{"id":1185,"date":"2025-05-19T07:23:18","date_gmt":"2025-05-19T07:23:18","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1185"},"modified":"2025-05-19T07:38:07","modified_gmt":"2025-05-19T07:38:07","slug":"olhemos-um-pouco-em-volta-de-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1185","title":{"rendered":"Olhemos um pouco em volta de n\u00f3s"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Cristina Torres<\/strong><\/em><br><\/p>\n\n\n\n<p><em>nota pr\u00e9via<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Nascida em Roscommon, na Irlanda, em 20 de agosto de 1842, <strong>Edith O\u2019Gorman<\/strong> emigrou para a Am\u00e9rica em 1848. Em 1862 juntou-se \u00e0s Irm\u00e3s da Caridade, tornando-se Irm\u00e3 Teresa de Chantal. Residiu durante seis anos no Convento de S\u00e3o Jos\u00e9 em Hudson City, Nova Jersey. Em Janeiro de 1868 saiu ou, como mais tarde afirmou, &#8220;escapou&#8221; do convento. Em 1871, publicou <strong><em>Convent Life Unveiled: The Trials and Persecutions of Miss Edith O&#8217;Gorman<\/em><\/strong>, uma auto-biografia que causou enorme esc\u00e2ndalo, teve in\u00fameras edi\u00e7\u00f5es e foi traduzida em v\u00e1rias l\u00ednguas. Nela Edith contou, com \u201c<em>nomes, datas e factos, desafiando assim toda e qualquer contradi\u00e7\u00e3o\u201d, <\/em>as muitas crueldades que teria suportado durante seu tempo como freira (desde a ingest\u00e3o for\u00e7ada de vermes como castigo por infrac\u00e7\u00f5es menores at\u00e9 uma tentativa de estupro por um padre). Logo depois encetou, ainda na Am\u00e9rica e posteriormente na vitoriana Inglaterra, onde posteriormente se fixou, uma s\u00e9rie de palestras em que, sempre acompanhada pelo esc\u00e2ndalo, e anunciada como \u201c<em>the escaped nun<\/em>\u201d, detalhava ao pormenor os horrores da vida conventual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em Portugal, j\u00e1 no s\u00e9culo XX, o livro de Edith O&#8217;Gorman conheceu pelo menos tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es que causaram grande repercuss\u00e3o, dando argumentos \u00e0 luta positivista \u201c<em>contra os manejos do fanatismo\u201d<\/em> do ensino jesu\u00edtico, durante a vig\u00eancia da primeira Rep\u00fablica. A quarta, e \u00faltima, de que tivemos acesso a um exemplar na Biblioteca Municipal, \u00e9 de 1932 &#8211; j\u00e1 em pleno <em>Estado Novo<\/em>. Foi uma arriscada decis\u00e3o do editor (a Livraria Triunfo Ed\u00aa, de Lisboa), que lhe acrescentou um corajoso pref\u00e1cio de <strong>Cristina Torres<\/strong>, mesmo estando consciente de que \u201c<em>nos apertados dias que correm\u201d, <\/em>como anotou em <em>advert\u00eancia,<\/em> o livro iria desencadear \u201c<em>as c\u00f3leras da reac\u00e7\u00e3o dominante<\/em>\u201d. E assim foi, como todos sabemos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O discurso l\u00edmpido e comovido de Cristina Torres ainda nos interpela &#8211; porque se mant\u00e9m, infelizmente, de surpreendente actualidade: hoje, em outra vez <em>&nbsp;apertados dias que correm<\/em>, para al\u00e9m do regresso de novos e quase quotidianos esc\u00e2ndalos em col\u00e9gios religiosos, o velho jesuitismo (agora degenerado em mil novas f\u00f3rmulas ou estirpes, <em>leigas e<\/em> <em>liberais<\/em>, <em>evang\u00e9licas ou pentecostais<\/em>, cada vez mais agressivas e dogm\u00e1ticas) tamb\u00e9m est\u00e1 de volta com o seu discurso mel\u00edfluo e insidioso. As cornetas da reac\u00e7\u00e3o dominante proclamam de novo o velho <em>prest\u00edgio<\/em> do pensamento m\u00e1gico, a mesma propaganda anti-ci\u00eancia, o mesmo culto da ignor\u00e2ncia e do dinheiro e o mesmo desprezo pela cultura e pelo livre-pensamento &#8211; mas desta vez de forma ainda mais perversa, pervertida e <em>enviesada<\/em>&nbsp; &#8211; a par do sacramental amor <em>de <strong>deus<\/strong><\/em> e da ditosa <strong>p\u00e1tria<\/strong><em> armada<\/em>, agora at\u00e9 festeja a <strong>fam\u00edlia<\/strong> tradicional<em> portugueza<\/em> no Dia Internacional do Trabalhador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O texto de Cristina Torres \u00e9 um l\u00facido e doloroso testemunho dos malef\u00edcios da educa\u00e7\u00e3o para o conformismo com a fatalidade; mas tamb\u00e9m um luminoso e eloquente libelo contra a idolatria, o fanatismo, a supersti\u00e7\u00e3o, o preconceito e o obscurantismo.