{"id":1266,"date":"2025-07-18T07:39:06","date_gmt":"2025-07-18T07:39:06","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1266"},"modified":"2025-07-18T07:53:06","modified_gmt":"2025-07-18T07:53:06","slug":"cinema-rosalie-1966-walerian-borowczyk","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1266","title":{"rendered":"Cinema: Rosalie (1966, Walerian Borowczyk)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>por <strong>Carolina Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem para mim duas categorias principais de contos de Guy de Maupassant: o sensorial e o balzaquiano. Todos eles abordam algum elemento da psique humana, de experi\u00eancias de vida ou da sociedade da \u00e9poca, todos t\u00eam m\u00faltiplas camadas e todos s\u00e3o admiravelmente v\u00edvidos; mas alguns s\u00e3o mais centrados nos efeitos de uma hist\u00f3ria nos cinco sentidos, e outros em funcionar como fragmentos de uma Com\u00e9dia Humana de finais do s\u00e9culo XIX. O conto <em>Rosalie Prudent<\/em>, publicado em 1886, pertence \u00e0 segunda categoria, e em 1966 foi adaptado pelo realizador polaco Walerian Borowczyk na curta-metragem <em>Rosalie<\/em>, que apresentamos aqui hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Borowczyk (1923-2006) foi uma figura <em>sui generis<\/em> &#8211; chegou a ser descrito por cr\u00edticos como \u201cum g\u00e9nio que por acaso tamb\u00e9m \u00e9 um porn\u00f3grafo\u201d, porque no meio de uma filmografia bem ecl\u00e9tica fez, por exemplo, um dos filmes da famosa Emmanuelle. Estudou pintura e come\u00e7ou por fazer p\u00f3steres de filmes na Pol\u00f3nia, e foi aclamado mas decidiu come\u00e7ar ele a fazer filmes. Inicialmente eram <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=E5BoTzjaGIU&amp;t=152s\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=E5BoTzjaGIU&amp;t=152s\">curtas de anima\u00e7\u00e3o surrealistas<\/a>, que mais tarde foram uma grande e abertamente declarada inspira\u00e7\u00e3o para a anima\u00e7\u00e3o de Terry Gilliam. Foi viver para Fran\u00e7a, envolveu-se levemente com a Nouvelle Vague (um filme, <em>Les Astronautes<\/em>, em colabora\u00e7\u00e3o com Chris Marker), e passou a fazer filmes l\u00e1. A sua primeira longa-metragem foi tamb\u00e9m o seu \u00faltimo filme de anima\u00e7\u00e3o, e os seus filmes seguintes, que lhe deram mais fama, juntam todas as influ\u00eancias do seu percurso: montagem inspirada na Nouvelle Vague, segmentos de anima\u00e7\u00e3o <em>stop-motion<\/em>, p\u00f3steres marcantes. Tudo isto pode ser visto em <em>Rosalie<\/em>, curta vencedora de um Urso de Prata no Festival de Berlim e um belo exemplo de como adaptar um conto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Rosalie Prudent<\/em> relata o testemunho de uma jovem no seu julgamento pelo crime de matar o seu pr\u00f3prio beb\u00e9 rec\u00e9m-nascido e o enterrar no jardim. O pai do beb\u00e9 foi um caso que durou dois meses, ela era criada duma fam\u00edlia rica e n\u00e3o podia deixar de trabalhar, e fez tudo para levar a cabo a gravidez sozinha \u2013 as roupinhas costuradas por ela para o beb\u00e9 eram o que confundia mais o j\u00fari \u2013 mas depois em vez de um beb\u00e9 nasceram dois, \u201clogo eu, que ganho vinte francos por m\u00eas\u201d diz ela. A narra\u00e7\u00e3o vai acompanhando os coment\u00e1rios de bancada dos patr\u00f5es de Rosalie e as reac\u00e7\u00f5es do j\u00fari, at\u00e9 chegar \u00e0 senten\u00e7a final. Borowczyk retira todas estas partes laterais na sua adapta\u00e7\u00e3o e reduz a hist\u00f3ria a um mon\u00f3logo, Rosalie (interpretada pela sua esposa e actriz principal de muitos dos seus filmes, Ligia Branice) a dar o seu testemunho directamente para a c\u00e2mara, complementado