por Carolina Campos
Tenho andado a ler sobre medicina do século XIII. Podia dar-me para pior. Especificamente saúde feminina – muitos homens a falarem do que não sabiam. Estava na altura a estabelecer-se a universidade como instituição na Europa, a educação estava a formalizar-se, o conhecimento já se estruturava mais fixamente em linhagens e escolas. Em relação ao ciclo menstrual havia umas poucas escolas principais, como a dos aristotélicos e a dos que seguiam as traduções nessa altura em circulação de autores árabes como Avicena. Nenhum deles era propriamente progressista em relação às mulheres, mas Avicena via o ciclo menstrual como algo natural e até moralmente positivo, ligado a funções de limpeza e purificação. Já Aristóteles dizia que era algo imundo e perigoso, sinal da verdadeira natureza das mulheres, inferiores e malévolas. A escola aristotélica das ciências naturais (junto com teologias como a de Tomás de Aquino) abriu caminho na era medieval para o desenvolvimento da chamada “misoginia científica”, profundamente enraizada na prática da medicina durante séculos. Traduções como as de Avicena tornaram-se problemáticas a partir do final do século XIII, quando a “natureza infiel” da sabedoria muçulmana começou a ser oficialmente condenada e autores que a usavam como referência muitas vezes escondiam as fontes do que estavam a dizer. Um acérrimo seguidor de Aristóteles na Europa, por outro lado, Albertus Magnus, aplicou-se à causa da misoginia científica com muito afinco, e um dos seus discípulos escreveu depois um livro chamado De Secretis Mulierum, Dos Segredos das Mulheres, em que expandia essas ideias. Nem sequer soava lá muito científico, mas mesmo assim serviu para ser a base de outro livro, chamado Malleus Maleficarum – o manual da Inquisição para os julgamentos das bruxas. E foi assim que ideias como “o sangue menstrual envenena os olhos que por sua vez envenenam tudo aquilo para que olham” levaram à morte violenta, absurda, de centenas ou milhares de mulheres. Antes de tudo isto, no século XII, tinha andado pela Alemanha uma freira excêntrica chamada Hildegarde von Bingen, compositora, botânica, filósofa, artista, que fundou o seu próprio convento, inventou uma língua e escreveu livros de medicina. Uma das poucas pessoas a escrever sobre ciclos menstruais com experiência própria, e sem acesso sequer às traduções de Avicena, ela foi responsável pelo único texto científico medieval que compara o período a feridas sofridas por homens em batalha, debilitantes e merecedoras de tratamento médico.
Fala-se muito de como o desconhecimento leva ao ódio, e a ignorância leva à crueldade. Mas muitas vezes a solução proposta para isso é uma fantasia, ilustrada com um filmezeco curtinho qualquer que a legenda do Facebook diz que ganhou três óscares, em que a verdade é revelada aos pobres ignorantes num momento muito bonito que os faz mudar de ideias e no fim ficam todos amigos. É bonito, sem dúvida, e muitos dirão que é a simplificação da questão que faz sentido para um público infantil. Seria uma estratégia viável num mundo em que o desconhecimento é genuíno e acidental, mas o nosso inimigo aqui na vida real é o obscurantismo organizado. Tomás de Aquino (também a seguir Aristóteles) tinha motivos, de fortalecimento da vergonha e repressão, para pregar que a mulher era um vir occasionatus, um homem defeituoso. A Inquisição aproveitou-se de todas estas teorias, do fervor religioso à volta delas – e do desconhecimento acerca de doenças mentais, acrescentou o realizador dinamarquês Benjamin Christensen no seu filme Häxan: A Feitiçaria Através dos Tempos há já 104 anos, por exemplo – para cortar o conceito de mulheres intelectualmente e materialmente independentes pela raiz antes que pudesse germinar. Mais gente a ser tratada como propriedade privada é sempre mais propriedade privada para quem a detiver, afinal de contas.
Hoje em dia poucos ou nenhuns negarão, esperamos nós, que os julgamentos de bruxas foram uma barbaridade, uma mancha vergonhosa na história que… teria ensinado alguma lição se a Humanidade tivesse o hábito de aprender com a história. (E para este ponto, já agora, para quem quiser mais cultura, vejam outro bom filme sobre esses julgamentos, o Beladona de Eiichi Yamamoto). Mesmo nesta era em que estamos, em que membros do parlamento surgem nas redes sociais a dizer que o ferro de engomar fez mais pelas mulheres que o feminismo, tentativas de espalhar obscurantismo à moda antiga sobre as mulheres vão sendo de forma geral criticadas. Outros obscurantismos têm mais sorte.