&nbsp; Por isso mesmo a <strong><u>Passarola<\/u><\/strong> decidiu reedit\u00e1-lo, o que acontece pela primeira vez depois de quase cem anos incompreensivelmente encerrado num livro que foi interdito. Decidimos naturalmente faz\u00ea-lo na sua ortografia original. Porque jamais ousar\u00edamos submeter uma \u00fanica palavra da Professora Cristina Torres ao enxovalho p\u00f3stumo de um infame revisionismo ortogr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-large-font-size\">Olhemos um pouco em volta de n\u00f3s<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">&nbsp;\u201c<em>Que instruam na prud\u00eancia as mulheres mo\u00e7as,<\/em><br><em>que amem a seus maridos, queiram bem a seus filhos<\/em>\u201d.<br>(Ep\u00edstola de Paulo a Tito).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por vezes a Vida com as suas d\u00f4res e as suas imperfei\u00e7\u00f5es leva-nos ao des\u00e2nimo. Diante dos nossos olhos passam, num caminhar desordenado, as v\u00edtimas de paix\u00f5es terr\u00edveis, de d\u00f4res inenarr\u00e1veis, de mart\u00edrios sem consola\u00e7\u00e3o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c0s d\u00f4res morais, nascidas de tantas causas diferentes, acrescem as d\u00f4res f\u00edsicas, geradas pela fome, pela doen\u00e7a e pelo desamparo.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Somos n\u00f3s, os que pensamos e que nada podemos, &#8211; a n\u00e3o ser repartir o esfor\u00e7o do nosso trabalho e do nosso pensamento, dia a dia, pelos mais pobres de esp\u00edrito \u2013 somos n\u00f3s que mais sentimos essas d\u00f4res, porque n\u00e3o as podemos mitigar.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ah! a Vida, a Vida que podia ser bela se bem a soubessemos compreender!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Olhemos um pouco em volta de n\u00f3s. A s\u00edfilis, o cancro, a tuberculose alastram e destroem. Fam\u00edlias inteiras morrem de fome, desamparadas, miser\u00e1veis, sem nem ao menos terem a ampara-las na desgra\u00e7a a faculdade de lutar para vencer.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O mais forte destroi o mais fraco, sem piedade pela sua fraqueza.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O homem abusa da mulher sem respeito por ela e por si pr\u00f3prio.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A crian\u00e7a chora de fome pelas ruas, sem que as portas das casas de benefic\u00eancia sejam bastante amplas para as deixar passar a t\u00f4das.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E ser\u00e1 assim durante largos anos, enquanto o equil\u00edbrio desejado n\u00e3o se realizar; enquanto se n\u00e3o limarem agud\u00edssimas arestas, unificando esfor\u00e7os, realizando aspira\u00e7\u00f5es de Paz e Igualdade.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para que \u00easse equil\u00edbrio se realize \u00e9 preciso que trabalhem chamando \u00e0 Vida, cheia de d\u00f4res, &#8211; e que mais dolorosa ser\u00e1 se isto n\u00e3o fizermos -, os que tenham b\u00f4a vontade e bom \u00e2nimo, alheios a vaidades de t\u00edtulos e a subt\u00eds rem\u00e9dios, que apenas marcam pela eleg\u00e2ncia f\u00edsica que quem os aconselha.