por José Gabriel
Quando alguém, para sublinhar a sua razão seja em que tema for, alardeia a sua condição de moderado, fico alerta. E só falo naqueles que acreditam mesmo em que essa é a sua postura, deixando de lado os que se arrogam de tal condição para esconder as suas manobras duvidosas.
Na verdade, que diabo é isso de um moderado – extremo-centrista, dizia-se o outro – o que nos traz de bom, com que realizações concretas contribui para o bem comum? Na verdade, muito pouco. Todas as realizações relevantes dos povos tiveram de enfrentar, não só a oposição activa dos adversários, mas o empastelamento, o postergar de decisões, a espera e a distorção por parte daqueles que, em nome de uma mirífica neutralidade, da tal moderação, contribuem para a inércia, a indecisão, o eterno adiar de uma acção significativa.
Não raro, o moderado profissional junta a sua voz ao reaccionário, ao retrógrado ou, no mínimo, tenha ou não consciência disso, serve-lhe os interesses. Um desses serviços está, neste momento, à vista de todos: por tudo e por nada, qualquer passo decidido dado por alguém ou alguma organização, merece, da parte do retrógrado como do moderado, o epíteto de “radical”.
Mas, consultando a história das grandes realizações humanas, digam-me uma só que tenha sido “moderada”, que não tenha sido acusada de radical, combatida – tantas vezes de forma sangrenta – adiada, por vezes, séculos.
A democracia é radical e foi conquistada com dor e sofrimento – como todos os avanços sociais e políticos. Os valores da nossa Constituição são radicais, no sentido em que são fundamentais, essenciais, indo bem à raiz dos direitos humanos. A noção de igualdade essencial dos humanos é radical. A liberdade é radical. Os direitos à vida, à saúde, à dignidade, à justiça são radicais.
Mas não é só na esfera social e política que se passa esta resistência ao novo, ao progresso. A mais breve visita à história da Ciência e da Filosofia, ilustrará bem a brutal repressão, desde a morte de Sócrates às fogueiras da Inquisição e do Santo Ofício, da prisão de Louis Pasteur à perseguição do moderadíssimo – julgava ele – Descartes. Os melhores de todos nós, arderam nas santas e moderadas fogueiras, foram torturados por moderados defensores da situação. Não fossem os radicais, e ainda o Sol andava à volta da Terra – ai, Galileu…-, o criacionismo ainda cantava a costela de Adão, os germes, as bactérias e os vírus ainda matariam à vontade, já que as sangrias dos moderados tudo continuariam a tentar resolver. Ainda no século XIX Ignaz Semmelweis, por ter ordenado aos seus colegas médicos que lavassem as mãos e apesar do sucesso desta simples medida, acabou demitido do seu hospital e, tendo continuado a defender princípios de assepsia, acabou por ser internado, espancado, acabando por morrer em condições miseráveis. Hoje, as razões deste médico “radical” são banalidades médicas. Ao tempo, custaram-lhe a vida. Às mãos dos moderados, ilustres de mais para lavar as mãozinhas.
No domínio da repressão das ideias e da Ciência há uma imensidade de histórias bem ilustrativas, que entram pela nossa época. Escolhi esta, pouco conhecida, que ilustra bem, nas mais prosaicas situações, a resistência à novidade, a rejeição dos ditos radicais. Com que também tiveram de se deparar Galileu, que nos tirou do centro do sistema solar; Einstein que nos tirou do centro do universo; Freud, que nos tirou do centro de nós próprios – que os meus amigos cientistas me perdoem a simplificação. Todos radicais, os malandros.
Hoje, as mulheres vivem a radical igualdade perante a lei. Os doentes são assistidos gratuitamente na instituição mais radical por nós criada – não por todos; os moderados votaram contra a criação do SNS. Os jovens têm o radical direito ao voto aos 18 anos. E as inovações radicais não têm fim. E de tal modo são importantes, que mesmo aqueles que nada fizeram por elas, sentam os rabos gordos no poder e, perorando orgulhosos sobre elas, vão tentando moderá-las. Ou matá-las.
Toda a nossa História é feita por radicais. Os reis que valeram a pena, os poetas, os cientistas, os pensadores. Foi radical a independência do país e as batalhas para conservá-la. Foram radicais as revoluções. A revolução liberal, a republicana, o 25 de Abril.
Hoje, na televisão, muito se discute a vitória de Mamdani em Nova Iorque. E lá vem o epíteto de radical. E, no entanto, as medidas por ele propostas são do mais elementar bom senso, de uma básica justiça, de uma evidente justeza, vulgares na maioria das cidades europeias. Porém, tendo a noção de moderado chegado a este estado, para o moderado tudo o que mexe é radical. Os interesses das forças mais reaccionárias agradecem o favor.
Há dias, alguém que não conheço falava de “cristã moderação”. Moderação? O cristianismo? Parece que quem pensa tal, nunca leu os Evangelhos – mesmo só os canónicos, nem falo dos apócrifos nem nos gnósticos. A história das igrejas alegadamente por ele inspiradas, é o que é. Mas o cristianismo original é tudo menos moderado. E o que de melhor deixou como herança ética é o que tem de mais radical. Por isso a sua história original, mais ou menos mítica, foi o que foi. A perseguição, a morte. Às mãos de gente muito…moderada.
Moderação. De facto, não é uma posição política. As mais das vezes é um pretexto. Para a inércia. Ou para a cumplicidade.
Ilustração: isto não é um broche (colagem digital), Fernando Campos


