Durante todo o mês de Agosto a Passarola está a editar uma série de artigos e pequenas entrevistas para dar a conhecer os artistas que participam no evento EnCantar pela Paz que, produzido pel’Odezanovedejunho – Associação de Ideias, decorrerá de 3 a 27 de Setembro no Auditório Madalena Biscaia Perdigão.
João Gentil: o som inter-cultural da “melancolia luminosa”
O EnCantar pela Paz apresenta, no dia 24 de Setembro às 21.30h, um grande concerto de João Gentil, um dos mais dotados e sofisticados músicos nacionais, reconhecido renovador do seu instrumento – o acordeão – ao qual tem restituído protagonismo e prestígio, resgatando-o do lugar triste ou coadjuvante a que foi sendo relegado nas cadências convencionadas do nosso pseudo folclore tradicional.
João Gentil nasceu em Cantanhede, em 1980. Foi professor de Acordeão na Academia de Música de Ançã e na Associação Académica de Coimbra. Desde 2014 é Professor na Escola de Artes do Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz (CAE).
Em 2007 colaborou, como especialista em acordeão, com a Roland Corporation, representando a Roland Iberia (Portugal e Espanha) no segmento V-Accordion, tendo sido convidado a participar como especialista de produto no 1st V-Accordion Camp em Castelfidardo-Italia (2008) e no 2nd V-Accordion Camp em Ascoli Piceno – Italia (2009). Colaborou como tal no aperfeiçoamento do acordeão digital, no modelo topo de gama da Roland V-Acordion – o FR 8xb.
Em 2009 iniciou o estudo do Bandoneón com o Prof. Julian Hasse, da Academia Nacional del Tango de Buenos Aires. Em 2011 aperfeiçoou-se na escola de acordeão CNIMA – Centre National et International de Musique et de l’Accordéon, em França, com o professor e pedagogo de prestígio mundial Mr. Jacques Mornet.
Em 2014 frequentou masterclasses e workshops diversos com o célebre acordeonista francês Richard Galliano. No mesmo ano gravou o seu primeiro disco, “ConLatinidade”, na Argentina e Portugal com a participação de músicos argentinos, portugueses e brasileiros.
Conta com digressões internacionais na Argentina (2010, 2011, 2012, 2014, 2015), no Brasil (2010 e 2012), na Colômbia (2010), Espanha (2009), entre outras participações em festivais como por exemplo na Noruega (Bergen), Irlanda (Athlone), Itália (Pescara), Estados Unidos (Las Vegas), Marrocos (Meknès), Ilhas Canárias (Santa Cruz de Tenerife), entre outros.
Durante o seu percurso já partilhou palcos e estúdios de gravação com músicos como Rui Veloso, Uxía (Galiza), António Zambujo, Vitorino, Viviane, Brigada Víctor Jara, André Sardet, Couple Coffee, Inês Santos, JP Simões, Rogério Charraz, Luiz Caracol, Pensão Flor & Orquestra Clássica do Centro, Gabi Buarque (Brasil), entre outros.
Mas João Gentil não é apenas um músico virtuoso, capaz de achar a Beleza “no detalhe, na nuance e no silêncio entre as notas” – também é exímio com as palavras, facto que se torna evidente na clara eloquência das respostas que deu a três perguntas simplórias da Passarola:
.
– João, como é ser um acordeonista em Portugal no século XXI?
– Para mim, é um ofício de reinvenção. O acordeão, tantas vezes associado ao folclore ou ao tradicionalismo, carrega em si um universo de possibilidades emocionais e sonoras que transcendem fronteiras e épocas. A minha missão tem sido precisamente esta: mostrar que o acordeão pode sussurrar, chorar e dançar— ou seja, pode ser moderno, sentimental e até poético. Nunca me revi nas competições e campeonatos para concorrer a campeão do mundo do acordeão. Para mim a música não é para medir quem toca mais rápido. Eu considero que a música é a arte de criar emoção no público e isso só é possível se o artista tiver paixão verdadeira pelo que faz. No entanto, considero que os campeonatos de acordeão foram criados para elevar a qualidade da execução e do ensino do instrumento e acelerar a sua aceitação no mundo da música erudita e nos conservatórios. Um pouco para se demarcar da sua índole popular e tradicional. Vi isso acontecer com a elevação da qualidade da produção de vinho, produto tão característico da zona onde nasci. Os concursos de melhor vinho elevaram a qualidade do produto e a motivação dos produtores, e isso é muito positivo. Com o acordeão aconteceu o mesmo, tenho é receio que os jovens esqueçam que a música não se resume a exibir o passar dos dedos a alta velocidade. Costumo dizer o seguinte aos meus alunos de acordeão: há 2 defeitos que perseguem um acordeonista – 1º é o querer tocar o mais forte possível e 2º é o querer tocar o mais rápido possível. Tudo isso para exibir um certo virtuosismo. É humano. Mas com a maturidade fui escolhendo outro caminho. Preocupo-me mais com as notas longas e suaves do que com as notas curtas e rápidas. Actualmente, tocar acordeão é, de certa forma, um acto de resistência. Nunca houve muitos alunos interessados em aprender este instrumento. Por várias razões. Mas diria que tocar acordeão para mim, actualmente, é lembrar que há beleza no detalhe, na nuance e no silêncio entre notas.
