Acabou o EnCantar pela Paz, que abriu as portas do Museu Municipal três noites por semana durante todo o mês de Setembro. Foi uma honra e um prazer para Odezanovedejunho, Associação de Ideias – um prazer trabalhoso, diga-se, porque executar projectos culturais independentes em Portugal é como escalar Everestes com guias saídos do Processo de Kafka. Mas foi mesmo assim um prazer concretizar uma ideia que esteve no cerne da criação da associação: dar à Figueira da Foz um evento que desse a conhecer a riqueza de artistas locais que não têm tido, na nossa opinião, o destaque que merecem. Vários deles quase nunca são convidados a actuar na sua terra, alguns deles tiveram aqui a rara oportunidade de actuar para as próprias famílias. Veteranos do teatro de amadores local puderam ver trabalhos de actores figueirenses que têm estado dispersos pelo país. Nas noites de cinema figueirense houve debates a lembrar o antigo festival de cinema, com membros do elenco no dia da ficção e com pessoas que conhecem a região e as suas problemáticas no dia dos documentários. Jovens artistas tiveram um palco para mostrar que existem. E em cada noite (e uma tarde) do nosso programa, mesmo sem anúncios ou reportagens nos jornais nem rubricas nas agendas culturais, um público crescente de figueirenses deslocou-se ao Auditório Madalena Biscaia Perdigão, chamados por cartazes ou pelas redes sociais, puxados por amigos e família, para ouvir música, poesia, ver teatro, cinema, artes circenses, caricatura e fotografia.
Mas não esquecemos o mundo lá fora. Tudo o que mostrámos durante este último mês foi sob a alçada de um tema, a luta pela paz, contra tudo o que anima guerras e fascismos aqui e pelo mundo. A 21 de Setembro, Dia Internacional da Paz e momento central do programa, convidámos o público a reflectir sobre o presente genocídio em Gaza com o documentário palestiniano-norueguês vencedor do Oscar No Other Land, que por falta de distribuição comercial e institucional nunca tinha sido exibido na Figueira. Acompanhámos esta sessão com uma mensagem d’Odezanovedejunho – prestes a ser publicada aqui na revista online da associação, a Passarola – e com interpretações de dois poemas dramatizados que lembraram que como a guerra em Gaza houve e há ainda muitas mais, todas movidas pelos mesmos princípios: uma ganância capitalista e imperialista, a que o ódio ao nosso semelhante torna mais fácil subscrever, e que a falta de curiosidade intelectual e de consciência política tornam mais fácil aceitar. Por isto, nadamos então contra a corrente, batalhamos contra a ascensão do fascismo, e atacamos as suas raízes oferecendo uma alternativa a essa falta de curiosidade. O nosso programa teve património imaterial e cancioneiro popular portugueses, fado, canções de Abril, rock, grunge, música argentina, celta, brasileira, e muito mais; porque enriquecer uma terra também é expandir os seus horizontes. Servem quase de articulação desta ideia os documentários que exibimos de Luís Margalhau, que mostram a importância de iniciativas culturais – que podem e devem ser potencializadas com apoio institucional e dos meios de comunicação – que mostrem através das artes outras experiências e novas maneiras de ver o mundo, especialmente às gerações mais jovens, para que possamos sair das trevas em que este momento histórico de antolhos colectivos nos pôs.
Somos uma associação recém-criada, e o Encantar pela Paz foi um dos nossos primeiros empreendimentos públicos. O que aprendemos com a experiência: que há arte a ser produzida na Figueira da Foz, nas margens dos circuitos com mais visibilidade. Há artistas interessantes que querem ter onde mostrar o que fazem. E há público que os quer conhecer; que quer, como clamámos no nosso manifesto, “arejar as mentes, lavar as almas e elevar os espíritos”. Depois deste mês de Setembro, há público que ficou já a conhecer alguns dos artistas que por aí têm andado infelizmente subvalorizados. Por todos vós, por nós, por eles e por outros que se seguirão, dizemos: esta vez foi só a primeira. Para já, a Passarola não deixará de perscrutar, criticar e desconstruir, e continuaremos a contribuir com o que pudermos para a vida cultural e cívica desta terra que queremos empurrar para a frente e para cima. E para o ano há mais.


