{"id":1189,"date":"2025-05-23T10:03:58","date_gmt":"2025-05-23T10:03:58","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1189"},"modified":"2025-05-23T10:03:58","modified_gmt":"2025-05-23T10:03:58","slug":"os-figueirenses-eis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1189","title":{"rendered":"Os figueirenses, eis!"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Pedro Melo Biscaia*<\/strong><\/em><br><em>fotografia por <strong>David Fadul<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como manda o protocolo, come\u00e7o por agradecer, penhoradamente, ao autor destas cr\u00f3nicas, Oleg\u00e1rio Bettencourt, l\u00eddimo representante da arte de observar, refletir e dar vida a certas e determinadas palavras, que alguns dizem guardar no limbo temeroso que existe mesmo por baixo da l\u00edngua, mas sem que, alguma vez, obtenham a alforria do verbo. &#8211; <em>Era isso mesmo! tal e qual eu tinha pensado! eu n\u00e3o diria melhor!\u2026 mas, meu caro, a virtude da conveni\u00eancia social impede-me de o proferir!<\/em> Estas s\u00e3o express\u00f5es talvez demasiado comuns, de que Oleg\u00e1rio, subtilmente zombou e, com a sua escrita fina e desassombrada, veio p\u00f4r o dedo indicador sobre a nossa ferida coletiva. Todavia Oleg\u00e1rio, no fundo, &#8211; acreditem &#8211; \u00e9 um ser amargurado, com um grande amor incompreendido e n\u00e3o correspondido pela terra que adotou como sua. Nas suas cr\u00f3nicas, que o diretor do jornal \u201cLinha do Oeste\u201d acolheu &#8211; presumivelmente depois de ponderada hesita\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o perpassam sentimentos menores de inveja, de mera maledic\u00eancia, pros\u00e1pia ou de desesperan\u00e7a. O leitor mais apressado poder\u00e1, talvez, correr o risco de interpretar a cr\u00edtica olegar\u00edstica, como uma generaliza\u00e7\u00e3o abusiva do figueirense t\u00edpico, uma tremenda tapona nos nossos costumes medianos ou o desmerecimento de tantas coisas lindas e boas aludidas por alguns poetas ou cantadas pelas vozes canoras de Maria Clara ou Alice Amaro. Mas se tivermos a paci\u00eancia de reler, devagar, a sua esmerada escrita, descobriremos essa dimens\u00e3o sentimental dos rom\u00e2nticos, quase de suspiros de alma apaixonada, por detr\u00e1s do aparente azedume. Por tudo isso e, por certo, por muito mais que cada um poder\u00e1 intuir, Oleg\u00e1rio \u00e9 um cidad\u00e3o atento que, por detr\u00e1s dos \u00f3culos pequeninos, tem um amplo olhar de \u00e1guia (no caso, ser\u00e1 melhor dizer de gaivota\u2026), que increpa a realidade conhecida, mas pouco entendida pelos demais. Ele \u00e9 o Sancho que nos adverte para os nossos devaneios de cavaleiros da triste figura, montados na sela gasta do nosso esqu\u00e1lido Rocinante. Leiam-no, na do\u00e7ura de um p\u00f4r do sol da marginal, sentados no carro com um saco de freiras no colo, e l\u00e1 ver\u00e3o essa ambival\u00eancia de tristeza e de desafio, que verte das suas palavras. N\u00e3o pretendo ser arrogante neste conselho, mas isto que vos digo, vem do sopro da minha alma feita de maresia e nortada, que aqui se abre neste tremido e emocionado desabafo.<\/p>\n\n\n\n<p>As cr\u00f3nicas de Oleg\u00e1rio Bettencourt no seman\u00e1rio \u201cLinha do Oeste\u201d, nos anos 90 do s\u00e9culo passado, t\u00eam uma aguda pertin\u00eancia, perante a anomia c\u00edvica figueirense que nos tolhe os gestos, emudece a l\u00edngua e, um dia destes (espero que n\u00e3o) nos oblitere o pensamento. Noutros tempos, com outros contextos e, indiscutivelmente com menor qualidade de escrita, a imprensa local acolhia a cr\u00edtica como um exerc\u00edcio de interven\u00e7\u00e3o c\u00edvica. Alguns se lembrar\u00e3o da coluna \u201cOs Engenheiros de Obras Feitas\u201d no Figueirense, das sec\u00e7\u00f5es \u201cBocas do canto\u201d ou do \u201cPur\u00e9 de Ma\u00e7\u00e3\u201d no seman\u00e1rio Barca Nova, que escrutinavam a vida p\u00fablica da cidade e ousavam discordar de algumas decis\u00f5es e de quem as tomava.&nbsp; Tal como no \u00e2mbito nacional, mas num patamar incompar\u00e1vel, as c\u00e9lebres reda\u00e7\u00f5es da Guidinha, sa\u00eddas da m\u00e3o inc\u00f3gnita de Sttau Monteiro, no suplemento <em>A Mosca<\/em> do Di\u00e1rio de Lisboa ou, ainda em tempos mais recuados, os bonecos e textos de Bordalo Pinheiro na Par\u00f3dia, as tem\u00edveis <em>Farpas<\/em> de E\u00e7a de Queir\u00f3s e Ramalho Ortig\u00e3o, os retratos sociais nas personagens de <em>Viagens da Minha Terra<\/em>, de Garrett at\u00e9 \u00e0 sempre fresca ironia Vicentina. Todos, no seu tempo e \u00e0 sua maneira, agitaram a dorm\u00eancia c\u00edvica dos seus concidad\u00e3os.