crónica de um sultanato no deserto sem notícias
por Fernando Campos
Vamos todos a caminho do esquecimento, essa doce praia
Daniel Abrunheiro
Segundo o estudo “Desertos de Notícias Europa 2025”, coordenado em Portugal pelo Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior (UBI), mais de metade do território nacional não tem fontes de informação confiáveis e regulares sobre a realidade do próprio concelho. Mais de 80 municípios não têm actualmente um único jornal e 74 não têm uma única rádio. Este fenómeno tem sido acompanhado por um fortalecimento dos gabinetes de comunicação dos municípios.
“Sem jornalismo local, o escrutínio de políticos, empresários e gestores públicos é nulo. Como é que as pessoas votam se Portugal é um deserto de notícias?” Perguntava-se a jornalista Bárbara Reis, há tempos, no Público.
Existe porém algo pior do que um deserto de notícias. Na Figueira da Foz, por exemplo, há anos que não existe imprensa residente, mas pulula a correspondente. Durante a mais recente campanha eleitoral autárquica, esta comunicação social não só não foi capaz de promover um único debate público entre todos os candidatos, como também não logrou achar espaço nas suas páginas para uma única entrevista a qualquer um deles – um privilégio religiosamente consagrado apenas ao actual presidente do município, ritual repetido aliás todos os três-quinze-dias durante todos os seus anos de mandato.
O que se segue é o relato de alguns sucessos num concelho onde as únicas notícias que se publicam são as redigidas ou autorizadas pelo gabinete de comunicação do município. A sua leitura talvez sirva para elucidar almas gentis como Bárbara Reismas, como é óbvio, não dispensa a consulta dos resultados eleitorais.
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Em Junho de 2025, a junta de freguesia de Maiorca inaugurou um inacreditável monumento, que apresentou como uma “celebração da devoção religiosa dos maiorquenses”. Segundo a imprensa, que reproduziu religiosamente o mesmo texto emitido pelo gabinete de comunicação do município, a obra em causa pretendia “elevar o impacto da religiosidade na comunidade local”, teria sido “suportada financeiramente e executada pela Junta de Freguesia de Maiorca”, e representado “um investimento de 24 mil euros” com apoio municipal em cerca de 90% dos materiais e matérias-primas, na sua grande maioria reaproveitados de outras obras municipais.
A obra “CRUCIS – Homenagem ao Divino Senhor da Paciência”, localizada na Rua do Senhor da Paciência, em Cruzes (estas coisas não se inventam) no alto de uma pequena colina com vistas largas para dois palácios em ruínas, foi inaugurada numa sexta-feira à noite pelo presidente da Junta, Rui Ferreira, na presença do padre Daniel que abençoou a santa coisa e do presidente da Câmara Municipal Pedro Santana Lopes em pessoa, que descerrou a lápide sacramental. Trata-se de uma espécie de instalação delirante e surrealista, um cadáver (realmente muito) esquisito, constituída por um manipanso gesticulante e maneta, um walking dead de pau feito (autêntico eucalipto nacional) sobre um altar com três degraus na esquina de uma casa com um talude, entre um guarda-corpo em aço inox decorado de exóticos motivos vegetais e uma espécie de roda cujos raios parecem cornetas, ou canhões, em chapa recortada e pregada na empena da parede cega, como uma anti-aérea com os canos apontados para todos os azimutes. Mas a santa bricolage só atingiu os píncaros do escaganifobético mais explícito com o remate final, a sua pièce de resistance: nove marcos instalados no chão em volta que, para o presidente da junta, representam “cada um dos locais de culto religioso na freguesia” e para muitos paisanos apenas a cerveja no tópingue de um simplório porém flamejante e monumental atentado consumado à sua paciência, sensibilidade e inteligência. Da imprensa nem ai nem ui; nem do destrambelho estético do monumento, nem do desatinado despropósito do investimento, nada.
Sublinhe-se que este investimento público numa homenagem à devoção por uma confissão religiosa foi, cândida e orgulhosamente, perpetrado (mais de cem anos depois do decreto-lei de 1911, do senhor Afonso Costa, que instituiu a Separação do Estado das Igrejas, e cinquenta depois da Constituição de 1976 que, mesmo que muito timidamente, a reinstituiu) por um autarca então ainda socialista – Rui Ferreira haveria, depois de virar a casaca, de se recandidatar pela força que apoiou Santana Lopes e perder a re-eleição para o Chega, o partido fascista que agora governa Maiorca, em mui alegre geringonça com o socialista.
Esta devoção pela devoção à santa tradição religiosa não foi apenas um episódico e idiossincrático capricho de um expedito prsdnte de junta de aldeia armado aos cucos. É uma tendência, pastosa e palpável, um ar do tempo que já tomou a cidade – como a febre da raspadinha, os ratos, as lojas de penhores, os oculistas, as gaivotas, as igrejas evangélico-sionistas e os supermercados.
A mesma tendência mórbida, com a sua peculiar e sintomática sensibilidadezinha para as coisas da cultura, tornou-se evidente no decorrer da 10ª edição do ciclo de conferências “Temas de Arqueologia”, que pela primeira vez se alargou também a Temas de Arte. Promovido pelos Serviços Culturais do município, como sempre em parceria com a Universidade Sénior da Figueira da Foz, este notável ciclo de conferências decorreu de 4 de Fevereiro a 18 de Março, às quartas-feiras, no Auditório Municipal Madalena Biscaia Perdigão. Contudo – apesar de integradas nas comemorações do 132º aniversário do Museu Municipal e da indiscutível relevância da revelação de surpreendentes formas de arqueologia (o conceito de escavação do presente, explicado na magistral palestra de Tânia Casimiro) e da divulgação pública de novas descobertas no estudo do seu próprio espólio arqueológico e artístico – tornou-se iniludível um facto ostensivo: nem uma destas conferências mereceu a presença de um representante da tutela (o pelouro da Cultura) nem de qualquer chefia dos serviços culturais. A imprensa local, como de costume, também disse nada; limitou-se a divulgar religiosamente, como sempre, o anúncio do evento, aliás muito competentemente confeccionado já em forma de notícia, como habitualmente, plo gabinete de comunicação.
