O homem que se esqueceu de como pensar

por Pedro Nunes

Havia um homem que se esqueceu de como pensar. Não foi de uma vez – não foi um acidente, nem uma doença, nem sequer uma escolha dele.

Todos os dias entregava um pouco da sua atenção a algo que pedia com urgência, e todos os dias recebia em troca a ilusão de que estava mais informado, mais conectado, mais presente no mundo. Até que um dia, sentado num banco de jardim, deu por si sem o telemóvel na mão, e ficou em pânico. Não sabia o que fazer com o silêncio. Não estava preparado para o desconforto sem ter logo uma resposta imediata. A tecnologia tinha colonizado o seu silêncio. Tinha-se ido o silêncio e algo mais que não conseguia nomear, algo que fazia parte de nós – o intervalo entre o estímulo e a resposta onde, durante muito tempo, o pensamento aconteceu.

Walter Benjamim escreveu sobre o flâneur – uma figura que vagueava pelas galerias de Paris sem destino, deixando que a cidade lhe fosse trabalhando a mente. O flâneur existia à margem do pensamento e o pensamento se tornava escrita. O flâneur dos nossos dias tem os olhos presos ao ecrã, não viu nada. Caminhou, mas ficou parado.

Bernardo Soares, de Fernando Pessoa, ficava a olhar pela janela do seu escritório e dessa perspetiva extraía todo um universo. Não precisava de ir a lado nenhum. Tinha o tédio, tinha a luz da tarde, tinha os sons da rua. E tinha tempo – tempo morto que hoje vemos como um desperdício. O mundo exige respostas imediatas, e certamente Bernardo Soares seria despedido por falta de produtividade. Mas foi ele quem escreveu o Livro do Desassossego.

O problema não é a tecnologia. O problema é o que fazemos do espaço que ela ocupa. Se não temos espaço para o aborrecimento, deixamos de nos poder surpreender com o que quer que seja. O tédio é a porta de entrada para a imaginação, é o momento que antecede a ideia, quando ainda não sabemos que está para chegar.

O homem do banco de jardim ficou ali algum tempo. Não fez nada – e isso custou-lhe muito. Sentiu a ansiedade a subir, o impulso de pegar no telemóvel, de verificar algo, qualquer coisa. E ao fim de um tempo – começou a ouvir os pássaros. Depois reparou nas nuvens, nos sons das crianças que brincavam no parque, pensou que a sua filha de manhã tinha-lhe dito que o amava e que ele nem sequer tinha dado grande atenção…

Não fujamos da tecnologia, só não lhe entreguemos todo o silêncio. Deixemos o tédio existir. Pensar não é só pesquisar. Precisamos de tempo para podermos fazer coisas maravilhosas.

O homem levantou-se do banco. Ia diferente.

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Imagem: Fernando Pessoa flanando no Rossio, Lisboa (algures no século vinte).

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