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A obra de Regenera\u00e7\u00e3o tem de ser feita pela prepara\u00e7\u00e3o consciente do indiv\u00edduo em frente da mis\u00e9ria e da d\u00f4r. Temos de lhe mostrar a chaga purulenta, para que o rem\u00e9dio, mesmo violento e duro, seja recebido como necess\u00e1rio. Temos de educar a crian\u00e7a, n\u00e3o nas doiradas ilus\u00f5es dos contos de fadas de moral antiquada e falsa, mas na realidade amarga, de que ela tem de se transformar num valor, para ter o direito de viver.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A no\u00e7\u00e3o errada da Vida que se pretende ainda hoje dar \u00e0 crian\u00e7a!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como \u00e9 habilidoso fazer-lhe recitar frases \u00f4cas que ela n\u00e3o percebe, lada\u00ednhas que ela decora como se fosse um papagaio.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cN\u00e3o penses, minha menina! Fecha os olhos; a Vida \u00e9 t\u00e3o feia! Embala-te em hist\u00f3rias de fadas; cria para ti um mundo irreal e caminha para \u00easse precip\u00edcio que \u00e9 a sociedade, para quem n\u00e3o aprender a defender-se dos seus \u00earros e defeitos \u2013 aqueles a quem n\u00e3o deixaram preparar para ser na exist\u00eancia um elemento reconstrutivo\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E \u00e9 n\u00easte momento que a luta se trava medonha e forte entre o que foi e o que ser\u00e1, n\u00easte momento em que o embate das paix\u00f5es pode ter conseq\u00fc\u00eancias grav\u00edssimas, que a educa\u00e7\u00e3o conventual pretende reconquistar o terreno, que a ci\u00eancia e a longa experi\u00eancia dos maus resultados obtidos lhe fizeram perder. E n\u00easte momento, quando pedagogos e professores, atormentados pela d\u00favida, procuram o m\u00e9todo a empregar; quando a crian\u00e7a nos preocupa como um remorso e uma esperan\u00e7a, &#8211; remorso pela vida que tem, esperan\u00e7a pelo que poderemos fazer dela -, \u00e9 n\u00easte momento, que a mulheres sem cultura e sem conhecimento pr\u00f3prios, enganadas pela vida isolada, sem contacto com o mundo, se entrega a educa\u00e7\u00e3o da futura mulher do oper\u00e1rio revoltado e infeliz, aconselhando-lhe a resigna\u00e7\u00e3o inutil dos que se refugiam no isolamento de uma cela, ou entre as \u00e1rvores de um triste jardim conventual.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O isolamento religioso! Eu n\u00e3o sei como se pode viver sem a luz do Sol, sem ar puro e sem comunicar com o nosso semelhante.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o sei como \u00e9 poss\u00edvel isolarmo-nos do resto do mundo, n\u00e3o sofrer os seus sofrimentos, n\u00e3o palpitar com as suas alegrias, n\u00e3o admirar as conquistas do Pensamento humano, do trabalho e da intelig\u00eancia.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o sei para que servem essas teorias de abdica\u00e7\u00e3o inutil dos mais puros sentimentos, das mais delicadas afei\u00e7\u00f5es.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A ren\u00fancia ao mundo! Como \u00e9 falsa essa afirma\u00e7\u00e3o de perfei\u00e7\u00e3o suprema, representada pelo abandono do lar, pela indiferen\u00e7a de sofrimento, na aspira\u00e7\u00e3o \u00fanica do bem-estar pr\u00f3prio, da indiferen\u00e7a por tudo o que n\u00e3o fa\u00e7a parte das regras da Igreja \u2013 que t\u00e3o afastada anda do sofrimento real dos Povos, que t\u00e3o pouco perspicaz se mostra actualmente, supondo que o futuro ser\u00e1 o que ela quiser que seja:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Voltar para tr\u00e1s. Regressar \u00e0 vida ignorante da Idade M\u00e9dia, \u00e0s cren\u00e7as supersticiosas transformadas em milagres grosseiros, presenciados pelos ignorantes e pelos simples de esp\u00edrito. Destruir tudo o que a ci\u00eancia tem feito para explicar os factos que ent\u00e3o eram considerados sobrenaturais.