por Carolina Campos
Foi anunciado no dia 13 de Outubro que o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) irá exibir a obra de João César Monteiro, numa retrospectiva intitulada “Sinfonias de um Libertino”. Entre hoje e o dia 6 de Novembro, passará quase toda a filmografia do cineasta, restaurada pela Cinemateca Portuguesa, que participou na organização junto com o produtor Paulo Branco. Já vários jornais e sites portugueses reportaram a notícia, usando todos praticamente o mesmo texto como é costume com qualquer notícia, chamando a João César Monteiro “provocador”, “iconoclasta”, “rebelde”, essas coisas que só são elogios agora que ele já não está cá a exigir apoios para provocar mais. Na Figueira da Foz, terra onde ele nasceu, há algo em que não podemos deixar de reparar: os americanos dão-lhe um destaque que nós não damos. Dos dois auditórios do Centro de Artes e Espectáculos, foi-lhe dado o nome no Pequeno – o que já agora torna quase impossível pesquisar quando foi a última vez que passaram lá um filme dele – e foi-lhe dada também uma prateleira de DVDs na sala dos filmes da Biblioteca Municipal, e meia prateleira de livros na Sala Figueirense. Pronto. Trabalho feito. Agora quem quiser saber mais sobre ele, ou ver os filmes dele, que os procure, que quando provocações são genuínas não convém difundi-las muito. No Quartel da Imagem, edifício camarário dedicado à fotografia e ao cinema, uma só personalidade tem direito a espaço de exposições (com merecido valor histórico, de que a Passarola aliás já falou). Sobre um dos maiores nomes do cinema português, nem está lá nada do colóquio que aconteceu quando rebatizaram o Pequeno Auditório há uns meros cinco anos atrás (e em que já na altura foi dito que ele “merecia mais”).
Vejamos o que dizem dele lá fora, mais de vinte anos depois da sua morte. Nick Newman, crítico de cinema americano e grande apoiante da difusão da obra de João César Monteiro, chama-lhe “o mais próximo que o cinema chegou de ter o seu próprio Philip Roth”*. Ian Barr (australiano) descreve-o como “o vagabundo de Chaplin fundido com a vida sexual de Chaplin”*. A Cinema Guild, que distribui os seus filmes nos EUA, diz: “Ao mesmo tempo um dandye um pobre, um hedonista e um monge, um revolucionário e um classicista, um realista e um romântico, Monteiro foi um artista de profundas contradições. O seu trabalho combina um burlesco perverso de fúrias latentes que vão desabrochando com o sentido formal de um modernista elevado e a noção de um poeta de linguagem e lirismo. Indo buscar à alta e baixa cultura, ele sintetizou o avant-garde com um espectáculo popular, lançando uma revolta furiosa e carnavalesca contra a ordem estabelecida”*; “realizador de alguns dos maiores filmes de sempre.”* Mais: “Um dos mais controversos e invulgares cineastas da sua geração”* (crítico inglês Zac Ntim). “Um daqueles realizadores brilhantes que nos dão aqueles mundos absurdos que reflectem a nossa própria realidade trágica”* (crítico e realizador canadiano Neil Bahadur). “Transgressão total – Monteiro desmonta as engrenagens de tudo com alegre entusiasmo”* (realizadora francesa Catherine Breillat). “Saudemos todos os artistas perversos sem os quais o mundo seria um lugar tão mais pobre”* (crítico brasileiro Filipe Furtado).
Era uma voz invulgar e inconveniente. A revista online portuguesa ArteCapital, uma das poucas a desviar-se do texto padrão na notícia da retrospectiva, destaca o seu fascínio com o Marquês de Sade (que, acrescente-se, partilhava com outros cineastas inconvenientes, como Robbe-Grillet e Pasolini), e diz que ele “fez do cinema uma forma de resistência libertina e anticlerical, uma arma estética contra os poderes instalados”. Poderes tão instalados, e cada vez mais abertamente reaccionários, que os filmes de João César Monteiro continuam em muitos aspectos actuais, e talvez por isso sejam tão pouco vistos. O Presidente da Câmara que acabou há já uns vinte anos com o grande e pioneiro Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz está de volta, e acaba de ser re-eleito; portanto o nível de apreço e dedicação à cultura que este ex-Secretário de Estado da Cultura trouxe com ele é o que a maioria quer, em que regra geral as salas de exposições camarárias têm recebido em vez de produzirem porque o que vem de fora (e fica lá durante meses e meses) é que é bom. Porque neste nosso país, pequenino de espírito e tacanho de ambições, servil acima de tudo, para o nosso ser bom precisa de um selo de aprovação estrangeiro – se Miguel Torga tivesse mesmo ganho o Nobel como alguns defendiam, talvez se conseguisse hoje encontrar a obra dele fora dos alfarrabistas, por exemplo, e se Saramago não tivesse ganho o Nobel talvez não fosse reeditado e ensinado nas escolas. E quando os americanos dedicam um mês a João César Monteiro, o destaque dado ao evento revela as mentalidades: toca tudo a reportar mas sem se darem ao trabalho de ter algo próprio para dizer sobre o assunto. Se ele cá estivesse, continuaria a não receber apoios.
Os Nova-Iorquinos podem ver a obra dele no grande ecrã. Cá, passa às vezes na RTP2 – que, já agora, alguns partidos querem eliminar. Vários filmes estão disponíveis online no Arquivo do Cinema Português (que tem o nome escrito em inglês). Em Aveiro, pode-se ir passear pelas ruas e pela Baixa e ficar a saber quem foi o artista e cineasta Vasco Branco; na Figueira, há alguns livros na Biblioteca Pública Municipal Pedro Fernandes Tomás, numa prateleira no fundo da Sala Figueirense, e DVDs de filmes com extras de entrevistas às várias pessoas que trabalharam com João César Monteiro. Vale a pena ir procurá-los, mas ele realmente merecia mais.
*Tradução livre.


