Rako (1946-2026)

O artista plástico Reinaldo António Costa, conhecido por Rako, faleceu de doença prolongada aos 80 anos no Brasil, onde residia desde há alguns anos. A notícia foi divulgada pela Associação Magenta, da qual foi sócio-fundador.

O TRIUNFO DO CAMINHANTE

por Chuva Vasco

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O sujeito-artista que caminha é aquele que descobre e se maravilha, se deslumbra com a natureza das coisas, e das pessoas. O sujeito-artista que caminha é aquele que explicita para o mundo a sua mundividência, lógica para si, antinómica para os outros. Para ele, a obra de arte não é uma ideia que surge do nada, ou resultante da inspiração brilhante de um indivíduo isolado. Ele desacredita o conceito de génio e, ao contrário, insiste nas influências do passado que alimentam o processo de cada criador. Toda a história, todo o passado nos precede, e o artista só tira desta tradição viva, um conjunto de referências pré-existentes, já pensadas e modeladas pelos seus antecessores. Por isso, Rako (1946-2026) é esse sujeito caminhante, que nutre uma fervorosa paixão pelas coisas belas, um amor mútuo pela arte e pelo material, uma admiração inefável pelo passado, pela história e a história da arte em particular.

Para ele, cada indivíduo acumula apenas um conjunto de palavras, pensamentos e gestos herdados do passado, que o move, acompanha e lhe dá profundidade. As suas viagens permitiram-lhe, após o “25 de Abril”, contactar com as mais recentes produções artísticas, e conhecer profundamente a cultura africana, espanhola, tantos outros países Europeus e o Brasil, país com o qual alternou a sua residência. 

O mito de uma ideia absolutamente individual que iluminaria a nossa mente é mera utopia. Assim, percebemos que a obra de Rako baseia-se numa compilação de leituras, notas e fragmentos em torno dos quais se desenvolvem as suas ideias norteadoras. Na verdade, é tudo uma questão de vínculos, relações e conexões, fundadas em viagens e leituras de Marx (evidenciado pela luta de classes), de Mao (aprisionado à revolução cultural), de Tolstoi (sobre a purificação da arte), mas também em Pauline Réage (pseudónimo de Anne Desclos) quando nos explora as questões femininas, tão presentes nalguma das suas obras (e.g. “Mulher luta pela igualdade”). 

Os seus primeiros trabalhos chamam a atenção e assumem um caráter especial, atestando o apego do artista às suas origens, bem impresso numa arte social, que quase se opõe à ideia parnasianista de “arte pela arte”. Interveniente na sociedade, os eventos dos anos 60 e 70 conduziram-no a reivindicações políticas, culturais e sociais, tendo contribuído como cartoonista no jornal humorístico angolano “Miau” (1965), mas também, no pós “25 de Abril” na produção de cartazes, folhetos e slogans de carácter político-social de pacificação dos movimentos de independência de Angola: Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) e Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA).

Com referências consistentes dos anos 1960 até à actualidade, a sua obra traça cinco décadas de criação, reunindo o crème de la crème da sua vasta obra. Contactar com Rako, é cair estranhamente nas antípodas do expectável, ao mesmo tempo deslumbrantes e comoventes. Ao contrário da alegoria da caverna de Platão, passamos da luz à sombra, entramos no seu mundo plástico-visceral, mas é também aí que se desventra e se desvenda. O seu mundo medeia entre uma dada figuração inicial, incipit da sua carreira, e a abstração pura, orientada pelo grau zero malevichiano. O artista não mostra falta de imaginação precisamente por não se limitar a uma única iconografia plástica. Possui uma diacronia que oscila entre a Figuração Expressionista, até à sua Anti-arte, passando por períodos que nos lembram algumas vanguardas europeias, a Color Field Painting, a Arte Povera, o Informalismo Europeu, mas também, ao observarmos algumas pinturas, não nos podemos desvincular de algumas características fundamentais, sentido frio e austero, contornos rígidos, representação sóbria, que combinam perfeitamente com a definição do Minimalismo. Um artista que flutua entre a tradição e a altermodernidade.