Logo a seguir, a Câmara Municipal da Figueira da Foz, “ciente do carácter diferenciador e características únicas das cerimónias da Semana Santa e da Páscoa em Buarcos, associou-se à Paróquia de Buarcos e à Santa Casa da Misericórdia de Buarcos na sua valorização, consequente projeção do concelho como um destino de turismo religioso de referência, neste período”. Ou seja: o município acaba de fazer das tradições pascais de uma confissão religiosa numa das suas freguesias o eixo de toda a sua programação cultural de Primavera – “oferecendo celebrações profundas de 21 de março a 5 de abril de 2026. O programa inclui procissões tradicionais (Senhor dos Passos, Ecce Homo, Enterro do Senhor), concertos gratuitos na Igreja da Misericórdia e de São Pedro, e a exposição “Memórias da Paixão”, e ainda cruzes e palmas em todas as esquinas e até um mercadinho medievo no jardim público decorado com motivos pascoais.
Se o transformismo do martírio do senhor em produto turístico não choca os fiéis católicos figueirenses (nem o massacre de inocentes em curso na Palestina os impressiona por aí além), a transfiguração da fé católica em cartaz turisticócultural da cidade também parece não ter afectado demasiado os figueirenses fiéis de outras confissões, os espíritas, os cépticos impenitentes, os columbófilos, os incrédulos notórios, os agnósticos confessos, os apicultores, os ateus assumidos, os surfistas conhecidos e os alcoólicos anónimos. Da comunicação social nem falar – nem objecção, nem reticência, nem sequer perplexidade em toda a opinião publicada. Ninguém ousou discutir publicamente o discernimento e o arbítrio caprichoso e discricionário de um ungido e mui preclaro autarca de uma parvalheira de província que diz que lhe dizem que devia ter-se candidatado a presidente da república.
Miguel Torga observou uma vez no país “um fenómeno curioso: falta-lhe o romantismo cívico da agressão”, apontou ele no seu Diário. Já na Figueira existe um outro fenómeno, não menos curioso, que decerto também não teria escapado ao poeta se ele alguma vez tivesse deambulado por cá nas suas longas caminhadas reflexivas; algo que não carece mas remanesce: o pragmatismo cínico da omissão, com a sua compulsão para a conivência, o bico calado, o conformismo e a genuflexão.
Tudo indica portanto que a Figueira da Foz burguesa, laica, plural, democrática, progressiva, hedonista e cosmopolita já não existe. Desistiu do mundo porque descobriu a gândara, que é de onde lhe chega o seu turismo de proximidade. Gandarisou-se. O bafo atávico do portugal profundo, beato e reaccionário, chega-lhe do interior, das entranhas doantigamente, com o hálito azedo e ansiolítico do determinismo fanático e da superstição – como uma nortada macacómica e (ul)tramontana cruzada de patrioteirismo paroquial (aquele portuguesismo com zê, de água-benzida e mapa-cor-de-roza-colonial) com fundamentalismo de acento canarinho evangélico ou pentecostal.
Por tudo isto talvez se deva concluir que pior, muito pior, do que um deserto de notícias é uma espécie de Exopotâmia sur-mer – governada por um sultão beato e sem dinastia, envelhecido e marreco como um outonal patriarca entediado (só está bem onde não está), intratável quando contrariado e inacessível à sua própria corte – uma choldra impávida e decadente onde triunfa o fogo de artifício e a aridez cultural e vegeta a alma réptil e venenosa de uma comunicação social rastejante e dependente, tão celerada e analfabeta como medíocre, inepta e relapsa, que não reporta e tão-pouco se importa, que não quer saber nem quer que se saiba e cuja única actividade consiste em publicar anúncios como notícias copiando, cortando, truncando e colando, mal e porcamente, com bizantinos critérios de oportunidade, narrativas pré-confeccionadas em gabinetes de comunicação.
E pensar que esta já foi a cidade do livre-pensador Fernandes Tomás; do arqueólogo maçon Santos Rocha; do filósofo espinosista Joaquim de Carvalho; do pedagogo republicano João de Barros; de José Ribeiro, o encenador e valente redactor de “A Voz da Justiça”; do intrépido jornalista Albano Duque; de Cristina Torres, a corajosa activista do laicismo e da educação cívica; de José Martins, o engenhoso director do “Barca Nova”; de Cândido Costa Pinto, homem complicado e pintor inconformado; de Joaquim Namorado, o incómodo poeta matemático e comunista; do irreverente e libertário Mário Silva; do herético cineasta João César Monteiro. Era bem outra cidade, de toda uma outra tradição.
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*Exopotâmia foi um termo inventado por Boris Vian para designar o deserto descrito no seu romance patafísico-surrealista “O Outono em Pequim”, uma obra cujo título obviamente não tem nada que ver com a sua estória. Nem com esta.
Imagem: “CRUCIS – Homenagem ao Divino Senhor da Paciência”, Cruzes, Maiorca (foto de Fernando Campos)


