Durante todo o mês de Agosto a Passarola está a editar uma série de artigos e pequenas entrevistas para dar a conhecer os artistas que participam no evento EnCantar pela Paz que, produzido pel’Odezanovedejunho – Associação de Ideias, decorrerá de 3 a 27 de Setembro no Auditório Madalena Biscaia Perdigão.
Vitor Filipe: EnCantar pela Paz porque “O mundo pode ser melhor para todos. E isso também está nas nossas mãos”
Vítor Filipe é sociólogo, actor, encenador, formador e gestor de projectos artísticos de intervenção sociocultural. Nasceu na Figueira da Foz mas viveu mais de metade da sua vida em Montemor-o-Velho, onde foi presidente do CITEC durante 7 anos e director do CITEMOR durante 5 anos. Participou da criação da Associação Fernão Mendes Pinto em 1988, de cuja Direcção fez parte durante 8 anos. Também foi músico na Banda Filarmónica 25 de
Setembro e integrou o Rancho Folclórico da mesma associação.
Entre 1982 e 1989 foi Técnico de Cultura e Turismo na Câmara Municipal de Montemor-o-Velho.
Como actor tem desenvolvido trabalho no teatro, em várias companhias e em televisão, nomeadamente em séries, novelas e publicidade, para além da locução de vídeos documentais e/ou institucionais. Paralelamente desenvolve trabalho de formação (profissional) com jovens e adultos, em escolas, empresas e/ou instituições.
Hoje reside na Figueira da Foz, onde criou uma companhia de teatro (Mar a Mar – Teatro) e continua ligado aos movimentos associativos, porque acredita que a cultura pode ser um motor de desenvolvimento cívico e social.
Vitor Filipe também é sócio d’Odezanovedejunho e foi ele o coordenador do programa do evento EnCantar pela Paz. Neste âmbito, preparou uma programação especial para o dia 21 de Setembro (Dia Internacional da Paz) em cuja Abertura irá interpretar uma leitura encenada do poema teatral “A Gota de Mel”, do actor e dramaturgo francês Leon Chancerel (com acompanhamento musical ao vivo por Pedro Abreu e um vídeo de David Fadul); e está a ensaiar a leitura a sete vozes pelo Colectivo Poético d’Odezanovedejunho, do poema “Mais Guerras, Não”, de Alberto Uva, que encerrará o programa desse dia. A Passarola falou com ele.
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– O que é o EnCantar pela Paz?, e que dificuldades tiveste que superar para compor o cartaz de um evento deste género, inédito na Figueira?
– Trata-se de um programa participado por pessoas da Figueira da Foz (residentes ou não) ligados a diferentes expressões artísticas, no sentido de, com os seus trabalhos, procurarem sensibilizar para a importância da PAZ, num momento em que proliferam de forma desenfreada os tumultos e as guerras em diferentes lugares do planeta.
O programa, longe de ser o ambicionado inicialmente, não deixa de ter a qualidade capaz de surpreender o público que a ele ocorrer.
Questões relacionadas com constrangimentos económicos, bem como o funcionamento da associação (recém-criada) que a promove, que precisa de estar mais “oleada”, assim o determinaram. Desta forma o programa, sendo o possível, é suficientemente capaz de satisfazer os objectivos a que nos propúnhamos, só possível com a abnegação de todos os que nele dispuseram suas vidas.
– Participas no evento no dia 21 com a leitura encenada de um poema teatral, como preâmbulo da projecção do filme No Other Land. Estás também a ensaiar uma leitura colectiva de outro poema para o encerramento do programa desse dia. Explica-nos as razões (éticas ou estéticas) para a tua eleição destes dois poemas e os motivos por que optaste por um para abrir e pelo outro para encerrar.
– A “Gota de Mel”, que fará a abertura do programa desse dia (21) tem uma arquitectura que sublinha e aponta para a fraternidade. Ideologicamente elaborado como um hossana ao abraço universal, não tem personagens identificados, o que sublinha o seu propósito, ou seja, a conversão do “eu” em “nós”, a socialização da pessoa, no fundo a exaltação da dimensão comunitária dos seres humanos e a insignificância das causas geradoras das grandes hecatombes – da gota de mel ao colapso total.
É o preâmbulo e o fim previsível do que está a acontecer e pode resultar em diferentes partes do nosso mundo. No nosso dia-a-dia somos assoberbados por notícias sobre guerras, motivadas por questões territoriais e de competição económica, baseadas em disputas de poder e influência, ideologias e identidade, ou diferenças religiosas, étnicas e culturais, que geram tensões e levam a confrontos armados, num desrespeito total pelo ser humano e sentido comunitário. Enfim, um “caldeirão” de interesses perpetrados ou coordenados sobretudo pelas ditas grandes potências (EUA/Rússia) que leva sobretudo à morte de muita gente, para “regalo” e satisfação dos ditos poderosos.
A “Gota de Mel” é assim, sobretudo, uma chamada de atenção para o que poderá acontecer no futuro, tendo em conta o evoluir das guerras nos últimos anos.
O poema “Mais Guerras, Não”, é a recusa peremptória de que não é esse o mundo que queremos. Um “grito” colectivo, ousado e implacável, desesperado e sincero como as últimas palavras de um condenado, ao revés de uma prédica calvinista, porque o mundo pode ser melhor para todos, mais humanizado. E isso também está nas nossas mãos.
Por todos os motivos enunciados, tendo em conta a problemática abordada, julgo ser um poema que fechará a noite com “chave de ouro”.


