{"id":1255,"date":"2025-07-07T10:37:02","date_gmt":"2025-07-07T10:37:02","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1255"},"modified":"2025-07-07T10:37:02","modified_gmt":"2025-07-07T10:37:02","slug":"filinto-viana-1956-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1255","title":{"rendered":"Filinto Viana (1956-2025)"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Fernando Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A Figueira n\u00e3o sabe, mas est\u00e1 mais pobre. A verdade \u00e9 que nem suspeita nem se importa. \u00c9 essa, suponho, a bem-aventuran\u00e7a da imbecilidade: foi agraciada com a inconsci\u00eancia da sua pr\u00f3pria infelicidade. Quanto ao pintor Filinto Viana, est\u00e1 finalmente livre, aos sessenta e nove anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A pintura consiste em <strong>dar a<\/strong> <strong>ver; <\/strong>e a trag\u00e9dia de Filinto Viana foi ter nascido e vivido num s\u00edtio em que as pessoas nunca se aperceberam que por detr\u00e1s (ou <em>atrav\u00e9s<\/em> ou <em>para l\u00e1<\/em>) do que sempre lhes pareceu uma figura\u00e7\u00e3o pueril, <em>na\u00efve<\/em> e estereotipada estava o que Filinto realmente lhes quis <strong>dar a ver: <\/strong>a verdadeira pintura, pura e dura, cheia daquelas \u201cpetites sensations\u201d voluptuosas de que falava Cez\u00e1nne.<\/p>\n\n\n\n<p>Filinto Viana foi o mais dotado e original pintor que conheci em actividade na Figueira da Foz. Um Pintor de uma sensibilidade em carne viva e \u00e0 flor da pele; ele possu\u00eda (ou era possu\u00eddo por) um sentido da cor inato e um instinto da composi\u00e7\u00e3o surpreendente. Eu sei disto porque <strong>vi<\/strong>; partilhei com ele (tivemos ateliers cont\u00edguos) durante alguns anos o \u00faltimo piso de um edif\u00edcio na rua Maestro David de Sousa.<\/p>\n\n\n\n<p>O Filinto Viana era daqueles pintores que pensam Pintura desde que se levantam e sonham com ela at\u00e9 que se deitam. A sua rela\u00e7\u00e3o com esta arte era a tempo inteiro. Filinto viveu amancebado com a Pintura 24 horas ao dia, sem f\u00e9rias nem fins-de-semana. \u00c0s vezes, com os amigos, tinha desabafos: \u201cEstou farto dela. Tenho que parar,\u201d como se falasse de uma amante muito exigente\u2026 Mas nunca conseguia estar longe da confus\u00e3o do seu atelier mais do que umas horas.<\/p>\n\n\n\n<p>A confus\u00e3o, o caos, a desarruma\u00e7\u00e3o do seu atelier eram proverbiais entre quem o conheceu. Mas eram apenas o que o seu esp\u00edrito an\u00e1rquico de trabalhador incans\u00e1vel necessitavam para consumar uma imensa paix\u00e3o, sempre insaciada. Nunca o vi fazer um estudo ou desenho preparat\u00f3rio. Atacava cada novo quadro como um toureiro, ou um pugilista: de p\u00e9, investia e depois recuava, andava para tr\u00e1s e para diante, sem jamais o perder de vista, depois investia de novo uma e outra vez numa \u00e2nsia tensa e silenciosa de jogador de xadrez, at\u00e9 que por fim o abandonava exausto, encostado contra uma parede. Depois, mais tarde, acabava-o como um matem\u00e1tico: ao fim de muitas horas a observ\u00e1-lo pacientemente (de cima e de baixo, dos lados e por vezes at\u00e9 por tr\u00e1s) como se faz a um puzzle, n\u00e3o sei bem o que lhe fazia mas ouvia-o dizer de repente: \u201cFernando, j\u00e1 <em>resolvi<\/em> este\u201d. Eu acabava o que estava a fazer, limpava os meus pinc\u00e9is, (ele limitava-se a deixar os seus de molho) e \u00edamos beber um copo.&nbsp; Depois eu ia para casa e ele voltava ao atelier. Ia come\u00e7ar tudo outra vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, esta foi uma paix\u00e3o tardia e talvez por isso, mais madura, intensa e sem complexos. Quando Filinto descobriu a Pintura j\u00e1 passava dos trinta. Mas a paix\u00e3o foi m\u00fatua e os frutos dessa rela\u00e7\u00e3o tempestuosa s\u00e3o numerosos (ele foi um artista prol\u00edfico, torrencial) e essa foi a segunda trag\u00e9dia de Filinto: teve que os vender, por necessidade, a pre\u00e7os sempre regateados cinicamente at\u00e9 \u00e0 insignific\u00e2ncia, a uma gente que nunca viu neles mais do que o imagin\u00e1rio ing\u00e9nuo e sentimental que ela pr\u00f3pria exigia a um <em>pobre diabo de origem humilde e sem forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica<\/em> a quem, em pretensa atitude <em>mecen\u00e1tica<\/em>, pretendia \u201cajudar\u201d.&nbsp; Filinto sabia disto. V\u00e1rias vezes mo afian\u00e7ou tristemente: \u201c<em>Merdas bonitas<\/em>, Fernando; as pessoas s\u00f3 gostam de<em> merdas bonitas.<\/em>\u201d &#8211; \u201c<em>&#8230;e baratas, <\/em>Filinto<em>; merdas bonitas e baratas\u201d,<\/em> retrucava-lhe eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Filinto devolvia-lhes o cinismo, sempre \u201cao gosto do fregu\u00eas\u201d. Mas nunca se coibiu de lhe acrescentar generosamente, atrav\u00e9s dum instintivo e an\u00e1rquico m\u00e9todo e de um crit\u00e9rio colorista requintado, em camadas e camadas exuberantes de \u201cpetites sensations\u201d voluptuosas e surpreendentes, muito <em>para l\u00e1<\/em> do que eles jamais ser\u00e3o capazes de entender, a mais pura, intensa, madura, reflectida e sentida Pintura que alguma vez se fez na Figueira da Foz.<\/p>\n\n\n\n<p>Flaubert chamava burgu\u00eas a \u201c<em>quiconque pense baissement<\/em>\u201d. Filinto nunca chamava nomes a ningu\u00e9m. Mas ele tamb\u00e9m sabia, tinha disso perfeita consci\u00eancia, de que quem ficou na posse dos frutos do seu trabalho e imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o fazia, nem faz, a mais puta ideia do que tem em m\u00e3os. Porque a Grande Pintura, como a pura poesia, \u00e9 e ser\u00e1 sempre inacess\u00edvel a quem <em>pensa baixo<\/em>. Esta foi a sua terceira, e derradeira, trag\u00e9dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Fernando Campos A Figueira n\u00e3o sabe, mas est\u00e1 mais pobre. A verdade \u00e9 que nem suspeita nem se importa. \u00c9 essa, suponho, a bem-aventuran\u00e7a da imbecilidade: foi agraciada com a inconsci\u00eancia da sua pr\u00f3pria infelicidade. Quanto ao pintor Filinto Viana, est\u00e1 finalmente livre, aos sessenta e nove anos. 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