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cobrir a mis\u00e9ria com o veu da caridade. Disfar\u00e7ar com a apar\u00eancia de d\u00f3 a necessidade de preparar as gera\u00e7\u00f5es para ordeiramente, numa conquista de intelig\u00eancia e de respeitabilidade moral, se diminuir at\u00e9 destruir a mis\u00e9ria e o crime que tantas vezes tem a origem nos prejuizos de castas, na superioridade do dinheiro.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cResigna-te \u00e0 tua sorte e ser\u00e1s feliz no outro mundo. Isola-te em ora\u00e7\u00e3o e conquistar\u00e1s o Ceu\u201d diz-se \u00e0 rapariga formosa e amor\u00e1vel. \u201cModifica a tua alegre juventude e ser\u00e1s mais perfeita. Baixa os olhos para a terra, onde ter\u00e1s a tua sepultura. Pensa sem cessar no dia da tua morte\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Numa palavra \u2013 Procura alcan\u00e7ar um lugar na eternidade, n\u00e3o afirmando-o pelo Bem que espalhas, mas pelo isolamento do teu Eu, pela destrui\u00e7\u00e3o da tua intelig\u00eancia, pela mis\u00e9ria, por tudo o que n\u00e3o seja a tranq\u00fcilidade da tua exist\u00eancia.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0E como essa indiferen\u00e7a pelos outros deforma caracteres, tornando \u00e1ridos cora\u00e7\u00f5es amor\u00e1veis, transformando raparigas novas em velhas de esp\u00edrito, acanhadas de pensamentos, e cuja intelig\u00eancia desaparece nos longos jejuns, nas vis\u00f5es celestiais, no martelar de frases, que a maioria, pela sua ignor\u00e2ncia, n\u00e3o pode compreender!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o falemos d\u00easte livro para o elogiar, que n\u00e3o precisa de elogios, t\u00e3o humana e t\u00e3o simples \u00e9 a sua linguagem.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As cenas que Edite nos conta passaram-se em Portugal, na Espanha, na Fran\u00e7a, em todos os pa\u00edses onde a educa\u00e7\u00e3o conventual se faz sentir.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sentir-se h\u00e1 mais e mais no nosso pa\u00eds, daqui a alguns anos, t\u00e3o intensa \u00e9 hoje a sua propaganda.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o de ontem, s\u00e3o de hoje e ser\u00e3o de amanh\u00e3 se, com um trabalho sensato, sem atropelos e sem viol\u00eancias, lhes n\u00e3o opusermos a resist\u00eancia da nossa vontade e dos nossos sentimentos, em bases de s\u00f3lida pureza moral e mental.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Recordemos os r\u00e1pidos progressos feitos na vida portuguesa pelo fanatismo e pela ignor\u00e2ncia. Recordemos a campanha de \u00f3dio contra institui\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o comunguem nas mesmas ideias, que tentem fazer prevalecer o livre exame s\u00f4bre o dogma, e reconheceremos que se n\u00e3o trabalharmos com todo o entusiasmo seremos vencidos.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tudo \u00e9 invadido. \u00c0 hora da morte o pobre, que ansioso espera uma palavra de esperan\u00e7a, que espreita no fulgir dos olhos do m\u00e9dico alguma luz que fortale\u00e7a o seu desejo de viver, ouve o murmurar das resas que lhe falam de agonia, a amea\u00e7a que lhe fazem do inferno e do purgat\u00f3rio. N\u00e3o lhe basta muitas vezes a tristeza do pobre lar desfeito, \u00e9 preciso que pense, &#8211; pobre desgra\u00e7ado que viveu trabalhando e sofrendo -, nos horrores que o esperam al\u00e9m-t\u00famulo.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eu conhe\u00e7o casos abomin\u00e1veis. Atribuo-os \u00e0 grosseira religi\u00e3o de alguns, \u00e0 pequenez de esp\u00edrito de outros.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conhe\u00e7o fam\u00edlias que martirizam na derradeira hora o homem probo e bom que viveu na pr\u00e1tica do Bem e que lhes deixou t\u00f4da a liberdade, conservando a da sua consci\u00eancia!