O seu trabalho forma uma diacrónica dialética inextricável entre criação e destruição, servindo de pretexto à materialização de uma ideia, onde o subjectivo e o objectivo estabelecem o seu ponto de incidência e de fusão, onde nada pode ser retirado ou adicionado. Cada detalhe torna-se signo. Ele vence a preguiça rotineira do nosso espírito, objectivando os mecanismos íntimos da natureza, quer dizer, abstractizando as coisas sem anular a sua projecção no espaço. Rako propõe-nos composições onde a vida, para melhor se afirmar, desvenda uma realidade até aqui desconhecida. É um passeio magistral por um labirinto de palavras (e.g. “Abstracção dos sentidos para gozo da lucidez”) e materiais (e.g. “À volta do vidro”), que faz o fruidor dançar num ténue fio entre a memória e o esquecimento, o peso e a leveza. Noutros casos, a linguagem desenvolvida por Rako multiplica e cruza os mais variados padrões estéticos, num estilo ao mesmo tempo burlesco, cru e inquietante. Ao ampliar universos radicalmente diferentes, o artista quebra todas as categorizações, dogmas e proibições estabelecidas, e por ironia, sequestra frequentemente uma sistemática paródia subversiva, objeto de sátira feroz (e.g. “É uma flor com o credo na boca”)

Este sujeito caminhante, objectivo no encontro com a vida, torna-se ele próprio totalmente intransitivo para a sociedade, e subjectivo para o mundo. Nas palavras de Rimbaud, autodenominar-se-ia Je est un autre. Mas outro eu? Rako descobre-se num outro nós, no que de nós cabe à arte, do que de nós faz o Rako, revelando o mundo físico, no espírito, para todos nós a partir do desconhecido.

Ele explora a matéria e a cor com desconcertante facilidade. O uso da cor lembra-nos algumas referências iniciais a Horst Antes, e Sandro Chia, mas é totalmente inseparável da sobriedade de Anselm Kiefer. Por outro lado, existe uma marcante materialidade próxima de De Kooning, contudo, quanto mais avançamos na compreensão da sua obra, mais identificamos os motivos inspiradores, seja na exuberância da sua pintura ou no trabalho do material, ou ainda, na recusa em pertencer a um movimento marcante figurativo ou abstrato. Convirá realçar que não se trata de conceber a arte como algo extraordinário, não são grandes manifestações ou egos espelhados na tela: a sua prática é prudente, discreta e tranquila, colocada ao serviço do quotidiano. Esta serenidade pode ser encontrada em toda a sua geografia plástica, onde tudo é modéstia, desde a rigorosa geometria das formas à suavidade dos tons escolhidos, passando pela simplicidade dos materiais utilizados. Mas o que é surpreendente é que nada parece austero, como se, graças à rígida ortodoxia que caracteriza o seu trabalho, ele tivesse conseguido extrair a essência da calma. Poesia matemática, podemos dizer.

Artista, não totalmente dialogante, por vezes rizomático, só se consegue conhecer, a partir do seu caos vital onde não se coíbe de autorretratar-se (e.g. “Eu sou o caos”). Homem de uma cultura incomum, noctívago de whiskey refinado, o seu conhecimento artístico, e síntese criativa são levados a um nível superior, tendo marcado presença nos maiores concursos nacionais de arte. Artista residente do extinto Centro de Arte de Buarcos e da Galeria da Má Língua (1997-1998); integrante do grupo PSL – Pintores Sem Limites e do grupo Art Portugal (Lisboa, 2004); co-fundador da Galeria Augusto Pereira (Montemor-o-Velho, 1998); e sócio-fundador da Associação Magenta (Figueira da Foz, 2003), nutre desde o início um fervoroso interesse pela colectividade artística e pelas celeumáticas tertúlias intelectuais que versam sobre diferenciados temas. Ele não deixou de nos surpreender e de nos fazer pensar, este artista, Jovem no pensamento, onde o coração, o cérebro e a mão, têm a coragem de conduzir à maturidade, uma expressão de arte que situa a nossa época. Uma arte carregada do melhor dos legados, mas simultaneamente inteiramente pessoal e livre, cuja mensagem, para além de alegria, de luz, e de crença na vida, acordada no quadro desta exposição, irá amplificar-se para continuar a sua busca, incessante, difícil é certo, da beleza e felicidade universal.

O mérito de Rako é oferecer-nos, como resultado das suas explorações e das experiências daí resultantes, um tesouro de criações únicas, onde uma emotividade moderna consegue restituir todo o seu brilho. Sim, essas obras lembram-nos, por um lado, a beleza viva do que foi criado em tempo antanho, dos gestos artísticos humanos através de um labirinto de signos, por outro, do húmus da nossa memória, soltam-se imagens envoltas em neblina, subindo na nossa consciência, e iluminam-se de forma distinta, encantando-nos pela ressonância e actualidade das suas criações, numa palavra, pela sua contemporaneidade plástica.