{"id":1352,"date":"2025-08-15T07:38:33","date_gmt":"2025-08-15T07:38:33","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1352"},"modified":"2025-08-15T07:49:13","modified_gmt":"2025-08-15T07:49:13","slug":"encantar-pela-paz-jose-luiz-iglesias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1352","title":{"rendered":"EnCantar pela Paz &#8211; Jos\u00e9 Luiz Igl\u00e9sias"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\">Durante todo o m\u00eas de Agosto a Passarola est\u00e1 a editar uma s\u00e9rie de artigos e pequenas entrevistas para dar a conhecer os artistas que participam no evento <strong>EnCantar pela Paz<\/strong> que, produzido pel&#8217;<strong><u>Odezanovedejunho<\/u><\/strong> &#8211; <em>Associa\u00e7\u00e3o de Ideias<\/em>, decorrer\u00e1 de 3 a 27 de Setembro no Audit\u00f3rio Madalena Biscaia Perdig\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>Jos\u00e9 Luiz Igl\u00e9sias: \u201co contexto actual tem vindo a reavivar a necessidade de uma arte mais cr\u00edtica e participativa\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jos\u00e9 Luiz Igl\u00e9sias<\/strong> nasceu em Coimbra e reside actualmente nos EUA, para onde emigrou h\u00e1 cerca de quarenta anos. Era, na altura, professor de disciplinas de Engenharia Mec\u00e2nica na Escola Secund\u00e1ria Bernardino Machado, na Figueira da Foz, e o tempo ainda sobrava para actividades como campanhas de \u201cReis\u201d (janeiras) em benef\u00edcio da CERCIFOZ, a pe\u00e7a de teatro <em>Ciclomimo \u2013 Exerc\u00edcios Combinados<\/em>, em co-autoria com o Ant\u00f3nio Dur\u00e3es na Ass. Naval 1\u00ba de Maio, e a <em>Expedi\u00e7\u00e3o Zero<\/em>, para al\u00e9m de ser\u00f5es musicais no Dona B\u00e1rbara e no DOX.<br>Antes disso, por\u00e9m, j\u00e1 tinha acompanhado Jos\u00e9 Afonso (com o qual gravou <em>Com as Minhas Tamanquinhas, A Luta Continua, Per Le Cooperative Agricole Portoghesi e Enquanto H\u00e1 For\u00e7a<\/em>), Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Vitorino e Janita Salom\u00e9, Pedro Barroso (com o qual gravou <em>Lutas Velhas, Canto Novo<\/em>) e Teresa Silva Carvalho (com a qual gravou <em>\u00d3 Rama, \u00d3 Que Linda Rama<\/em>). <br>Nos Estados Unidos estudou m\u00fasica na Rutgers University (Newark, NJ) e exerceu actividade musical em campos t\u00e3o diversos como \u00f3pera (Opera Onsite, New York, NY), m\u00fasica cl\u00e1ssica (Duo Les Deux), m\u00fasica tradicional portuguesa (Companhia das M\u00fasicas), Teatro (Teatro de Cordel), produ\u00e7\u00f5es musicais (<em>H\u00e1 Sempre um Mar<\/em> e <em>Viagens na Minha Terra<\/em>) e fado. <br>Jos\u00e9 Luiz Igl\u00e9sias, que tamb\u00e9m \u00e9 s\u00f3cio fundador d&#8217;<strong><u>Odezanovedejunho<\/u><\/strong>, prepara-se para dar tr\u00eas espect\u00e1culos na Figueira da Foz: a 10, 12 e 13 de Setembro, no \u00e2mbito do<strong> EnCantar pela Paz.<\/strong> Para este <em>tour de force <\/em>de tr\u00eas espect\u00e1culos not\u00e1veis, rodeou-se de m\u00fasicos experientes, em distintas parcerias.<br>A <strong>Passarola<\/strong> quis saber mais da prepara\u00e7\u00e3o destes tr\u00eas espect\u00e1culos, do seu vasto e diversificado repert\u00f3rio, se a <em>cantiga <\/em>ainda<em> \u00e9 uma arma<\/em> e do seu percurso nos Estados Unidos. E as suas respostas chegaram antes dele &#8211; na volta do correio, agora electr\u00f3nico &#8211; com a clareza de sempre. Ei-las:<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Z\u00e9, como \u00e9 a vida na Am\u00e9rica (e a vida de um portugu\u00eas m\u00fasico na Am\u00e9rica)?