Vejamos: o que é que o cidadão português médio sabe, genuinamente sabe, sobre o Bangladesh? Sobre o Nepal? Sobre o Islão? Sobre África no geral? Sobre a Índia? Portugal, que tanto se orgulha de ter lá estado, de ter “descoberto” esses sítios. Vão a um dos milhentos posts nas redes sociais a dizer “Angola é nossa”, peguem num dos autores dessas exortações pelo colarinho ou pela camisola amarrada nos ombros e perguntem-lhe que línguas se falam em Angola para além do português. Mostrem-lhe arte bakongo perguntem-lhe se já alguma vez viu aquilo, ou maconde, ou guarani. Perguntem-lhe que língua se fala em Timor-Leste. “É nosso” o quê, exactamente? Milhões e milhões de pessoas e de quilómetros quadrados de propriedade privada, nada mais. A glória do império português. O que está lá não interessa de qualquer maneira, não vale a pena conhecer. Caixas e caixas de objectos trazidos só para serem assertivamente relegados a prateleiras nas caves de museus que mostram a beleza da arte europeia nos andares de cima, como disse o académico ganês Nii Kwate Owoo a propósito do Museu Britânico.
Uma questão sobre a redução do mundo a Nós e Eles que aqueles filmezecos bonitinhos do Facebook não referem é que é fácil. De todas as visões do mundo é a que dá menos trabalho. Não é preciso aprender sobre nada, nem falar com ninguém que dê outras perspectivas, nem fazer o esforço da introspecção. É simples: Nós somos bons, as coisas boas do mundo são – ou deviam ser – Nossas, e as coisas más são culpa d’Eles, os Outros, os que estão fora do grupo que somos Nós, que é definido em função do que se quer excluir; o que é muito conveniente porque assim Nós estamos sempre dentro e Eles estão sempre fora. Parece-me uma maneira exaustiva de ver a vida, o cansaço constante da fúria contra quase tudo, porque neste mundo moderno todos os dias nos aparece à frente alguma coisa que foi lá posta por Eles (quase como se essas coisas fizessem parte do nosso mundo, naturalmente). Mas é um cansaço nobre, que se carrega para servir a causa da protecção do que é Nosso. À medida que esta visão vai fermentando, o outro lado vai ficando mais nebuloso, e nem quem o combate o consegue descrever. O que é a “ideologia de género”? Os muçulmanos e os imigrantes do Bangladesh vêm cá fazer o quê que é tão mau, para além de simplesmente existir em Portugal? Nem sabem bem, nem querem saber, e é bom que continuem sem saber porque assim a culpa de tudo o que está mal é dos Outros e não da mão que aponta para eles. E defender o país é defender uma versão completamente fabricada da história porque aprender história como deve ser dá muito trabalho e essa versão é mais emocionante. Pois bem, é preciso salvar a cultura portuguesa da influência islâmica? Comecem então por adoptar outro sistema numérico, perder bastantes palavras, bastantes avanços científicos, grande parte da arquitectura algarvia e alentejana que tanto encanta os turistas (esses também são Nossos), e tentem desemaranhar os últimos 1200 anos de história do ADN português para ver o que querem manter nos genomas e o que querem tirar, com uma pinça se calhar ou com uma tenaz. Por quem sois, estejam à vontade. Ou então admitam que o que verdadeiramente assusta é a ideia de que Nós não somos o centro do universo, e que tudo na vida tem uma complexidade que acham desconfortável. Face a isto, tão abstracto e difícil de destrinçar, a reacção violenta a tudo o que é diferente e estranho é fácil de vender como alternativa. E é mesmo uma venda, com publicidade nos telejornais e em cada manchete alarmista e desinformação descarada. Cada vez que se cai no apelo ao medo do que foge às normas, está-se a comprar essas normas e esse medo, e a pagar a quem os pôs à nossa frente.
Mas aprender sobre os outros não tem de ser difícil, nem tem de ser algo que se faz por dever. A luta contra o obscurantismo é das mais prazerosas que há, uma vida de descobrir coisas novas. Parece uma frase bacoca mas isto sim é o que se deve dizer às crianças, antes que se tornem lacaias de uma ideologia que se aproveita da ignorância delas para fazer o que quiser, até aproveitar-se delas próprias (nas palavras do escritor Adrian Bott: “’Nunca pensei que fossem comer a minha cara!’, diz mulher que votou no partido dos Leopardos Que Comem Caras.”) É de pequenino que se torce o pepino e se aprende que aprender e ter os olhos abertos para o mundo pode ser um bom passatempo.
Numa nota que parece não ter nada a ver, celebrou-se esta semana, no dia 23 de Janeiro, o Dia da Escrita à Mão. Numa actividade proposta pel’Odezanovedejunho, imigrantes pais de alunos do Agrupamento de Escolas da Zona Urbana da Figueira da Foz foram à escola ensinar a crianças a escrever nas suas línguas, nos seus alfabetos. Escreveram palavras simbólicas, como “paz”, em português, castelhano, árabe, russo, ucraniano, kimbundu, maia, entre outras línguas, guiados pela mão de quem as sabe e que alinhou em partilhar um bocadinho da sua cultura com as gerações mais novas; e algumas crianças viram em primeira mão que o russo não envenena, o árabe não queima, o kimbundu não morde. Assim se avança.
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Ilustração: A criação do mundo em seis dias (1152), de Hildegarde von Bingen (1098-1179)


