{"id":1241,"date":"2025-06-30T08:38:49","date_gmt":"2025-06-30T08:38:49","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1241"},"modified":"2025-06-30T09:13:16","modified_gmt":"2025-06-30T09:13:16","slug":"memoria-historica-afonso-costa-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1241","title":{"rendered":"mem\u00f3ria hist\u00f3rica &#8211; Afonso Costa Cruz"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Fernando Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>Breve evoca\u00e7\u00e3o de Afonso Cruz<\/strong><br><strong>&#8211; seguida de algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a <em>estrat\u00e9gia do obl\u00edvio a prop\u00f3sito do seu legado<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Afonso Cruz foi um fot\u00f3grafo que teve um <em>studio<\/em> aberto por mais de quatro d\u00e9cadas na rua C\u00e2ndido dos Reis, na Figueira da Foz. Foi pioneiro da fotografia a\u00e9rea em Portugal, autor das primeiras vistas a\u00e9reas da Figueira (1930-32) e de um portef\u00f3lio impressionante de mais de meio s\u00e9culo de actividade intensa e elevada qualidade art\u00edstica que \u00e9 um valioso patrim\u00f3nio da hist\u00f3ria da cidade e um indispens\u00e1vel testemunho do seu mundo do trabalho, da sua geografia f\u00edsica e diversidade humana. Afilhado de Afonso Costa, tamb\u00e9m foi um cidad\u00e3o atento, democrata e anti-fascista, fez a campanha de Humberto Delgado, foi <em>correio clandestino<\/em> e esteve preso tr\u00eas vezes pela PIDE.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de ter merecido do Munic\u00edpio a Medalha&nbsp; de Prata (de M\u00e9rito) por <em>Servi\u00e7os Prestados \u00e0 Comunidade<\/em> e de o CAE ter honrado com o seu nome uma saleta de exposi\u00e7\u00f5es dedicada \u00e0 fotografia, n\u00e3o logramos achar na net qualquer foto sua ou de sua autoria e apenas uma refer\u00eancia ao seu nome e actividade: o seu verbete do <em>Arquivo Fotogr\u00e1fico Municipal, <\/em>que n\u00e3o regista nem a data do seu nascimento nem refere a da sua morte. Hoje \u00e9 conhecido como <em>o av\u00f4<\/em> do conhecido escritor com o mesmo nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Novembro de 1987, o Museu Municipal, a quem posteriormente haveria de legar o valioso esp\u00f3lio, fez uma <em>Exposi\u00e7\u00e3o Comemorativa <\/em>da sua obra. Do cat\u00e1logo, reproduzimos o registo, em folha dactilografada apensa, das 68 fotos que testemunham a abrang\u00eancia do seu trabalho, uma foto sua dos tempos da avia\u00e7\u00e3o, e a transcri\u00e7\u00e3o da sua biografia, em datas, factos e cifras, que nela fez quest\u00e3o de incluir.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"659\" src=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/catalogo-ACruz_dir_peq-1024x659.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1243\" srcset=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/catalogo-ACruz_dir_peq-1024x659.png 1024w, https:\/\/odezanovedejunho.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/catalogo-ACruz_dir_peq-300x193.png 300w, https:\/\/odezanovedejunho.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/catalogo-ACruz_dir_peq-768x494.png 768w, https:\/\/odezanovedejunho.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/catalogo-ACruz_dir_peq.png 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>4 de Mar\u00e7o de 1911<\/strong><br>Nasce na Figueira da Foz, Afonso Costa Cruz filho de Manuel Roberto da Cruz, armador, e de Guilhermina Amaral Cruz, dom\u00e9stica.<br><strong>De 1918 a 1923<\/strong><br>Instru\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria<br><strong>1923<\/strong><br>In\u00edcio \u00e0 aprendizagem fotogr\u00e1fica na Foto-Europa sita na Rua dos Banhos, e frequ\u00eancia do curso nocturno da Escola Comercial.