com cortes para objectos ligados ao caso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta escolha tem dois grandes efeitos: primeiro, torna-nos a n\u00f3s, que somos a c\u00e2mara, ju\u00edzes e j\u00fari do caso. Rosalie est\u00e1 a falar connosco, e n\u00f3s somos deixados sozinhos com ela e com as provas para decidir fazer ou n\u00e3o julgamentos morais; qualquer ferramenta liter\u00e1ria ou f\u00edlmica que pudesse ser usada para criar distanciamento (que ali\u00e1s Maupassant usava bastante mas n\u00e3o em <em>Rosalie Prudent<\/em>) aqui \u00e9 propositadamente removida. E segundo, s\u00e3o removidos tamb\u00e9m elementos que for\u00e7osamente localizariam a hist\u00f3ria no tempo. A sala do tribunal, as roupas de todos os que estariam \u00e0 volta de Rosalie, os seus coment\u00e1rios, n\u00e3o se v\u00ea nada. At\u00e9 a pr\u00f3pria Rosalie, vestida de branco num fundo branco, passa grande parte do filme como apenas uma cara. Menos distanciamento ainda: Rosalie est\u00e1 aqui, e agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os resultados est\u00e3o \u00e0 vista. No Letterboxd, uma \u201crede social para cin\u00e9filos\u201d onde se pode registar os filmes que se v\u00ea e opini\u00f5es sobre eles, os <em>posts<\/em> mais imediatamente vis\u00edveis sobre <em>Rosalie<\/em> consistem em pessoas a dizer o qu\u00e3o tocante e relevante acharam o filme tendo em conta pol\u00edticas reaccion\u00e1rias anti-aborto nos seus pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o surpreende Borowczyk ir buscar inspira\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura francesa \u2013 outros filmes dele foram baseados em Stendhal (<em>Interno di un convento<\/em>) e Prosper M\u00e9rim\u00e9e (<em>La B\u00eate<\/em>) \u2013 mas dada a sua reputa\u00e7\u00e3o, seria de pensar que das duas categorias de contos de Maupassant ele se inclinasse mais para o lado sensorial. Contudo, mesmo filmes mais merecedores dessa reputa\u00e7\u00e3o como <em>Interno di un convento<\/em> t\u00eam subtexto pol\u00edtico, anal\u00edtico, progressista. Antes de Maupassant, Balzac escreveu a Com\u00e9dia Humana com o prop\u00f3sito de reflectir as quest\u00f5es prementes da sociedade da primeira metade do s\u00e9culo XIX, incluindo e at\u00e9 especialmente as quest\u00f5es mais inconvenientes. Muitos contos de Maupassant, claramente influenciado por Balzac, fazem o mesmo para o final desse s\u00e9culo, que j\u00e1 era um tempo diferente. E muito depois, Walerian Borowczyk transp\u00f4s este conto para um tempo ainda mais diferente, n\u00e3o como um artefacto do passado mas como algo que ainda tinha relev\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m c\u00e1 em Portugal continua a ser um tema fracturante. Ainda h\u00e1 poucos meses, 18 anos depois do referendo que legalizou o aborto, o assunto voltou a ser abordado, em termos como \u201cpr\u00f3-vida\u201d e \u201c[cria\u00e7\u00e3o de uma] comiss\u00e3o e plano nacional de promo\u00e7\u00e3o do direito a nascer\u201d. V\u00eddeos claramente anti-aborto passam na televis\u00e3o financiados por um CEO-<em>influencer<\/em>. Falou-se momentaneamente de um novo referendo, para voltar atr\u00e1s claro. E a disparidade econ\u00f3mica cresce cada vez mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">140 anos depois de 1886, 60 anos depois de 1966, Rosalie ainda est\u00e1 aqui, e agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Rosalie (1966, Walerian Borowczyk). Clique em CC para obter legendas em portugu\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Carolina Campos Existem para mim duas categorias principais de contos de Guy de Maupassant: o sensorial e o balzaquiano. 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