e2ntico, na imensid\u00e3o do mar que envolve a Figueira da Foz, mas que tamb\u00e9m a mant\u00e9m distante, suspensa. No fundo, \u00e9 um nome que est\u00e1 para al\u00e9m da compreens\u00e3o direta, convidando \u00e0 experi\u00eancia de uma fuga para o desconhecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Linguisticamente, a express\u00e3o <em>O Dezanove de Junho<\/em> \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o curiosa. O artigo definido <em>O,<\/em> com sua firmeza quase monol\u00edtica, preenche uma lacuna de indefini\u00e7\u00e3o. <em>O<\/em> \u00e9, em si, um s\u00edmbolo de autoridade, mas tamb\u00e9m de indetermina\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o define o que vem depois, mas coloca o significado em espera. E <em>O Dezanove de Junho<\/em>, com sua pr\u00f3pria ambiguidade de unidade, soa como uma senten\u00e7a de indecis\u00e3o: \u00e9 uma data que n\u00e3o se sabe se pertence ao passado ou ao futuro. O <em>O Dezanove de Junho<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma data, \u00e9 uma possibilidade de data, um espa\u00e7o vazio onde o significado ainda est\u00e1 sendo gestado, esperando para se materializar \u2013 ou n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Figueira da Foz, cuja localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica parece ser a fronteira entre a terra e o mar, o&nbsp;<em>O Dezanove de Junho<\/em>&nbsp;tem a presen\u00e7a de um momento liminal, um n\u00e3o-lugar entre o conhecido e o inexplorado. A cidade, com a sua orla que se perde no horizonte, tornou-se o cen\u00e1rio perfeito para um nome que n\u00e3o se pretende fixo, mas em perp\u00e9tuo movimento. Aqui, entre o entardecer e o amanhecer, entre as mar\u00e9s que chegam e partem, o&nbsp;<em>O Dezanove de Junho<\/em>&nbsp;reflete um estado de constante transi\u00e7\u00e3o, um fluxo entre as margens do tempo e da mem\u00f3ria. Cada onda que esmorece na praia poderia ser uma reinterpreta\u00e7\u00e3o dessa data, e cada gesto esbo\u00e7ado pelos habitantes poderia ser uma tentativa de se entender o mist\u00e9rio de um nome que recusa ser decifrado.<\/p>\n\n\n\n<p>O nome <em>O Dezanove de Junho,<\/em> por fim, \u00e9 o arqu\u00e9tipo do nome incompleto \u2013 a representa\u00e7\u00e3o de um significado que est\u00e1 sempre \u00e0 margem, que nunca se deixa capturar na sua totalidade. N\u00e3o \u00e9 apenas um nome; \u00e9 uma promessa e um enigma. Esta associa\u00e7\u00e3o de ideias carrega em si o potencial de transforma\u00e7\u00e3o, de reinven\u00e7\u00e3o constante, atrav\u00e9s de uma cultura que se recusa a ser explicada e que, talvez, s\u00f3 possa ser vivida, como uma explos\u00e3o de sentidos que nunca cessam de se multiplicar.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, o&nbsp;<em>O<\/em> <em>Dezanove de Junho<\/em>&nbsp;n\u00e3o \u00e9 uma data, mas sim um estado de esp\u00edrito, uma alegoria de quem vive entre as margens do incompreens\u00edvel e do poss\u00edvel. E, ao ser proferido, eis que o nome se desdobra como as mar\u00e9s deste lugar: flu\u00eddo, plural, imprevis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><sup>*<\/sup><em>Em 19 de Junho de 1865, a not\u00edcia da Proclama\u00e7\u00e3o de Emancipa\u00e7\u00e3o chegou ao Texas e os escravos afro-americanos foram finalmente libertados, marcando o fim oficial da escravid\u00e3o na Confedera\u00e7\u00e3o. O \u201cJuneteenth\u201d \u00e9 comemorado anualmente como uma celebra\u00e7\u00e3o do fim da escravid\u00e3o nos Estados Unidos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Jos\u00e9 Luiz Igl\u00e9sias &#8220;\u00c0s vezes, o caos da escolha \u00e9 o primeiro passo para a cria\u00e7\u00e3o.O nome, assim como a arte, surge do inesperado, da decis\u00e3o que nunca pode ser justificada.&#8221;\u2014\u00a0Teodoro V. 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