{"id":1214,"date":"2025-06-13T09:14:34","date_gmt":"2025-06-13T09:14:34","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1214"},"modified":"2025-06-13T09:14:34","modified_gmt":"2025-06-13T09:14:34","slug":"joaquim-namorado-o-poeta-que-incomoda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1214","title":{"rendered":"Joaquim Namorado, o poeta que incomoda"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Fernando Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Conheci fugazmente, nas mesas do caf\u00e9 Nau (por volta de 1985) o poeta Joaquim Namorado, que viria a falecer um ano mais tarde. A impress\u00e3o que dele me ficou foi a de um homem duro, de temperamento r\u00edspido e car\u00e1cter inflex\u00edvel, explicados talvez por uma vida cheia de persegui\u00e7\u00f5es, por uma fort\u00edssima convic\u00e7\u00e3o comunista e obviamente por uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias matem\u00e1ticas. As suas impress\u00f5es eram exactas, precisas \u2013 matem\u00e1ticas. Achava que 2+2 s\u00e3o 4, na eira ou no nabal, aqui e nos mares do sul; sobre estes chegou mesmo a escrever uma fulgurante e certeira elegia de um s\u00f3 verso: \u201cEu n\u00e3o fui l\u00e1&#8230;\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de um poeta cuja relev\u00e2ncia intelectual e est\u00e9tica (dirigiu durante anos a revista V\u00e9rtice e foi ele que cunhou uma das correntes liter\u00e1rias dominantes no s\u00e9culo vinte portugu\u00eas) \u00e9 t\u00e3o inilud\u00edvel como o seu testemunho de cidadania. Autor da \u201c<strong>incomodidade\u201d<\/strong>e de \u201c<strong><em>Aviso \u00e0 navega\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>\u201d, empenhado politicamente (at\u00e9 \u00e0 milit\u00e2ncia), tamb\u00e9m foi capaz <em>da conten\u00e7\u00e3o, da ironia profunda, da inven\u00e7\u00e3o e do arrojo formal <\/em>de \u201c<strong><em>Viagem ao pa\u00eds dos nefelibatas<\/em><\/strong>\u201d. Em 2014, ano do seu centen\u00e1rio, os Correios de Portugal dedicaram-lhe um selo integrado numa nova s\u00e9rie dedicada a <em>\u201cvultos da hist\u00f3ria e da cultura\u201d<\/em>. No mesmo ano, a Biblioteca Municipal da Figueira da Foz perdeu o esp\u00f3lio que o poeta lhe havia oferecido porque os familiares se fartaram de ver o nome e o legado deste continuamente enxovalhados pela C\u00e2mara Municipal.<\/p>\n\n\n\n<p>Era um poeta que n\u00e3o cultivava a <em>est\u00e9tica<\/em> <em>de pl\u00e1stico <\/em>e um cidad\u00e3o que n\u00e3o contemporizava com a <em>\u00e9tica<\/em><em> <\/em><em>de el\u00e1stico<\/em><em>; a<\/em>bominava o lirismo canalha e o <em>sacanismo <\/em>pragm\u00e1tico; desprezava os frouxos, os velhacos e os <em>videirinhos &#8211; tudo qualidades que, infelizmente, \u00e9 frequente encontrar na mesma pessoa.<\/em> Era um <em>chato<\/em> cuja <em>atitude<\/em> sobressaltava a mediocridade dos <em>instaladinhos<\/em> na vida e ainda lhes desperta um rancor vingativo implac\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, na Biblioteca P\u00fablica Municipal da cidade que chegou a ter um pr\u00e9mio liter\u00e1rio com o seu nome, que o inenarr\u00e1vel Santana Lopes \u201cdescontinuou\u201d <em>&#8211; <\/em>a mesma cidade onde o poeta se fixou, fundou um jornal, foi eleito \u00e0 assembleia municipal e residiu at\u00e9 \u00e0 morte &#8211; \u00e9 imposs\u00edvel achar uma \u00fanica refer\u00eancia ou obra dispon\u00edvel do autor de <strong><em>A virgem metaf\u00edsica<\/em><\/strong>, que diz assim: <strong><em>tinha os olhos tortos como um sofisma \/ morreu engasgada com dois racioc\u00ednios seguidos.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas o rancor dos frouxos, dos velhacos e dos videirinhos \u00e9 implac\u00e1vel; e na Figueira da Foz o enxovalho da dec\u00eancia, mais do que um desporto, \u00e9 <em>cultura municipal<\/em>. Em 2025, a 12 de Junho, a C\u00e2mara Municipal, na pessoa do seu presidente, o inacredit\u00e1vel Santana Lopes, decidiu \u201chomenage\u00e1-lo\u201d com uma rotunda com o seu nome. O local foi escolhido cir\u00fargica e estrategicamente: fica no fim (ou no pr\u00ednc\u00edpio) da Avenida M\u00e1rio Soares, entre um supermercado e uma igreja evang\u00e9lica. Exactamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ainda h\u00e1 mais, que o enxovalho total n\u00e3o se concretiza realmente sem o cinismo mal\u00e9volo e retorcido, ou um lampejo refinado de estupidez natural, de um acto de contri\u00e7\u00e3o em <em>dois racioc\u00ednios seguidos<\/em>: segundo o jornal \u201cCampe\u00e3o das prov\u00edncias\u201d, <em>\u201cDurante a cerim\u00f3nia, o presidente da autarquia figueirense, Pedro Santana Lopes, recordou o antigo Pr\u00e9mio do Conto Joaquim Namorado, criado em 1983 por iniciativa do jornal Barca Nova e promovido pela C\u00e2mara Municipal. O concurso, entretanto descontinuado, foi substitu\u00eddo durante um dos mandatos anteriores do pr\u00f3prio autarca. \u00abFoi uma reac\u00e7\u00e3o inadequada, reconhe\u00e7o hoje. Deveria ter continuado com o nome de Joaquim Namorado\u00bb, admitiu Santana Lopes, classificando a atribui\u00e7\u00e3o do nome \u00e0 rotunda como \u00abum acto de justi\u00e7a, embora tardio\u00bb\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Pobre Joaquim Namorado, como diria Frank Zappa, \u201c<em>the torture never stops<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O <em>retrato<\/em> do poeta foi editado a 31 de Mar\u00e7o de 2014, no blogue \u201dos\u00edtiodosdesenhos\u201d. No mesmo ano foi capa do livro \u201cJoaquim Namorado &#8211; Her\u00f3i do neo-realismo m\u00e1gico\u201d, de Jaime Alberto de Couto Ferreira, pela editora L\u00e1pis de Mem\u00f3rias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Fernando Campos Conheci fugazmente, nas mesas do caf\u00e9 Nau (por volta de 1985) o poeta Joaquim Namorado, que viria a falecer um ano mais tarde. 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