por Fernando Campos
A vida verdadeira do pintor debaixo do lava-loiças
A partir de 1940, tal como outras cidades do litoral, a Figueira da Foz encheu-se de refugiados, oriundos de todos os países invadidos ou ameaçados pelos nazis. Muitos deles foram acolhidos por particulares. Foi o caso do pintor Ivan Sors, que esteve hospedado quatro meses em casa do fotógrafo figueirense Afonso Cruz.
Em 2011, o neto de Afonso Cruz, e escritor com o mesmo nome, publicou um romance onde recriou, efabulando, a vida desse pintor que, “com medo da PIDE (então PVDE) dormia debaixo do lava-loiças”.
A vida pode não ser tão romanesca como a ficção mais imaginosa, mas por vezes não é menos extraordinária. O que se segue é o que se sabe, o que se presume e o que nos coube, da vida verdadeira de Ivan Sors.
Ivan Sors, de seu verdadeiro nome Izidor Stern, foi um pintor de origem judaica que nasceu em Reca, Hungria, mas viveu a maior parte da sua vida na actual Chéquia. Começou os seus estudos em Budapeste, mas mudou-se depois para Praga, onde trabalhou para vários jornais e editoras como caricaturista e ilustrador. Combateu na Primeira Guerra Mundial, assistiu, com o fim do império Austro-Húngaro, ao nascimento do seu país, a Checoslováquia, com a implantação da República em 1918, e editou um álbum com 300 retratos dos deputados do seu parlamento. Trabalhou para o jornal Marianne durante dois anos e também assistiu, em Genebra, à primeira Assembleia da Sociedade das Nações, em 1920. Em 1928, visitou Nova Iorque e desenhou retratos de vários membros do Partido Democrático, incluindo Franklin Roosevelt e a sua mulher Eleanor, que depois reuniu num álbum. Em 1929, ilustrou o livro de Isaac Landmann, Christian and Jew – A Symposium for Better Understanding e regressou a Praga.
Em Março de 1939 os nazis invadiram a Checoslováquia.
Em Junho de 1940, Ivan Sors chegou a Portugal, presume-se que com um visto de Aristides de Sousa Mendes, o nosso cônsul em Bordéus. Viveu na Figueira da Foz, acolhido em casa do fotógrafo Afonso Cruz até que, em Novembro, embarcou para Nova Iorque a bordo do navio Niassa. Continuou a sua carreira nos Estados Unidos da América, onde foi professor de arte, criou medalhas para a colecção de Samuel Friedenberg e foi colaborador da Universal Jewish Encyclopedia. Morreu em Março de 1950, em Nova Iorque.
Durante a sua estadia de quatro meses na Figueira da Foz, Ivan Sors dedicou-se à caricatura e à aguarela, em apontamentos de tipos locais. Sobre a sua permanência na Figueira, Fausto de Almeida escreveu no Jornal Reclamo, a 12 de Outubro de 1940 na página 7: “Continua entre nós, como refugiado de guerra, este grande Artista Checo. Desenhador de invulgar categoria, caricaturista de guerra, mestre no fixar dos aspectos típicos e dos caracteres etnográficos, que quási instantaneamente apreende e transmite ao papel, Ivan Sors, graças ao seu privilegiado talento, integrou-se no ambiente piscatório local e possui já uma boa colecção de tipos de gente do mar, de gente de Buarcos, que o afirmam como um Artista de excepcionais faculdades artísticas.”
Deixou inúmeros trabalhos em casa de particulares e, a Afonso Cruz, dois quadros a óleo e um rastilho de memória que haveria de incendiar a imaginação do seu neto escritor.
O Museu Municipal Dr. Santos Rocha possui no seu acervo três pequenas aguarelas de sua autoria, adquiridas em 1940. Uma delas está (ou esteve) em exposição no piso superior do Núcleo Laranjeira Santos, no Palácio Engenheiro Silva (Esplanada Silva Guimarães) – uma estrutura inaugurada há poucos anos mas entretanto encerrada para remodelação – que podereis visitar, se porventura entretanto já a encontrardes re-aberta para visitação.
Também podereis, claro, ler ou reler o romance “O pintor debaixo do lava-loiças”, de Afonso Cruz – que inclui, no seu epílogo, a reprodução a preto-e-branco dos dois quadros que Sors ofereceu a seu avô: uma crucificação e o retrato de sua avó em traje de minhota.
Ao alto, auto-retrato de Ivan Sors (desenho a lápis, 1932), daqui.


