{"id":1201,"date":"2025-06-04T09:10:41","date_gmt":"2025-06-04T09:10:41","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1201"},"modified":"2025-06-30T08:53:02","modified_gmt":"2025-06-30T08:53:02","slug":"memoria-historia-candido-costa-pinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1201","title":{"rendered":"mem\u00f3ria hist\u00f3rica &#8211; C\u00e2ndido Costa Pinto"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left has-large-font-size\"><strong>Salvador Daqui e \u201cum homem complicado\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>por<strong> Fernando Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>C\u00e2ndido Costa Pinto \u00e9 o caso exemplar do artista cuja relev\u00e2ncia e influ\u00eancia, na pintura e nas artes gr\u00e1ficas, tem sido incompreensivelmente diminu\u00edda ou relativizada. A modesta fama de que desfruta deve-se sobretudo \u00e0s capas que desenhou para a Colec\u00e7\u00e3o Vampiro, da editora Livros do Brasil, cujos originais ainda s\u00e3o disputados como tesourinhos nas leiloeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>A import\u00e2ncia de um artista afere-se, no entanto, pela quantidade e qualidade de novos signos (conceitos) que introduz no l\u00e9xico da arte do seu tempo. Neste sentido, C\u00e2ndido Costa Pinto foi um dos mais not\u00e1veis e influentes artistas portugueses do s\u00e9culo vinte. Todavia e apesar de, entre especialistas e entendidos, isto ser pac\u00edfico, o facto de ter sido um artista inquieto e dif\u00edcil de catalogar e, confessadamente, \u201cum homem complicado\u201d, tem contribu\u00eddo, juntamente com a conhecida tradi\u00e7\u00e3o portuguesa de incensar mediocridades, para adiar o merecido reconhecimento p\u00fablico que a relev\u00e2ncia do seu contributo para a linguagem da arte em Portugal justifica (este g\u00e9nero de coisas n\u00e3o \u00e9 contudo muito incomum na hist\u00f3ria da arte: Rembrandt, por exemplo, s\u00f3 foi \u201cdescoberto\u201d no s\u00e9culo dezanove e Caravaggio apenas no fim da segunda guerra).<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m de pintor, caricaturista, ilustrador de imprensa e publicista, foi tamb\u00e9m produtor e realizador de cinema documental (foi num document\u00e1rio seu que Carlos Paredes se estreou como compositor de bandas sonoras para o cinema); e tamb\u00e9m escreveu textos te\u00f3ricos e reflex\u00f5es cr\u00edticas como \u201c<em>Fun\u00e7\u00e3o da arte, do design e da comunica\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d, \u201c<em>Surrealismo, arte e pol\u00edtica<\/em>\u201d e ensaios sobre o \u201c<em>Complexo Conceptual<\/em>\u201d, sobre o \u201c<em>Biomorfismo<\/em>\u201d ou sobre as t\u00e9cnicas a \u00f3leo produzidas pelos pintores flamengos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1995, a Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian promoveu uma retrospectiva da sua obra que n\u00e3o chegou todavia para o arrancar de um injusto esquecimento, que ficou bem ilustrado pelo facto de, em 2011, o centen\u00e1rio do seu nascimento ter passado despercebido &#8211; at\u00e9, incompreensivelmente, na sua terra natal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>C\u00e2ndido da Costa Pinto<\/strong> nasceu na Figueira da Foz em 20 de Maio de 1911 e foi um artista precoce: a sua inicia\u00e7\u00e3o fez-se no <em>atelier<\/em> do pai, que se dedicava \u00e0s artes decorativas. Com doze anos publicou o primeiro trabalho, uma caricatura, num jornal regional. Em 1931, fundou em Coimbra, onde estudava, o <em>Grupo dos Divergentes<\/em>, onde pontificavam nomes como Arlindo Vicente e o futuro arquitecto Alberto Pessoa, em atitude de desafio contra a est\u00e9tica <em>presencista<\/em>. Aos dezoito anos contraiu a tuberculose e passou os dez anos seguintes entre sanat\u00f3rios. Segundo mais tarde contou, salvou-o a \u00abmagia da arte\u00bb \u2013 os s\u00edmbolos das v\u00e1rias religi\u00f5es do mundo gravados num colete de zinco e cobre comprado a um refugiado polaco. Esta ter\u00e1 sido a primeira manifesta\u00e7\u00e3o do pendor m\u00edstico de um singular e estranho pintor surrealista que investigava o segredo da pintura flamenga e se auto-retratava com s\u00edmbolos bizarros.