<br><strong>1925<\/strong><br>Continua\u00e7\u00e3o da aprendizagem fotogr\u00e1fica na Casa Joaquim Pereira Monteiro, onde \u00e9 hoje O Livro, dirigida por tr\u00eas grandes artistas: Joaquim Pereira Monteiro (propriet\u00e1rio), Daniel Silva, Ant\u00f3nio Pedrosa.<br><strong>1930 a 1932<\/strong><br>Servi\u00e7o Militar na For\u00e7a A\u00e9rea. Especialidade de Fotografia A\u00e9rea. <br>1.\u00ba Cabo no G.E.A.R. \u2013 Grupo de Esquadrilhas de Avia\u00e7\u00e3o Rep\u00fablica \u2013 na Amadora e na OTA.<br>Primeiras fotografias a\u00e9reas da Figueira da Foz e de Buarcos, tendo como piloto do avi\u00e3o, o seu irm\u00e3o, oficial aviador, Humberto Cruz e o 1.\u00ba Sargento Runa, primeiro especialista em Fotografia A\u00e9rea e instrutor militar de Afonso Costa Cruz.<br><strong>1933<\/strong><br>Regresso \u00e0 Figueira da Foz.<br>Emprega-se na Foto Armer, onde \u00e9 hoje a Pop-Gel.<br><strong>1934<\/strong><br>Trabalhos fotogr\u00e1ficos na Casa Havaneza.<br><strong>1935-1942<\/strong><br>Trabalhou na Fotografia Verus, na Esplanada Silva Guimar\u00e3es.<br>Trabalhou na Foto Verus, na Rua C\u00e2ndido dos Reis.<br><strong>1942-1944<\/strong><br>Casa com D.\u00aa Maria Rosa Ver\u00edssimo.<br>Mobilizado para os A\u00e7ores, como Sargento-Ajudante e chefe da Sec\u00e7\u00e3o Fotogr\u00e1fica na Base N.\u00ba4 \u2013 Rabo de Peixe.<br>Conhece Humberto Delgado.<br>Nasce o primeiro filho, Carlos.<br>Desmobilizado, regressa \u00e0 Figueira da Foz.<br>Nasce o segundo filho, Paulo.<br><strong>1944-1945<\/strong><br>Cria o estabelecimento \u201cStudio Fotogr\u00e1fico Cruz\u201d, na Rua C\u00e2ndido dos Reis, onde ainda est\u00e1.<br><strong>1949-1953<\/strong><br>Rein\u00edcio da actividade art\u00edstica.<br>2.\u00aa Fase da Fotografia A\u00e9rea da Figueira da Foz, temas sobre o trabalho, geografia f\u00edsica e humana.<br>In\u00edcio da inscri\u00e7\u00e3o em concursos fotogr\u00e1ficos.<br>Ser\u00e3o mais de 100 \u201csal\u00f5es fotogr\u00e1ficos\u201d a que concorre.<br><strong>1954-1956<\/strong><br>\u201cStudio Cruz\u201d, transforma-se num dos centros da cavaqueira figueirense.<br>Afonso Costa Cruz, correio clandestino.<br>Preso pela P.I.D.E.<br><strong>1958<\/strong><br>Campanha do General Humberto Delgado.<br>Fotografias da campanha apreendidas pela P.I.D.E.<br><strong>1959-1984<\/strong><br>Continua\u00e7\u00e3o da sua actividade art\u00edstica e comercial.<br><strong>1985-1986<\/strong><br>\u00daltima fotografia a\u00e9rea \u201cPonte Nova, Parte Velha\u201d.<br>Figueira a cores, \u201c<strong>No tempo do Centen\u00e1rio<\/strong>\u201d.<br><strong>800$00<\/strong><br>O \u00fanico rendimento auferido por Afonso Costa Cruz, como profissional, pago pelas entidades oficiais da Figueira da Foz. Neste caso, pago pelo seu amigo e ex-condisc\u00edpulo, e o \u00fanico que lhe reconheceu valor, Professor Carlos Cachulo e Costa, como Presidente da Comiss\u00e3o Municipal de Turismo.<br><strong>1987<\/strong><br>Outubro, por proposta do vereador do Pelouro da Cultura, senhor Ant\u00f3nio Augusto Menano, \u00e9-lhe atribu\u00edda a Medalha de Prata (M\u00e9rito) por Servi\u00e7os Prestados \u00e0 Comunidade.<br><strong>Novembro<\/strong>, Exposi\u00e7\u00e3o Comemorativa da sua Obra.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>O legado de Afonso Cruz e a estrat\u00e9gia do obl\u00edvio<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>O esp\u00f3lio que Afonso Cruz doou ao munic\u00edpio ainda em vida (por volta do in\u00edcio dos anos 90) nunca foi, por\u00e9m, estudado, catalogado, valorizado, editado e divulgado. Teve o mesmo fat\u00eddico destino que o de muitos outros; como o de Cristina Torres e o do seu esposo Albano Duque, por exemplo* que, por qualquer motivo que desconhe\u00e7o &#8211; falta de compet\u00eancias?, de or\u00e7amento?, de oportunidade?, de vontade pol\u00edtica? &#8211; jazem, desde que l\u00e1 entraram, no limbo do mais ign\u00f3bil esquecimento, depositados algures nos subterr\u00e2neos do Museu Municipal.