{"id":1342,"date":"2025-08-10T08:49:20","date_gmt":"2025-08-10T08:49:20","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1342"},"modified":"2025-08-10T08:55:43","modified_gmt":"2025-08-10T08:55:43","slug":"encantar-pela-paz-joao-gentil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1342","title":{"rendered":"EnCantar pela Paz &#8211; Jo\u00e3o Gentil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\">Durante todo o m\u00eas de Agosto a Passarola est\u00e1 a editar uma s\u00e9rie de artigos e pequenas entrevistas para dar a conhecer os artistas que participam no evento <strong>EnCantar pela Paz<\/strong> que, produzido pel&#8217;<strong><u>Odezanovedejunho<\/u><\/strong> &#8211; <em>Associa\u00e7\u00e3o de Ideias<\/em>, decorrer\u00e1 de 3 a 27 de Setembro no Audit\u00f3rio Madalena Biscaia Perdig\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>Jo\u00e3o Gentil: o som inter-cultural da \u201cmelancolia luminosa\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O <strong>EnCantar pela Paz<\/strong> apresenta, no dia 24 de Setembro \u00e0s 21.30h, um grande concerto de <strong>Jo\u00e3o Gentil<\/strong>, um dos mais dotados e sofisticados m\u00fasicos nacionais, reconhecido renovador do seu instrumento &#8211; o acorde\u00e3o &#8211; ao qual tem restitu\u00eddo protagonismo e prest\u00edgio, resgatando-o do lugar triste ou coadjuvante a que foi sendo relegado nas cad\u00eancias convencionadas do nosso pseudo <em>folclore<\/em> <em>tradicional<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o Gentil nasceu em Cantanhede, em 1980. Foi professor de Acorde\u00e3o na Academia de M\u00fasica de An\u00e7\u00e3 e na Associa\u00e7\u00e3o Acad\u00e9mica de Coimbra. Desde 2014 \u00e9 Professor na Escola de Artes do Centro de Artes e Espect\u00e1culos da Figueira da Foz (CAE).<br>Em 2007 colaborou, como especialista em acorde\u00e3o, com a <em>Roland Corporation<\/em>, representando a <em>Roland Iberia<\/em> (Portugal e Espanha) no segmento V-Accordion, tendo sido convidado a participar como especialista de produto no <em>1st V-Accordion Camp<\/em> em Castelfidardo-Italia (2008) e no <em>2nd V-Accordion Camp<\/em> em Ascoli Piceno \u2013 Italia (2009). Colaborou como tal no aperfei\u00e7oamento do acorde\u00e3o digital, no modelo topo de gama da Roland V-Acordion &#8211; o FR 8xb.<br>Em 2009 iniciou o estudo do Bandone\u00f3n com o Prof. Julian Hasse, da Academia Nacional del Tango de Buenos Aires. Em 2011 aperfei\u00e7oou-se na escola de acorde\u00e3o CNIMA \u2013 Centre National et International de Musique et de l\u2019Accord\u00e9on, em Fran\u00e7a, com o professor e pedagogo de prest\u00edgio mundial Mr. Jacques Mornet.<br>Em 2014 frequentou masterclasses e workshops diversos com o c\u00e9lebre acordeonista franc\u00eas Richard Galliano. No mesmo ano gravou o seu primeiro disco, \u201cConLatinidade\u201d, na Argentina e Portugal com a participa\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos argentinos, portugueses e brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Conta com digress\u00f5es internacionais na Argentina (2010, 2011, 2012, 2014, 2015), no Brasil (2010 e 2012), na Col\u00f4mbia (2010), Espanha (2009), entre outras participa\u00e7\u00f5es em festivais como por exemplo na Noruega (Bergen), Irlanda (Athlone), It\u00e1lia (Pescara), Estados Unidos (Las Vegas), Marrocos (Mekn\u00e8s), Ilhas Can\u00e1rias (Santa Cruz de Tenerife), entre outros. <br>Durante o seu percurso j\u00e1 partilhou palcos e est\u00fadios de grava\u00e7\u00e3o com m\u00fasicos como Rui Veloso, Ux\u00eda (Galiza), Ant\u00f3nio Zambujo, Vitorino, Viviane, Brigada V\u00edctor Jara, Andr\u00e9 Sardet, Couple Coffee, In\u00eas Santos, JP Sim\u00f5es, Rog\u00e9rio Charraz, Luiz Caracol, Pens\u00e3o Flor &amp; Orquestra Cl\u00e1ssica do Centro, Gabi Buarque (Brasil), entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas <strong>Jo\u00e3o Gentil<\/strong> n\u00e3o \u00e9 apenas um m\u00fasico virtuoso, capaz de achar a Beleza \u201cno detalhe, na <em>nuance<\/em> e no sil\u00eancio entre as notas\u201d &#8211; tamb\u00e9m \u00e9 ex\u00edmio com as palavras, facto que se torna evidente na clara eloqu\u00eancia das respostas que deu a tr\u00eas perguntas simpl\u00f3rias da <strong>Passarola:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Jo\u00e3o, como \u00e9 ser um acordeonista em Portugal no s\u00e9culo XXI?