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conhe\u00e7o fam\u00edlias que as filhas abandonam, sem um adeus de amor, sem uma l\u00e1grima de ternura, para irem, nas paredes de uma cela, cuidar da sua salva\u00e7\u00e3o eterna!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conhe\u00e7o casais ador\u00e1veis, olhados como leprosos morais, porque n\u00e3o casaram religiosamente.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conhe\u00e7o crian\u00e7as olhadas com horror desprezativo porque n\u00e3o s\u00e3o baptizadas cat\u00f2licamente.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E conhe\u00e7o ainda santas criaturas que, cuidadosas do bem celestial seu e o dos outros, n\u00e3o hesitam em fomentar na terra a disc\u00f3rdia do lar, dizendo mal do esposo \u00e0 esposa, do pai aos filhos, diminuindo a autoridade paternal, destruindo a uni\u00e3o da fam\u00edlia, em nome dum Jesus de bondade e justi\u00e7a que pr\u00e8gou um amor entre os homens, com base na felicidade humana.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o do que nos conta Edite \u00d3\u2019Gorman; &#8211; persegui\u00e7\u00f5es que sofrem todos os que abertamente se declaram contra os preconceitos religiosos e contra a educa\u00e7\u00e3o conventual.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Venho do cemit\u00e9rio. Acompanhei \u00e0 sua \u00faltima morada um rapaz de 23 anos, que se sentou nos bancos da minha Escola aos 12. Era alegre, honesto, puro nas suas ideias e na sua vida. Morreu sem m\u00e1cula. Tuberculizou-se h\u00e1 cinco anos e desde ent\u00e3o arrastou uma vida que talvez pudesse ter sido salva, se a sua condi\u00e7\u00e3o social fosse diferente e se, de cada vez que uma apar\u00eancia de sa\u00fade o animava, n\u00e3o tivesse de ganhar o duro p\u00e3o de cada dia.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A fam\u00edlia fica sem nada. Deve na farm\u00e1cia, na mercearia e talvez tenha de dever durante alguns meses a terra onde vai transformar-se em flores, que as m\u00e3os da pobre m\u00e3e dispor\u00e3o, o seu pobre corpo inanimado.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tanta mis\u00e9ria, tanta!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E tanto dinheiro mandado para Roma, tanto!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tanto dinheiro gasto nas bordaduras doiradas dos h\u00e1bitos talares, na ornamenta\u00e7\u00e3o das imagens, nos subs\u00eddios \u00e0s casas religiosas.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tanto que nem o pudemos contar!!!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Cristina Torres nota pr\u00e9via Nascida em Roscommon, na Irlanda, em 20 de agosto de 1842, Edith O\u2019Gorman emigrou para a Am\u00e9rica em 1848. Em 1862 juntou-se \u00e0s Irm\u00e3s da Caridade, tornando-se Irm\u00e3 Teresa de Chantal. Residiu durante seis anos no Convento de S\u00e3o Jos\u00e9 em Hudson City, Nova Jersey. Em Janeiro de 1868 saiu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1186,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"saved_in_kubio":false,"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-1185","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-passarola"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1185","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1185"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1185\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1188,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1185\/revisions\/1188"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1186"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1185"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1185"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1185"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}