&nbsp; No in\u00edcio dos anos quarenta, instalou-se em Lisboa. J\u00e1 nesta altura estava pr\u00f3ximo do surrealismo, corrente em que se inserem os seus quadros mais conhecidos, como <em>Mulher da \u00e9poca <\/em>(1941) e <em>Aurora hiante<\/em> (1942). Estes revelam alguma influ\u00eancia de Salvador Dal\u00ed, que n\u00e3o deve ter escapado aos mais atentos, j\u00e1 que, segundo se conta, os funcion\u00e1rios da Livros do Brasil lhe chamavam <em>Salvador Daqui<\/em>. A par da pintura, trabalhou como <em>designer<\/em> gr\u00e1fico sucessivamente para a Companhia Portuguesa de Higiene e para os CTT e ainda como <em>freelancer<\/em>, tendo produzido cartazes, selos, ilustra\u00e7\u00f5es e capas de livros e caricaturas (\u00e9 sua a \u00faltima caricatura de Salazar <em>autorizada<\/em> pelo regime, em 1941).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1947 foi a Paris, onde conheceu Breton e o seu c\u00edrculo, assinou o manifesto \u201c<em>Rupture inaugurale<\/em>\u201d<em>,<\/em> projectando participar na exposi\u00e7\u00e3o \u201c<em>Le Surr\u00e9alisme<\/em>\u201d em 1947 e, muito embora o seu nome conste do cat\u00e1logo, Breton acabou por n\u00e3o exp\u00f4r o seu quadro. Este acontecimento e discrep\u00e2ncias de atitude e de entendimento do Surrealismo acabariam por originar uma grande desilus\u00e3o perante o grupo franc\u00eas. No entanto, voltou a Lisboa encarregue por Breton de formar um grupo surrealista em Portugal. Reuniu e liderou o chamado <em>Grupo Surrealista de Lisboa<\/em>, de que faziam ainda parte M\u00e1rio Cesariny, Alexandre O\u2019Neill, Ant\u00f3nio Pedro, Ant\u00f3nio Dacosta e Vespeira, entre outros, mas foi expulso ainda antes da primeira exposi\u00e7\u00e3o do grupo em 1949, por aceitar exp\u00f4r em espa\u00e7os associados ao regime, atitude que por raz\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o podia ser aceite pelos seus colegas. Em 1951 participou na primeira Bienal da Arte de S. Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Surrealismo de Costa Pinto \u00e9 fortemente influenciado pelo academismo figurativo de Dal\u00ed, em cenas narrativas de marcada dimens\u00e3o aleg\u00f3rica ou de acumula\u00e7\u00e3o fragment\u00e1ria de cita\u00e7\u00f5es devedoras tamb\u00e9m de Bosch. Este trabalho conviver\u00e1, a partir de 1945, com uma vertente abstracta que se tornar\u00e1 preponderante na sua obra.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1962, j\u00e1 com 52 anos, incompreendido e desiludido pelo ambiente art\u00edstico portugu\u00eas, emigrou para o Brasil, onde acabou por falecer a 28 de Maio de 1976.<\/p>\n\n\n\n<p>O Museu Municipal Dr. Santos Rocha possui uma assinal\u00e1vel colec\u00e7\u00e3o de obras de C\u00e2ndido Costa Pinto (muitas provenientes de um acervo doado pela sua vi\u00fava). Entre estas obras consta a primeira, ou uma das primeiras, pinturas abstractas da pintura portuguesa. Data de 1945 e chama-se \u201cIn\u00edcio\u201d. Houve um tempo em que esteve em exposi\u00e7\u00e3o permanente, como merece, ao lado de outras obras importantes de artistas figueirenses (como <em>o Latoeiro<\/em>, de M\u00e1rio Augusto, por exemplo). Se quereis saber porque deixou de estar, ide ao Museu e perguntai porqu\u00ea. Podeis dizer que ides daqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ao alto, \u00e0 esquerda: <em>In\u00edcio\/Introdu\u00e7\u00e3o <\/em>(1945), \u00f3leo sobre madeira, 25,5x37cm, Museu Municipal Dr. Santos Rocha.<br>Ao alto, \u00e0 direita: <em>Auto-caricatura<\/em> (1938), desenho a carv\u00e3o, 29,5&#215;22,5cm, Museu Municipal Dr. Santos Rocha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salvador Daqui e \u201cum homem complicado\u201d por Fernando Campos C\u00e2ndido Costa Pinto \u00e9 o caso exemplar do artista cuja relev\u00e2ncia e influ\u00eancia, na pintura e nas artes gr\u00e1ficas, tem sido incompreensivelmente diminu\u00edda ou relativizada. A modesta fama de que desfruta deve-se sobretudo \u00e0s capas que desenhou para a Colec\u00e7\u00e3o Vampiro, da editora Livros do Brasil, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1202,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"saved_in_kubio":false,"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-1201","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-passarola"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1201"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1249,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1201\/revisions\/1249"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1202"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}