<\/strong><br>&#8211; Para mim, \u00e9 um of\u00edcio de reinven\u00e7\u00e3o. O acorde\u00e3o, tantas vezes associado ao folclore ou ao tradicionalismo, carrega em si um universo de possibilidades emocionais e sonoras que transcendem fronteiras e \u00e9pocas. A minha miss\u00e3o tem sido precisamente esta: mostrar que o acorde\u00e3o pode sussurrar, chorar e dan\u00e7ar\u2014 ou seja, pode ser moderno, sentimental e at\u00e9 po\u00e9tico. Nunca me revi nas competi\u00e7\u00f5es e campeonatos para concorrer a campe\u00e3o do mundo do acorde\u00e3o. Para mim a m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 para medir quem toca mais r\u00e1pido. Eu considero que a m\u00fasica \u00e9 a arte de criar emo\u00e7\u00e3o no p\u00fablico e isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se o artista tiver paix\u00e3o verdadeira pelo que faz. No entanto, considero que os campeonatos de acorde\u00e3o foram criados para elevar a qualidade da execu\u00e7\u00e3o e do ensino do instrumento e acelerar a sua aceita\u00e7\u00e3o no mundo da m\u00fasica erudita e nos conservat\u00f3rios. Um pouco para se demarcar da sua \u00edndole popular e tradicional. Vi isso acontecer com a eleva\u00e7\u00e3o da qualidade da produ\u00e7\u00e3o de vinho, produto t\u00e3o caracter\u00edstico da zona onde nasci. Os concursos de melhor vinho elevaram a qualidade do produto e a motiva\u00e7\u00e3o dos produtores, e isso \u00e9 muito positivo. Com o acorde\u00e3o aconteceu o mesmo, tenho \u00e9 receio que os jovens esque\u00e7am que a m\u00fasica n\u00e3o se resume a exibir o passar dos dedos a alta velocidade. Costumo dizer o seguinte aos meus alunos de acorde\u00e3o: h\u00e1 2 defeitos que perseguem um acordeonista &#8211; 1\u00ba \u00e9 o querer tocar o mais forte poss\u00edvel e 2\u00ba \u00e9 o querer tocar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Tudo isso para exibir um certo virtuosismo. \u00c9 humano. Mas com a maturidade fui escolhendo outro caminho. Preocupo-me mais com as notas longas e suaves do que com as notas curtas e r\u00e1pidas. Actualmente, tocar acorde\u00e3o \u00e9, de certa forma, um acto de resist\u00eancia. Nunca houve muitos alunos interessados em aprender este instrumento. Por v\u00e1rias raz\u00f5es. Mas diria que tocar acorde\u00e3o para mim, actualmente, \u00e9 lembrar que h\u00e1 beleza no detalhe, na <em>nuance<\/em> e no sil\u00eancio entre notas.<br>Ao longo dos anos, tenho procurado mostrar que o acorde\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um instrumento de bot\u00f5es, mas sim como um instrumento de sopro ou at\u00e9 uma voz \u2014 e que essa voz pode ser t\u00e3o doce como uma brisa sobre a foz do Rio Mondego ou t\u00e3o intensa como um tango nas ruas de Buenos Aires.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Como escolhes as m\u00fasicas do teu repert\u00f3rio?<\/strong><br>&#8211; Escolho as m\u00fasicas como quem escolhe cartas para enviar ao mundo \u2014 cada uma com uma inten\u00e7\u00e3o, uma emo\u00e7\u00e3o, uma hist\u00f3ria para contar. Foi assim que gravei o meu primeiro disco \u201cConLatinidade\u201d. Cada m\u00fasica tinha uma hist\u00f3ria de viagens pelo mundo. O meu repert\u00f3rio nasce de uma escuta interior profunda: do que me move, do que me inquieta, do que me emociona. Sou profundamente influenciado pela m\u00fasica da Am\u00e9rica do Sul, em especial da Argentina, onde encontro uma melancolia luminosa que ressoa com a alma portuguesa. Durante mais de uma d\u00e9cada tive digress\u00f5es pela Argentina, onde pude conhecer bem a cultura e a gastronomia daquele pa\u00eds. Houve sempre uma melodia que me acompanhava nessas digress\u00f5es, fosse em palco, nas r\u00e1dios ou na televis\u00e3o argentina: a Can\u00e7\u00e3o da Figueira da Foz que foi imortalizada pela voz da Maria Clara. Ainda hoje \u00e9 das melodias que mais amo interpretar, com arranjos pr\u00f3prios que fiz inspirado por essas viagens. Gosto de misturar o cl\u00e1ssico com o popular, o erudito com o visceral. Cada pe\u00e7a que toco ou componho \u00e9 uma tentativa de criar pontes \u2014 entre continentes, entre culturas, entre cora\u00e7\u00f5es. Mas devo assumir que sou um incondicional apaixonado pela obra do grande compositor argentino Astor Piazzolla.