Manuel Filipe: um precursor do neo-realismo esquecido

Continua a decorrer o ciclo de conferências sobre Arqueologia que o Município da Figueira da Foz promove em parceria com a Associação Viver em Alegria e a Livraria do Largo. A edição deste ano é também a primeira a incluir temas de Arte, uma vertente que foi inaugurada esta quarta-feira com ”Manuel Filipe: Da obra ao negro às cores da Liberdade”, por Pedro Ferrão e Fernanda Alves, especialistas em História da Arte e conservadores do Museu Nacional de Machado de Castro. Seguiu-se a esta palestra a inauguração da exposição “Da Obra ao Negro às Cores da Liberdade”, que estará patente no Museu até dia 25 de Abril.

Pedro Frazão começou por explicar a origem do projecto: uma ideia de assinalar os 50 anos do 25 de Abril no Museu Nacional Machado de Castro, que parecia condenada por falta de acervo ligado ao tema, até ser salva ao encontrarem doações de obras de Manuel Filipe nas reservas. Achamos nós que parece um evento simbólico: Manuel Filipe, revolucionário subvalorizado, permite celebrar o espírito de Abril através duma exposição que ao mesmo tempo o resgata do esquecimento nos anais da história da arte portuguesa. Quem foi então Manuel Filipe?

Nos anos 30 e 40 do século XX surgiu em Portugal o movimento neo-realista, uma nova era que brotou de ideias que já circulavam desde o século XIX de que a arte podia servir para mais que o belo e para falar de mais do que as partes da vida que eram consideradas (por quem?) belas, que podia falar da vida comum e dos trabalhadores. O modernismo misturou-se com o expressionismo alemão, com o que veio a ser chamado o realismo social, e o resultado em Portugal manifestou-se primeiro, como muitas outras coisas, na literatura. Nomes como Soeiro Pereira Gomes, Joaquim Namorado, Fernando Namora, Alves Redol, Carlos de Oliveira, viraram-se para vivências que até aí eram normalmente consideradas impróprias para retratos, e o movimento começou logo a ganhar uma força estética nas capas dos seus livros. Entre os artistas ligados a esta corrente literária estavam Júlio Pomar, Marcelino Vespeira, Álvaro Cunhal, e Manuel Filipe. Era, nas palavras de Júlio Pomar, arte “do povo, para o povo”.

Manuel Filipe (1908-2002) estreou-se na arte com a Fase Negra, a primeira de três em que a sua obra se divide. Como resposta a relatos de uma das maiores atrocidades da história da Humanidade, a 2ª Guerra Mundial, Filipe começou em 1942 uma série de desenhos a carvão de refugiados, órfãos, trabalhadores exaustos, as vítimas da crueldade do seu tempo. São desenhos fortes, tristes, que obrigavam quem os via a enfrentar os problemas da sociedade, e que almejava a um papel da arte no reconhecimento de vidas humanas para lá da imagem propagada pelo Estado Novo. Como se poderá adivinhar, não foram bem recebidos nas exposições que os revelaram ao público: foram criticados em Coimbra, vandalizados no Porto, e levaram as portas a fechar mais cedo que o previsto em Braga. Em 1947, Manuel Filipe foi “aconselhado” (após uma detenção pela PIDE) a “deixar-se de provocações”, ou arriscava perder o seu emprego como professor de desenho em Leiria.

Só voltou a pintar em 1962 – uma nova fase que durou até 1974, a Fase Intermédia. Já com cores, mas muitas delas frias, muitos brancos, azuis, cinzentos, pretos, pintou muitas paisagens do Alentejo, ou como lhe chamou, o Além-Tejo. O 25 de Abril deu início à sua última fase, denominada por Joaquim Namorado a Fase Colorida, mais abstracta, com um novo fôlego mas um optimismo resguardado, sem perder de vista problemas que estavam ainda por resolver.

Pedro Frazão relatou o percurso da obra de Filipe, do carvão às cores, da censura às “cores da liberdade”, dando sempre destaque ao cerne da sua missão: afirmar Manuel Filipe com um dos grandes precursores do neo-realismo em Portugal, lugar que não lhe tem sido dado numa injusta subvalorização da sua obra. A exposição agora patente no Museu Municipal Santos Rocha, tornada possível através de uma colaboração do Museu Nacional Machado de Castro com o Plano Nacional das Artes, o Município de Condeixa – de onde Manuel Filipe era natural – e o PO.RO.S – Museu Portugal Romano em Sicó, acrescentou ao passar pela Figueira algumas obras que cá estavam, também relegadas às reservas. Podem ser vistas no nosso Museu durante os próximos dois meses.

Quanto aos temas de Arte do ciclo, continuarão nas próximas duas semanas com as seguintes palestras:

11 de Março – “João Afonso: Um mestre dos sinos que se tornou escultor”, por Carla Gonçalves, Professora da Universidade Aberta e investigadora do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património da Universidade de Coimbra;
18 de Março – “Testemunhos materiais da presença de Portugal na Ásia nos séculos XVI a XVIII: As colchas de motivos botânicos ao modo da Índia e da Pérsia do Museu Municipal Santos Rocha”, por Ana Barros Ferraz, mestre em História da Arte da Época moderna, especialista em têxteis orientais.