Memória histórica – Cristina Torres

por Fernando Campos

Ela é uma das figuras mais incontornáveis do panteão de referências culturais e cívicas da Figueira da Foz. Toda a sua vida foi uma luta incansável pela justiça e pela emancipação dos humildes e dos desfavorecidos. Ela pensava que através da educação das classes trabalhadoras seria possível emancipar os homens da sujeição e do alcoolismo (uma praga social devastadora no seu tempo), as mulheres da dependência e da superstição (outra praga devastadora, que persiste) e as crianças de ambos os sexos da ignorância (a mais devastadora, porque mãe de todas as outras) – a todos queria emancipar da exploração, do obscurantismo, da indignidade; de todos queria fazer cidadãos da república que sonhou. Está claro que falhou redondamente; a sua república nunca chegou e ela própria acabou mal, como aliás sói acontecer aos melhores na Figueira da Foz e aos heróis antigos nas tragédias exemplares. Mas foi magnífico. Por isso é que gostamos de evocar o seu nome.

CRISTINA TORRES dos Santos Mendes Pinheiro nasceu em 1891 e faleceu em 1975 na Figueira da Foz. Filha de Ricardo Torres dos Santos, alfaiate, e de Delfina da Cruz Marques.
Frequentou desde muito cedo as sociedades operárias, recreativas, educativas, republicanas e maçónicas, e festejou nas ruas da Figueira a implantação da República. De origem humilde, começou a trabalhar ainda menina como costureira e estudou, à noite, na Escola Industrial local.
Fundou, em 1911, a Fraternidade Feminina, Associação de Instrução e Beneficência, responsável pelo funcionamento de uma Escola Nocturna para raparigas e, no ano seguinte, com 21 anos, partiu para Coimbra, onde continuou a labutar como costureira para financiar os estudos no Liceu e posteriormente na Universidade.
Formou-se pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Histórico-Geográficas. Leccionou, entre 1915 e 1922, em Escolas Móveis de Coimbra e Montemor-o-Velho e, entre Janeiro de 1922 e Julho de 1924, exerceu como Professora provisória na Escola Comercial da Figueira da Foz. Neste último ano, foi nomeada Professora Efectiva.

Na sequência da sua experiência de Educadora e Pedagoga, expôs Teses em vários Congressos sobre Educação (Coimbra, 1918; Porto, 1927; Lisboa, 1931); associou-se ao projecto da fundação, na Figueira da Foz, de uma Delegação da Universidade Livre de Coimbra (1929), onde foi responsável pelo funcionamento dos Cursos Nocturnos de Educação Básica. Foi nomeada Delegada Voluntária de Vigilância para a Tutoria da Infância da Câmara Municipal da Figueira da Foz. Manteve simultaneamente intensa actividade propagandística, promoveu conferências, discursou em sessões públicas e pronunciou-se, na imprensa regional da Figueira e de Coimbra, sobre questões feministas, educativas e políticas, para além de publicar esporadicamente poemas e contos para crianças. Utilizou os pseudónimos de Maria República, nos artigos de carácter político, e Nô-quim nos textos dirigidos aos mais novos.

Obreira de uma persistente actividade pedagógica dirigida aos mais desfavorecidos, ao operariado e às mulheres, e de corajosa oposição ao regime fascista instituído em 1926, Cristina Torres foi desde logo perseguida, censurada e transferida compulsivamente, em Dezembro de 1932, para a Escola Industrial de Bartolomeu dos Mártires em Braga, onde permaneceu 17 anos, até que acabou por ser afastada do ensino e finalmente obrigada a aposentar-se, em 1949, na sequência da participação na Campanha de Norton de Matos à Presidência da República.

De regresso à Figueira da Foz, subsistiu pobremente de explicações particulares, mas continuou na resistência ao Estado Novo – ainda pertenceu à Comissão Nacional do III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro, em 1973 e saudou o MFA com emoção e alegria no dia 27 de Abril de 1974, apesar dos seus 83 anos de idade. Depois disso ainda serviu de estandarte a um partido político, proferindo, em Agosto de 1974 no Coliseu Figueirense, um (o último) discurso notável e acabou os seus dias quase esquecida, num quarto do hospital da Misericórdia, onde faleceu, a 1 de Abril de 1975; não sem ter legado o seu espólio, bem como o do marido, o jornalista Albano Duque, ao Museu e à Biblioteca da Figueira da Foz. Após a morte virou nome de escola secundária e de rotunda. Do seu espólio (manuscritos, correspondência, artigos publicados, discursos, panfletos, documentos biográficos e fotografias) foi feita uma exposição em 1992, dizem que com um catálogo “minucioso”. Os seus escritos dispersos (artigos, discursos, palestras, etc.) nunca foram, porém, reunidos, nem estudados, nem publicados. A sua obra literária nunca foi re-editada.

Em 2018 o poeta António Augusto Menano evocou os seus derradeiros dias numa lúcida e desencantada crónica, publicada no jornal “Asbeiras”.

“Os mortos não têm defeitos.
Após a morte, todos foram boas pessoas. Se for caso disso, antifascistas.

Não estou a fulanizar, mas os meus oitenta anos viram, e ouviram, muita coisa.
Como o politicamente correcto nunca foi meu gosto, refiro, talvez repetindo-me, o caso de Cristina Torres, a minha velha amiga e professora.

Acabou num quarto do Hospital da Misericórdia, para onde a minha mulher e eu a transportámos, depois de a encontrarmos, caída no chão, ensanguentada, em sua casa.
Passou os últimos tempos quase esquecida.
Apenas o já falecido Mário Moniz Santos a visitava.
Morreu, e o seu estatuto de democrata, que serviu a alguns como estandarte, tornou-se mais visível.
Mas não esqueço os muitos dias em que ia até ao pé dela (era o gerente da hospital e, por razões profissionais, estava lá diariamente) e a encontrei triste e só.
A velhice cobra-nos muitas vezes o custo de uma vida cheia.
A morte, os corpos enterrados, ou cremados, nivela-nos a todos.
Quem não procura afugentar, fechar a morte, seja com remédios, seja refugiando-se na religião? Mas o tempo tem uma “componente” indelével: a memória dos outros.
Como, felizmente, nem todos temos Alzheimer, de vez em quando, há uns flashes a instigarem-nos a não esquecer.
A imagem da morte, um esqueleto embrulhado num sudário, com uma foice às costas, a imagem tradicional, provoca-me uma pergunta: a morte vai nua, como todos nós quando nascemos?”

Mas se quereis saber mais sobre esta Figueirense excepcional, não há pai, tendes que ler. A Passarola, porque não há mais, aconselha a única biografia política que se conhece:

– Cristina Torres, de Joaquim de Sousa (1983)
(uma edição do Secretariado Executivo das Comemorações do Primeiro Centenário da Elevação da Figueira da Foz a Cidade)

Se fordes da Figueira, podeis requisitá-lo na Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomás. Se não fordes, podeis fazê-lo em qualquer outra biblioteca pública que se preze.
Lede, lede. E podeis dizer que ides daqui.