A Passarola solidariza-se com os quatro cidadãos portugueses e com todos os outros bravos integrantes da flotilha global Sumud em missão humanitária a Gaza e à Palestina que, interceptados ilegalmente em águas internacionais, se encontram neste momento detidos pelas forças israelitas de ocupação.
Também consideramos lamentável a posição (mais uma) covarde e canhestra de Portugal perante o estado genocida de Israel, bem como o seu comprometimento com uma infame corrida aos armamentos contrária às conveniências da paz entre os povos – arbitrariamente determinada pela potência responsável pelo genocídio em curso na Palestina.
O que se segue é o texto integral da mensagem que Odezanovedejunho, Associação de Ideias dirigiu ao público presente no Auditório Madalena Biscaia Perdigão na noite de 21 de Setembro. Esta mensagem precedeu a programação especial que o EnCantar pela Paz dedicou ao Dia Internacional da Paz.
Boa Noite a todos.
Bem-vindos ao EnCantar pela Paz.
Numa época em que a humanidade atingiu um nível de sofisticação tecnológica e uma capacidade de produção de alimentos que lhe permitiriam erradicar da face da terra a ignorância e a fome generalizada, assiste-se, pelo contrário, a um exponencial aumento das desigualdades, a um preocupante culto do preconceito e a um nítido retrocesso civilizacional que – com o alto patrocínio dos mais esconsos e inconfessados interesses económicos – são as fontes de todos os conflitos raciais, étnicos, religiosos ou territoriais que nos preocupam a todos.
O mundo é um lugar cada vez mais violento. Mais violento ainda do que no início deste século, que começou com uma invasão ilegal com falsos pretextos e altos-patrocínios ao terrorismo em larga escala e falsa bandeira.
O brio macabro da irracionalidade expande-se outra vez num vórtice mediático de desinformação e propaganda armamentista à escala mundial (até mesmo entre nós se levanta hoje de novo o esplendor anedótico-belicoso de um nobrepovismo e de um nacionalvalentismo que muitos de nós talvez já considerássemos ultrapassado).
Os gastos militares globais não páram de crescer. O incremento deste investimento nos orçamentos dos estados atinge cifras cada vez mais obscenas e impronunciáveis. O lucro proveniente dessa produção doentia de armas não se pode realizar se elas não forem vendidas, e para continuar a vendê-las é necessário que sejam utilizadas. É preciso que elas cumpram o seu objectivo – matar pessoas, destruir culturas, arrasar escolas, hospitais… Esta é a lógica, e a história, do capitalismo.
“O capitalismo traz a guerra, como a nuvem traz a tempestade”. Esta frase, pronunciada por Jean Jaurès no dia 25 de julho de 1914, não poderia estar, infelizmente, mais actual (Jaurès haveria de ser assassinado a 31 e na véspera do seu funeral, a Alemanha declarou guerra à França; assim começou a primeira guerra mundial).
Para além das guerras mais mediáticas, como a da Ucrânia e a do horrendo e continuado genocídio na Palestina, existem no mundo neste momento 21 conflitos armados em grande escala: na Síria, no Burkina-Faso, na Somália, no Sudão, na Nigéria, no Iémen, em Mianmar… Também persistem duzentas e sessenta e uma outras pendências larvares que, a todo o instante, podem fazer deflagrar outro grande conflito global cujas consequências devastadoras, desta vez podem ser… definitivas.
OdezanovedeJunho – Associação de ideias não pôde ficar indiferente a esta conjuntura – e porque, como disse Benjamin Franklin, nunca houve uma guerra boa nem uma paz ruim, subordinou este evento eminentemente cultural à reflexão e à sensibilização para a paz.
Assim, neste dia 21 de Setembro, designado pela Assembleia Geral das Nações Unidas como Dia Internacional da Paz, o EnCantar pela Paz irá evocar a mais desigual de entre todas as guerras medonhas e iníquas que se travam no presente: a da Palestina. Porque se trata de um horrendo genocídio, um massacre programado e perpetrado metodicamente, todos os dias desde 1948, por um estado, com o seu exército e as suas polícias e os seus bulldozers, sobre uma população civil indefesa. Um estado que instituiu um hediondo sistema de apartheid alicerçado num vasto e implacável programa de ocupações, perseguições, expulsões sistemáticas, expropriações abusivas, detenções arbitrárias e bombardeamentos indiscriminados, num assumido projecto colonial de substituição que desobedece a todas as resoluções da Assembleia Geral das Naçoes Unidas desde há mais de setenta anos, com a conivência cúmplice de alguns estados de excepção – entre os quais, para nossa suprema e humilhante desonra, o nosso (este não é, infelizmente, caso único na história infeliz da nossa diplomacia: a sua servil, tradicional e perseverante fidelidade canina a aliados estratégicos preferenciais já lhe permitiu arrastar vergonhosamente os pés noutras circunstâncias igualmente ignóbeis e infames, como por exemplo, no voto contra uma resolução das Nações Unidas que exigia a libertação incondicional de Nelson Mandela) .
Apesar disto, ou por isto mesmo, Odezanovedejunho tem a honra de patrocinar a exibição pública, no EnCantar pela Paz, hoje pela primeira vez na Figueira da Foz, do filme palestino-norueguês No Other Land, estreado em 2024 no Festival de Cinema de Berlim, e premiado em 2025 com o Oscar de Melhor Documentário de Longa-metragem.
Trata-se de um vigoroso e pungente testemunho de quatro valentes cineastas (dois palestinianos e dois israelitas) que talvez possa contribuir para sensibilizar a opinião pública para um martírio colectivo sem fim à vista. Quanto ao estado português, chegou finalmente a notícia de que se apresta para reconhecer, hoje mesmo, o estado da Palestina. Veremos em que termos. E em que termos aplicará também as normas provisórias emitidas pelo Tribunal Internacional de Justiça a 26 de Janeiro de 2024, no sentido de prevenir (e punir) o genocídio. Porque o imperativo (sem tibiezas) é o reconhecimento oficial, imediato e incondicional do Estado da Palestina – antes que seja tarde de mais. Pois como disse o nosso Padre Vieira – na História do Futuro – “sem igualdade, e igualdade com todos, não há paz”.
Antes, porém, da projecção deste filme tremendo, o actor Vitor Filipe irá interpretar, com acompanhamento musical de Pedro Abreu e videográfico de David Fadul, o poema dramático “A Gota de Mel”, de León Chancerel; um libelo pela paz que foi estreado em Portugal por António Pedro no TEP em 1959, e imediatamente proibido – na sequência do conflito com a União Indiana a propósito do chamado Estado Português da Índia e do início da Guerra Colonial – esteve proibido até ao 25 de Abril.
Após a projecção do filme, peço-vos que não se retirem porque a noite culminará com uma acção performativa pelo Colectivo Poético d’ODezanovedeJunho, a partir do poema “Mais guerras, não” de Alberto Uva.
Toda a arquitetura coreográfica que sustenta este poema é austera, minimalista, decididamente contundente, com um desenho de luz e de som simples e expressivo, que lhe dão forma e fazem sobressair a determinação que lhe está implícita.
Queremos no entanto avisar que esta performance tem momentos de luz estroboscópica (de fraca intensidade), pelo que se alguém no público souber ou sentir que o possa afectar, deverá tomar as devidas precauções.
No mais, Odezanovedejunho deseja-vos uma boa noite, intensa e reflexiva. Viva a Paz. Viva a igualdade; porque sem igualdade não há paz que viva.


