Decorreu esta quarta-feira a penúltima conferência, a segunda sobre temas de arte, da 10ª edição do ciclo sobre Arqueologia e Arte, que os serviços culturais do Município da Figueira da Foz promovem em parceria com a Associação Viver em Alegria e a Livraria do Largo. Carla Gonçalves, Professora da Universidade Aberta e investigadora do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património da Universidade de Coimbra, apresentou “João Afonso: Um mestre dos sinos que se tornou escultor”.
A primeira vez que historiadores da arte portuguesa ouviram falar de João Afonso foi através do túmulo de D. Fernão Gomes de Goes, um nobre que foi, por exemplo, cavaleiro-mor de D. João I na conquista de Ceuta. O seu túmulo está datado de 1440 e assinado, coisa rara para a época, pelo artista que o fez: “Mestre dos sinos João Afonso”. Carla Gonçalves percorreu a lista de factos que isto revelou: primeiro, que João Afonso seria de uma mentalidade quase moderna como artista e reconhecido como tal, para lhe ser permitido assinar a sua obra. Segundo, seria um artista de eleição para túmulos, dado que este foi, evidente pela data, encomendado décadas antes da morte de D. Fernão Gomes de Goes. Ficou portanto a pairar o mistério do porquê de ele se identificar como “mestre de sinos” e não “imaginário”, como eram chamados os escultores.
Por esta altura os ofícios ainda não eram regimentados como viriam a ser no século seguinte, portanto o que se pode dizer sobre um “mestre de sinos”, ou sineiro, é que saberia fazer os moldes, fundir os sinos, produzir as ligas de metal que resultavam em sons específicos, e teria ouvido para esses sons. E sabe-se que os sinos nesta época eram produzidos em fossos perto dos campanários que eram destruídos logo a seguir, para guardar “os segredos do ofício”: os sinos governavam a vida das pessoas ao marcar as horas e assinalar nascimentos, mortes, missas, tudo – eram benzidos depois de feitos porque eram tidos como estando a “dar voz a Deus”, fazer sinos era um trabalho muito importante. Este João Afonso, sobre cuja vida até agora não se sabe nada, teria então uma formação muito específica, e terá sido primeiro sineiro e só mais tarde imaginário. Daí a assinatura.
Carla Gonçalves deu esta introdução a João Afonso e depois saltou no tempo para falar da história da arte portuguesa que nos levou a ele, e dos efeitos da sua obra que se repercutiram na escultura dos vários séculos seguintes – a chamada “irradiação”. A mão das Virgens do Leite que segura o pé do menino numa determinada posição, a forma como a mão de outras Virgens ampara o menino ao seu colo, aquilo a que ela chama o “ar de família” da fisionomia das caras, estas e outras marcas tornam figuras reconhecíveis como obra de João Afonso, e já foram identificadas obras suas do Alentejo a Santiago de Compostela.
Por entre explicações de tudo isto, a conferência foi também uma aula sobre como é feito o estudo da história da arte. Tudo o que se consegue aprender sobre a vida quotidiana ao longo da história, como que penteados foram estando na moda, pode ajudar a datar obras. Oficinas podiam ter várias pessoas a trabalhar na mesma peça, obras iniciais e menos desenvolvidas de um artista podem ser confundidas com irradiações e é sempre arriscado afirmar sem sombra de dúvidas que mãos fizeram uma peça, nobres foram acumulando colecções particulares sem se preocuparem muito com a proveniência do que lá tinham. Por isto e mais ainda, muito de estudar a história da arte num país como Portugal, em que muito pouco valor foi sendo dado à arte e muito pouco foi sendo registado, é especular. É acima de tudo uma questão de ter noção dos limites do método, e de fazer o que se puder para chegar às especulações mais informadas e ponderadas possível. Sem nunca perder de vista que as obras que compõem a história da arte não são apenas objectos, são manifestações de como as pessoas pensavam e viviam, são reflexos da história da Humanidade.
Carla Gonçalves destacou que as imagens dos Santos e Virgens a que João Afonso se dedicou estavam inseridas num mundo de significados muito tangível para quem nele vivia: quando surgia uma nova corrente artística e se perdia o apego a determinadas esculturas elas eram “dessacralizadas”, partidas para perderem o seu poder e ele ser retido nas novas: como Gonçalves disse por várias vezes, as imagens eram “mortas”, porque antes disso estavam como que vivas. E ela acrescentou também que outra forma de matar uma escultura é um mau restauro ou uma pintura que achata as formas e esconde o trabalho do escultor. Sendo assim, estamos todos rodeados de figuras mortas, já que em qualquer terra há Santos pintados assim. Cabe-nos a nós tentar olhar através da tinta para o que está por baixo, e ver lá o passado da arte portuguesa e, contido nele, a humanidade da história, que é no fundo o que aquilo a que a disciplina da história pretende chegar. E talvez criar um Portugal onde se dê mais valor à arte, tanto do passado como do presente.
No concelho da Figueira, podem-se ver obras de João Afonso, pintadas, na Igreja do Senhor da Paciência em Maiorca e na Igreja de S. Pedro nas Alhadas (o mestre também passou por aqui), e outras, sem tinta, no Museu Municipal Santos Rocha, mesmo em frente à entrada para a exposição permanente.
Quanto ao ciclo de conferências, concluirá na próxima quarta-feira, 18 de Março, com “Testemunhos materiais da presença de Portugal na Ásia nos séculos XVI a XVIII: As colchas de motivos botânicos ao modo da Índia e da Pérsia do Museu Municipal Santos Rocha”, por Ana Barros Ferraz, mestre em História da Arte da Época moderna, especialista em têxteis orientais.
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Imagem: Calvário e Santa Catarina de João Afonso no Museu Municipal Santos Rocha.