&nbsp; Todos, na sua diferente medida, se filiam na mesma bitola mordaz e corajosa de Oleg\u00e1rio, que disse o que era preciso ser dito. Tamb\u00e9m na hist\u00f3ria da nossa urbe, a participa\u00e7\u00e3o ativa e cr\u00edtica dos figueirenses, j\u00e1 foi um tra\u00e7o de perman\u00eancia. Lembremo-nos, por exemplo, da concorrida Representa\u00e7\u00e3o que, em 1900, recolheu centenas de subscritores que se insurgiam contra a aliena\u00e7\u00e3o da rua da Alegria (hoje Esplanada Silva Guimar\u00e3es) anunciada pela C\u00e2mara. E foi tal a agita\u00e7\u00e3o, que lograram travar a terr\u00edvel pretens\u00e3o de destruir aquela varanda sobre o mar. Ou a luta local contra a expans\u00e3o da f\u00e1brica de cimento do Cabo Mondego, nos anos 60, que gerou amplos debates e posicionamentos na imprensa local, neste caso, com a decidida interven\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o presidente da C\u00e2mara, Coelho Jord\u00e3o, que mobilizou vontades, recursos e combate nos tribunais, para contestar o que Champalimaud desejava. Bem diferente, digo eu, do sil\u00eancio quase total, quando se assiste \u00e0 entrega recente do Pavilh\u00e3o de Turismo (vulgo Abrigo da Montanha), obra do Arquiteto Ra\u00fal Lino, de 1922, para um uso diverso da sua voca\u00e7\u00e3o, o qual sempre foi o usufruto p\u00fablico do panorama da Serra sobre o mar, como sonhou, entre outros, Manoel Alberto Rey.<\/p>\n\n\n\n<p>Os entendidos em Bot\u00e2nica, explicam-nos que o figo n\u00e3o \u00e9 um fruto da figueira (como muitos de n\u00f3s supomos), mas sim uma infrutesc\u00eancia, ou seja, uma flor invertida que, para se reproduzir, precisa de um inseto alado (daqueles que esvoa\u00e7am daqui para ali e vive versa) que seja atra\u00eddo para o seu interior, onde deposita os ovos e depois, aprisionado, a\u00ed fenece. Quando aqueles eclodem, as pequenas larvas alimentam-se da mat\u00e9ria doce do pr\u00f3prio figo que apodrece e que, com resignada lassid\u00e3o, liberta os novos insetos para cumprirem o des\u00edgnio da media\u00e7\u00e3o polinizadora. Atentem bem: a figueira atrai uma criatura externa no desejo que a esp\u00e9cie sobreviva, mesmo que isso determine a sua lenta decad\u00eancia e a inditosa morte do intruso. Intrigante e tr\u00e1gica esta met\u00e1fora que a fitologia nos suscita\u2026&nbsp; &#8211; Eis como s\u00e3o insond\u00e1veis os mist\u00e9rios da Natureza!<\/p>\n\n\n\n<p>O imperioso sobressalto c\u00edvico impl\u00edcito nas cr\u00f3nicas de Oleg\u00e1rio continua, como se v\u00ea, com grande atualidade, nesta terra que queremos continuar a chamar nossa, como uma casa comum, com refer\u00eancias partilhadas de espa\u00e7o e lugar. Todavia, o desinteresse, o abstencionismo, a cr\u00edtica populista, a anestesia fe\u00e9rica, a demiss\u00e3o de responsabilidades na interven\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, s\u00e3o os fatores de risco de uma sociedade control\u00e1vel e manipul\u00e1vel, sem car\u00e1ter nem afirma\u00e7\u00e3o de valores identit\u00e1rios de coes\u00e3o. Numa palavra, apodrece! \u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Como disse, em 2000, o saudoso Jorge Sampaio, o \u201cinvestimento na cultura c\u00edvica e na forma\u00e7\u00e3o de uma opini\u00e3o p\u00fablica cr\u00edtica e informada, \u00e9 vital para o desenvolvimento social\u201d. Esse ser\u00e1, tamb\u00e9m, na singeleza da minha opini\u00e3o, o contributo inestim\u00e1vel de Oleg\u00e1rio Bettencourt.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois deste relamb\u00f3rio, talvez excessivo, cumpre saudar, felicitar, abra\u00e7ar e agradecer ao cidad\u00e3o, ao amigo e ao escritor Ant\u00f3nio Tavares, por nos ter apresentado esta fant\u00e1stica personagem que interpela a nossa ess\u00eancia, com a min\u00facia e criatividade liter\u00e1rias que todos lhe reconhecem. \u00c9 um aut\u00eantico servi\u00e7o p\u00fablico que, tamb\u00e9m deste modo, ele presta \u00e0 cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis!<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Texto redigido e lido pelo autor, a 19 de mar\u00e7o 2025 no Audit\u00f3rio Madalena Perdig\u00e3o, na apresenta\u00e7\u00e3o e lan\u00e7amento do livro de cr\u00f3nicas de Oleg\u00e1rio Bettencourt (Ant\u00f3nio Tavares).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>*Figueirense ausente, mas sempre com interesse e esperan\u00e7a numa terra progressiva, serena, promotora da cidadania e ancorada na liberdade.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Pedro Melo Biscaia*fotografia por David Fadul Como manda o protocolo, come\u00e7o por agradecer, penhoradamente, ao autor destas cr\u00f3nicas, Oleg\u00e1rio Bettencourt, l\u00eddimo representante da arte de observar, refletir e dar vida a certas e determinadas palavras, que alguns dizem guardar no limbo temeroso que existe mesmo por baixo da l\u00edngua, mas sem que, alguma vez, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1190,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"saved_in_kubio":false,"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-1189","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-passarola"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1189","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1189"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1189\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1191,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1189\/revisions\/1191"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1190"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1189"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1189"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1189"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}