<br><br>&#8211;<strong> Qual \u00e9 a tua rela\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico figueirense?<\/strong><br>&#8211; A Figueira da Foz \u00e9 mais do que um ponto geogr\u00e1fico para mim \u2014 \u00e9 uma parte da minha pr\u00f3pria pessoa. Foi aqui que ingressei, ap\u00f3s a minha inf\u00e2ncia na Su\u00ed\u00e7a, no conservat\u00f3rio de m\u00fasica e foi aqui que me reencontrei com o mar. Os meus pais sempre tiveram casa de f\u00e9rias na Figueira da Foz e fosse pelas f\u00e9rias de ver\u00e3o, fosse pela passagem pelo conservat\u00f3rio, a Figueira da Foz esteve sempre presente na minha vida. Talvez por isso, mais tarde, j\u00e1 adulto, tenha escolhido viver nesta cidade. Foi uma escolha por paix\u00e3o. Tenho outra actividade profissional al\u00e9m da actividade art\u00edstica. E, dessa outra actividade, resulta que nunca trabalhei na Figueira, por isso a minha escolha em viver c\u00e1 desde 2009 foi porque sempre amei esta cidade. Os meus amigos argentinos que por c\u00e1 passam sabem disso e em Buenos Aires, os meus amigos m\u00fasicos, em tom de brincadeira, come\u00e7aram a chamar \u00e0 minha casa na Figueira a Embaixada Cultural Argentina em Portugal\u2026<br>Tive oportunidade, ao longo dos anos, de me apresentar muitas vezes no CAE. Em nome pr\u00f3prio ou com outros projectos. De concertos de \u00edndole solid\u00e1ria a teatros musicais, dos jardins de inverno e de ver\u00e3o, enfim recordo que j\u00e1 toquei at\u00e9 na primeira parte do grupo The Gift com a sala completamente esgotada. Dou aulas de acorde\u00e3o tamb\u00e9m na Escola de Artes do CAE h\u00e1 algum tempo. Por isso, o p\u00fablico figueirense acompanha-me como quem acompanha um filho da casa: com carinho, com exig\u00eancia e espero que com algum orgulho em reciprocidade pelo orgulho que tamb\u00e9m sinto por ter escolhido viver aqui.<br>Sinto que h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o afectiva forte entre mim e a Figueira. Talvez porque as melodias que partilho tamb\u00e9m falam dela \u2014 da luz que reflecte nas \u00e1guas do Mondego, das mem\u00f3rias partilhadas, da saudade que todos sentimos. Tocar na minha terra \u00e9 sempre um acto de entrega, uma conversa, uma dan\u00e7a entre mim e cada ouvido atento e curioso para saber mais sobre este instrumento de bot\u00f5es e fole.<br>Nas primeiras viagens que fiz \u00e0 capital argentina fui estudar Bandon\u00e9on, o instrumento do tango celebrizado pelo Piazzolla. \u00c9 um instrumento da fam\u00edlia do acorde\u00e3o, mas apenas na apar\u00eancia. Isto \u00e9, tem bot\u00f5es dos dois lados e um fole no meio, mas o seu som e a sua alma s\u00e3o t\u00e3o distantes quanto o Oceano Atl\u00e2ntico que separa os nossos dois pa\u00edses. N\u00e3o tem grande express\u00e3o em Portugal, mas no in\u00edcio do s\u00e9culo passado, quando um marinheiro o ter\u00e1 levado para Buenos Aires, fez com que o Bandon\u00e9on viesse logo a ocupar o lugar cimeiro e protagonista no tango argentino. Nos meus concertos, fa\u00e7o quest\u00e3o de apresentar tamb\u00e9m ao p\u00fablico figueirense, esse instrumento t\u00e3o peculiar e raro em Portugal. E creio que estes interc\u00e2mbios culturais enriquecem o ser humano e a nossa sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante todo o m\u00eas de Agosto a Passarola est\u00e1 a editar uma s\u00e9rie de artigos e pequenas entrevistas para dar a conhecer os artistas que participam no evento EnCantar pela Paz que, produzido pel&#8217;Odezanovedejunho &#8211; Associa\u00e7\u00e3o de Ideias, decorrer\u00e1 de 3 a 27 de Setembro no Audit\u00f3rio Madalena Biscaia Perdig\u00e3o. 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