O estado do sítio

por Fernando Campos

É muito raro que a fealdade se conheça a si própria
e parta o espelho onde se reflecte
Xavier de Maistre

No seu célebre ensaio sobre o riso, Henri Bergson sugere que um dos elementos do cómico é o exagero da fealdade. Ou seja, que quando a consciência do feio é partilhada (o riso é humano e comunitário) a implicação filosófica do exagero das suas assimetrias é captada e processada – a comicidade é terapêutica – o riso corrige os costumes.

O feio é muito mais do que apenas a torpeza do seu aspecto pois agrega em si, para lá dessa disformidade visual explícita, a dimensão psicológica de um medonho aleijão moral sem remissão.

Quando porém não existe consciência individual do feio, nem sensibilidade social na interpretação do seu exagero, já não há riso possível, nem remédio para os costumes; há um ricto pervertido que é apenas um reflexo alarve da estupidificação.

Esta inconsciência social da fealdade é conspícua, facilmente observável, por um olhar atento e perscrutador, em qualquer lugar. Há lugares em que o feio não só não é apercebido, como o seu exagero é interiorizado nas consciências como um novo normal. O horror vulgariza-se, torna-se o novo lindo. Isto não só é uma nova estética como uma nova filosofia, uma espécie de nova religião, uma nova moda sem absolutamente nenhum medo do ridículo. Algo muito sério e circunspecto, portanto. E igualmente melindroso, pois como o que é maioritário tende a totalitário a presunção sem discernimento também exibe, inflexível, pruridos do velho respeitinho. Está por toda a parte. Na Figueira da Foz, por exemplo.

Mosteiro de Stª Maria de Seiça. 30 de Setembro de 2025. Segunda-feira. A mais recente e rutilante jóia do património municipal requalificado, utilizada amiúde pelo presidente do município para as suas selectas recepções privadas, só abre ao público de Quarta a Domingo. Às Segundas e Terças, o incauto visitante não tem outro remédio senão perscrutar a sua zona envolvente – entremeia dúzia de velhos sobreiros e oliveiras no meio do deserto eucaliptal reflectindo talvez sobre o papel do acaso, do desmazelo e do voluntarismo da premeditação na banalização da atrocidade no “alindamento” da paisagem.

Mesmo em frente do monumento, para cuja iluminação pública e decoração de exteriores não sobraram verbas no orçamento da requalificação, é visível, ao longo da sinuosa estrada de acesso à capela de Nª Srª de Seiça, a profusão arqueológica e intrincada de postes, estranhos tótens de cimento ou de eucalipto, erectos ou inclinados em todos os azimutes, com os seus cabos eléctricos riscando o céu em bizarras composições de diagonais e perpendiculares ou enrolados como cabelos em obsoletos novelos despenteados. Nota-se também, mesmo à entrada do mosteiro, um bisonho monumento, certamente também involuntário, constituído por umamisteriosa instalação compósita de postes, pilaretes e tabuletas de pau, cimento armado e plástico reciclado; e mais adiante, entre mais um poste e uma ruína de tijolos nus quase devorada pelas silvas, a sediça relíquia, talvez votiva, de um extravagante frigorífico abandonado.

Mas a pièce de resistance é, ao fundo da estradinha sinuosa, a visão dantesca da capela de N. Srª de Seiça. Alguém se lembrou, aqui decerto altamente autorizado, que para valorizar uma jóia única do património histórico português nada melhor que lhe prantar à frente da sua forma barroca octogonal uma barraca rectangular, uma espécie de marquise minimalista (sem vidraça), em ferro zincado e cobertura de lona plastificada, certamente para acomodar os vendilhões do templo na romaria de Agosto. Eis uma imagem que depois de claramente vista é impossível de desver, e de descreverpor isso fiz a fotografia.

Este é o retrato, alvar e patibular, do enlevo de cada vez mais paisanos prosélitos desta nova filosofia estética. Um retrato que é o reflexo sombrio do spleen cognitivo de uma certa atitude cívica, ou sentimento colectivo, cada vez mais alegremente complacente com todas as degradações da barbaridade.

De iniciativa popular, privada ou institucional, frutos do acaso, do improviso, do desleixo ou do voluntarismo municipal, são mais do que muitos os exemplos, antigos e recentes, deste fascínio alarve pelo grotesco boçal – uma patologia que consiste numa espécie de indiferença mórbida; um mais que vago prazer equívoco, uma absoluta condescendência pérfida; um verdadeiro gosto, obsceno e maligno, assumido e entusiasmado, pela submissão voluntária à sevícia moral que é a exposição constante a toda a sorte de abomináveis e repulsivas aberrações visuais.

Isto está em exibição permanente na Figueira da Foz, de forma mais ou menos escatológica, no triunfo deste novo gosto cujas referências são a desmemória, a abulia e o desprezo envaidecido por qualquer noção de belo, de elevado, de decente ou tão só de asseado.

– O teatro-circo Saraiva de Carvalho, por exemplo, devorado por um casino e depois sepultado semi-vivo numa sauna infame debaixo de uma redoma de vidro que parece um showroom da expo-salão.

– Ou o forte de Stª Catarina, monumento nacional, sequestrado e brutalizado por um Club de Tennis até à humilhação, hoje travestido de estabelecimento que vende cerveja-a-copo conservado em ruínas no meio da sua zona envolvente, entre uma horrenda escadaria de cimento armado e um nefando e artificial espelho d’água – a meia dúzia de metros da foz natural do maior rio de Portugal.

– Ou então o relvado fronteiro ao memorial ao Maestro David de Souza – transformado pelo uso popular (mais classe-média-alta, diga-se) num emblemático defecódromo canino.

Poder-se-ia descrever mais, muitos, imensos, demasiados casos assim emblemáticos de um gosto que não é duvidoso porque é paradigmático; mas seria uma viagem ao fim da noite, muito para lá do coração das trevas, ao horror do pesadelo normalizado por uma mediocridade sem remédio e por uma estupidez sem redenção.