Ao longo dos anos, tenho procurado mostrar que o acordeão não é apenas um instrumento de botões, mas sim como um instrumento de sopro ou até uma voz — e que essa voz pode ser tão doce como uma brisa sobre a foz do Rio Mondego ou tão intensa como um tango nas ruas de Buenos Aires.
– Como escolhes as músicas do teu repertório?
– Escolho as músicas como quem escolhe cartas para enviar ao mundo — cada uma com uma intenção, uma emoção, uma história para contar. Foi assim que gravei o meu primeiro disco “ConLatinidade”. Cada música tinha uma história de viagens pelo mundo. O meu repertório nasce de uma escuta interior profunda: do que me move, do que me inquieta, do que me emociona. Sou profundamente influenciado pela música da América do Sul, em especial da Argentina, onde encontro uma melancolia luminosa que ressoa com a alma portuguesa. Durante mais de uma década tive digressões pela Argentina, onde pude conhecer bem a cultura e a gastronomia daquele país. Houve sempre uma melodia que me acompanhava nessas digressões, fosse em palco, nas rádios ou na televisão argentina: a Canção da Figueira da Foz que foi imortalizada pela voz da Maria Clara. Ainda hoje é das melodias que mais amo interpretar, com arranjos próprios que fiz inspirado por essas viagens. Gosto de misturar o clássico com o popular, o erudito com o visceral. Cada peça que toco ou componho é uma tentativa de criar pontes — entre continentes, entre culturas, entre corações. Mas devo assumir que sou um incondicional apaixonado pela obra do grande compositor argentino Astor Piazzolla.
– Qual é a tua relação com o público figueirense?
– A Figueira da Foz é mais do que um ponto geográfico para mim — é uma parte da minha própria pessoa. Foi aqui que ingressei, após a minha infância na Suíça, no conservatório de música e foi aqui que me reencontrei com o mar. Os meus pais sempre tiveram casa de férias na Figueira da Foz e fosse pelas férias de verão, fosse pela passagem pelo conservatório, a Figueira da Foz esteve sempre presente na minha vida. Talvez por isso, mais tarde, já adulto, tenha escolhido viver nesta cidade. Foi uma escolha por paixão. Tenho outra actividade profissional além da actividade artística. E, dessa outra actividade, resulta que nunca trabalhei na Figueira, por isso a minha escolha em viver cá desde 2009 foi porque sempre amei esta cidade. Os meus amigos argentinos que por cá passam sabem disso e em Buenos Aires, os meus amigos músicos, em tom de brincadeira, começaram a chamar à minha casa na Figueira a Embaixada Cultural Argentina em Portugal…
Tive oportunidade, ao longo dos anos, de me apresentar muitas vezes no CAE. Em nome próprio ou com outros projectos. De concertos de índole solidária a teatros musicais, dos jardins de inverno e de verão, enfim recordo que já toquei até na primeira parte do grupo The Gift com a sala completamente esgotada. Dou aulas de acordeão também na Escola de Artes do CAE há algum tempo. Por isso, o público figueirense acompanha-me como quem acompanha um filho da casa: com carinho, com exigência e espero que com algum orgulho em reciprocidade pelo orgulho que também sinto por ter escolhido viver aqui.
Sinto que há uma ligação afectiva forte entre mim e a Figueira. Talvez porque as melodias que partilho também falam dela — da luz que reflecte nas águas do Mondego, das memórias partilhadas, da saudade que todos sentimos. Tocar na minha terra é sempre um acto de entrega, uma conversa, uma dança entre mim e cada ouvido atento e curioso para saber mais sobre este instrumento de botões e fole.
Nas primeiras viagens que fiz à capital argentina fui estudar Bandonéon, o instrumento do tango celebrizado pelo Piazzolla. É um instrumento da família do acordeão, mas apenas na aparência. Isto é, tem botões dos dois lados e um fole no meio, mas o seu som e a sua alma são tão distantes quanto o Oceano Atlântico que separa os nossos dois países. Não tem grande expressão em Portugal, mas no início do século passado, quando um marinheiro o terá levado para Buenos Aires, fez com que o Bandonéon viesse logo a ocupar o lugar cimeiro e protagonista no tango argentino. Nos meus concertos, faço questão de apresentar também ao público figueirense, esse instrumento tão peculiar e raro em Portugal. E creio que estes intercâmbios culturais enriquecem o ser humano e a nossa sociedade.


