Devaneios de barro em fins de tarde –
uma exposição de José Santos Silva e João Valente Pereira
por Fernando Campos
No princípio não havia arte popular. Não existia. Ou melhor, não se lhe concedia sequer o direito de existir. As mais doutas almas das academias de antanho consideravam mesmo que Arte era um conceito demasiado elevado, inacessível ao povo raso. Os termos “arte” e “popular” nem se pronunciavam na mesma frase.
Foi então que chegou a Barcelos o fabuloso pintor e poeta António Quadros. E António Quadros – que era amigo de José Afonso e tudo – viu as alminhas, os cristos, os cabeçudos, os galos, os galos-mulher, os homens-sereia, os carrochos, as cabras, as pinhas, as bandas, as ceias eos cavaleiros, achou que aquilo tudo era bom, muito bom; revolucionário – e então disse: “Eis Rosa Ramalho” (nesses tempos, belos tempos, os intelectuais viviam fascinados com o poder popular – etnólogos como Michel Giacometti percorriam campos e brejos ouvindo e gravando melopeias antigas que o povo cantava e músicos eruditos e sofisticados como Fernando Lopes-Graça compunham complexas peças inspiradas nessa simplicidade autêntica e original).
E assim, de repente, primeiro a escola superior de Belas-Artes do Porto e depois as elites artísticas de todas as academias descobriram o prodigioso, fantástico, surreal e subversivo poder da olaria tradicional portuguesa – um figurado concebido sem pecado, sem forma(ta)ção académica, sem complexos nem preconceitos, sem elaborados conhecimentos técnicos nem pretensiosas intenções artísticas ou decorativas, apenas com as mãos nuas, terra molhada, o olhar lavado, o fogo e a malícia de um humor ingénuo, a imaginação atrevida e a intenção lúdica de quem dá forma original às suas perplexidades.
A olaria tradicional, que anteriormente era uma arte anónima, ganhou estatuto cultural e Rosa Ramalho tornou-se a primeira barrista a ser conhecida pelo seu próprio nome; as suas peças passaram a ser procuradas por inúmeros coleccionadores, portugueses e estrangeiros, e a 9 de abril de 1981 a Presidência da República decidiu atribuir-lhe, a título póstumo, o grau de Dama da Ordem Militar de Santiago da Espada.
Actualmente esta arte popular mantém o seu prestígio cultural elevado e toda uma constelação de novos e prolíficos barristas activos, muito disputados no mercado da arte.
José Santos Silva, que é sócio-fundador d’Odezanovedejunho e tudo, não é um artista convencional; não estudou anatomia, perspectiva, geometria, história, nem desenhou modelos de gesso segundo normas cultas sufragadas por academias durante séculos mas está habituado a lidar com arte e cerâmica antiga há muitos anos, porque é técnico de conservação no Museu Municipal. Além disso, ele é um estudioso e profundo conhecedor da olaria tradicional. Ao ponto de se ter tornado também um criterioso e exigente coleccionador. A sua colecção, dedicada a um segmento do figurado popular, os diabos, já conta com centenas de valiosas peças dos mais reputados artesãos e ele pensa até mostrá-la ao público brevemente, numa grande exposição.
Entretanto, na estreita e fraternal convivialidade que estabeleceu com barristas do figurado de Barcelos (ele trata por tu os melhores de Portugal) foi-lhe contagiada a vontade de ele próprio pôr as mãos na massa; quero dizer, no barro fresco e informe. Foi assim que aliciou o seu genro João Valente Pereira para, em “devaneios de fim de tarde” descobrirem, a quatro mãos, ”um meio visceral” de “dar corpo à alma” que está patente numa exposição no CAE desde 7 de Janeiro.
Eu fui lá ver. E achei aquilo tudo tão estranhamente entranhável e desopilante como a mais pura, sincera, honesta, despretensiosa e inteligente diversão – a figuração de um bestiário repleto do non-sense espontâneo da melhor arte popular e da informalidade de um humor directo e desconcertante sobre a actualidade numa parafernália exuberante de peças, vidradas ou pintadas, de terrinas, telhas, cristos patéticos e inconvenientes, diabos cornudos e encarniçados, procissões delirantes, ceias extravagantes, mostrengos fantásticos e absurdos, vermes, caracóis e outros bichos móis, até uma pícara árvore dos sexos e outras alegorias compósitas e um espampanante e surreal casal de tamburiles numa tentativa (amplamente conseguida, diga-se) de, nas suas próprias palavras, “traduzir em matéria a memória e a beleza imperfeita da condição humana”.
Além de uma reconfortante terapia estou certo de que, ao moldarem com os dedos “as memórias que os habitam”, ambos descobriram em si o espanto de se verem como “artistas” e a estranha e divertida incomodidade de terem que por vezes dar nome à bizarra e alucinante bonecada que lhes sai das mãos desvairada pela imaginação.
Grande Arte, com todas as letras; visceral, genuína, de uma honestidade tão franca e tão funda que me parece – tal como Rosa Ramalho deverá ter parecido a António Quadros – uma coisa do princípio dos tempos que ninguém sabe como chegou incólume até nós.
Excelente exposição. Vão por mim que fui lá ver.
Na sala Zé Penicheiro. No CAE. Até 1 de Fevereiro.