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pelo obl\u00edvio n\u00e3o \u00e9, no entanto, apenas um fen\u00f3meno fortuito ou espor\u00e1dico. Tem sido des\u00edgnio pertinaz dos <em>Servi\u00e7os Culturais de <\/em>sucessivos executivos municipais. A pr\u00e1tica constante, voluntariosa e deliberada de <em>fazer nada<\/em> n\u00e3o deixa de ser em si mesma, \u00e0 sua maneira, um <em>fen\u00f3meno cultural<\/em> &#8211; na medida em que se tornou um h\u00e1bito entranhado, um <em>costume &#8211;<\/em> bastamente eloquente e sintomaticamente revelador das idiossincrasias mentais de sucessivos decisores da pol\u00edtica cultural municipal.<\/p>\n\n\n\n<p>O actual presidente do munic\u00edpio, por exemplo, o primeiro e \u00faltimo respons\u00e1vel por esta <em>op\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica<\/em> continuada &#8211; ele acumula as fun\u00e7\u00f5es de vereador da Cultura, que tutela os <em>servi\u00e7os culturais &#8211;<\/em> manifestou recentemente um veemente protesto contra a discuss\u00e3o sobre o legado do colonialismo e, logo a seguir, um ufan\u00edssimo, algo ser\u00f4dio, irredut\u00edvel e mui perempt\u00f3rio orgulho da \u201cnossa Hist\u00f3ria\u201d e do acervo do \u201cnosso museu\u201d, numa atitude que parece subscrever aquela <em>v\u00e3 filosofia<\/em> que concebe a Hist\u00f3ria como um objecto de culto e o Museu como um armaz\u00e9m dos artefactos dessa devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o actual autarca da Figueira a Hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 algo que se discuta nem o Museu o local apropriado para esse prop\u00f3sito; \u00e9 natural por isso que qualquer esp\u00f3lio depositado no acervo deste n\u00e3o seja nunca tratado como mem\u00f3ria viva, mas sempre como <em>arquivo-morto<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Este <em>spleen,<\/em> ampla e alegremente sufragado (por omiss\u00e3o ou <em>predisposi\u00e7\u00e3o natural <\/em>de grande n\u00famero de consci\u00eancias) aliado ao h\u00e1bito arraigado de se n\u00e3o pensar demasiado, conforma o que algu\u00e9m chamou<em> zeitgeist, o esp\u00edrito do tempo \u2013 <\/em>uma <em>aragem conceptual <\/em>t\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0 amn\u00e9sia volunt\u00e1ria e \u00e0 rever\u00eancia apalermada que o alto-patroc\u00ednio municipal da estupidifica\u00e7\u00e3o pelo entretenimento (o alegre financiamento do <em>pimba <\/em>em aut\u00eanticas missas campais de <em>entrada livre<\/em>), olimpicamente justificado pelo edil como <em>\u201cdespesa de investimento\u201d<\/em> na <em>\u201cauto-estima e alegria das gentes<\/em>\u201d que at\u00e9 \u201c<em>faz crescer o PIB<\/em>\u201d e tudo &#8211; n\u00e3o\u00a0 suscitou sequer uma \u00fanica gargalhada. O que talvez afinal tamb\u00e9m explique o actual <em>estado da arte<\/em> e da cultura na Figueira da Foz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">*<em>o esp\u00f3lio de Joaquim Namorado foi a \u00fanica excep\u00e7\u00e3o a esta \u201cestrat\u00e9gia do obl\u00edvio\u201d. Foi resgatado a tempo pela fam\u00edlia do poeta e confiado ao Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, onde foi estudado e catalogado e est\u00e1 desde ent\u00e3o acess\u00edvel ao p\u00fablico.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Fernando Campos Breve evoca\u00e7\u00e3o de Afonso Cruz&#8211; seguida de algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a estrat\u00e9gia do obl\u00edvio a prop\u00f3sito do seu legado Afonso Cruz foi um fot\u00f3grafo que teve um studio aberto por mais de quatro d\u00e9cadas na rua C\u00e2ndido dos Reis, na Figueira da Foz. 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