<\/strong><br>&#8211; Nos Estados Unidos, residi primeiramente em New Jersey. Quando fui impedido de subir a palco para acompanhar o Manuel Vargas em can\u00e7\u00f5es do Jos\u00e9 Afonso, sob o pretexto de cal\u00e7ar sapatilhas (!), percebi que, se queria aproveitar a minha estadia nos Estados Unidos e crescer como m\u00fasico, deveria estudar e ultrapassar as limita\u00e7\u00f5es da comunidade portuguesa. Fiz quase de tudo, desde constru\u00e7\u00e3o \u00e0 entrega de pizzas, passando por guarda-nocturno, ao mesmo tempo que estudava m\u00fasica na Rutgers University (Newark, NJ). Fundei escolas de m\u00fasica em diversas associa\u00e7\u00f5es portuguesas, em New Jersey e New York, compus para teatro, TV e \u00f3pera, criei espect\u00e1culos musicais e ensinei matem\u00e1tica em duas universidades.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <strong>Fala-nos da g\u00e9nese dos tr\u00eas distintos espect\u00e1culos (com as suas diferentes parcerias) que te preparas para oferecer ao p\u00fablico figueirense.<\/strong><br><strong>&#8211; <\/strong>Os espect\u00e1culos que vou fazer para o Odezanovedejunho (no EnCantar pela Paz) apresentam conte\u00fados muito diversos.<br><strong><em>\u201cFado &amp; Outras Can\u00e7\u00f5es Portuguesas\u201d<\/em><\/strong> (dia 10 de Setembro), com a participa\u00e7\u00e3o da <strong>F\u00e1tima Santos<\/strong> (voz), <strong>Leonel Lorador<\/strong> (guitarras cl\u00e1ssica e el\u00e9ctrica) e <strong>Jorge Igl\u00e9sias<\/strong> (contrabaixo), \u00e9 uma mistura de fado tradicional e contempor\u00e2neo, composi\u00e7\u00f5es minhas e can\u00e7\u00f5es de autores que muito estimo, como o Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco e o Fausto.<br><strong><em>\u201cLes Deux\u201d<\/em><\/strong> (dia 12) \u00e9 um duo de m\u00fasica para guitarra cl\u00e1ssica, com a participa\u00e7\u00e3o de <strong>Leonel Lorador<\/strong>, o qual interpreta desde autores cl\u00e1ssicos Latino-Americanos at\u00e9 aos Beatles.<br><strong><em>\u201cA persist\u00eancia do gesto\u201d<\/em><\/strong> (dia 13), com a participa\u00e7\u00e3o de <strong>F\u00e1tima Santos<\/strong>, \u00e9 um programa de m\u00fasica urbana, com obras de Jos\u00e9 Afonso, Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, Adriano Correia de Oliveira e Carlos Paredes, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <strong>Muito do teu repert\u00f3rio \u00e9 m\u00fasica de interven\u00e7\u00e3o, originalmente escrita e interpretada por grandes figuras de Abril, com alguns dos quais trabalhaste. Esta proximidade contribuiu para a escolha das m\u00fasicas?<\/strong><br>&#8211; Sem d\u00favida, a proximidade com grandes cantores de interven\u00e7\u00e3o teve um impacto profundo na constru\u00e7\u00e3o do meu repert\u00f3rio. Trabalhar com artistas cuja m\u00fasica esteve directamente ligada \u00e0 resist\u00eancia, \u00e0 luta pela liberdade e \u00e0 consci\u00eancia social permitiu-me n\u00e3o s\u00f3 conhecer de perto as suas obras, como tamb\u00e9m compreender o contexto, a urg\u00eancia e a emo\u00e7\u00e3o que lhes deram origem. Estas s\u00e3o, muito resumidamente, as raz\u00f5es que me levam, hoje e sempre, a interpretar <em>Traz Outro Amigo Tamb\u00e9m<\/em> (Jos\u00e9 Afonso) ou <em>Abandono<\/em> (David Mour\u00e3o-Ferreira\/Alain Oulman).<br><br>&#8211; <strong>E consideras que ainda t\u00eam poder de interven\u00e7\u00e3o hoje em dia?<\/strong><br>&#8211; O canto de interven\u00e7\u00e3o, embora menos presente do que em tempos passados, continua a ter poder em Portugal nos dias de hoje \u2014 ainda que esse poder se manifeste de forma diferente da que teve durante a ditadura ou no per\u00edodo revolucion\u00e1rio que se seguiu ao 25 de Abril de 1974.<br>Durante o regime fascista, a liberdade de express\u00e3o era severamente limitada. Nesse contexto, o canto de interven\u00e7\u00e3o surgiu como forma de resist\u00eancia frequentemente dissimulada. Utilizando met\u00e1foras, s\u00edmbolos e, por vezes, uma linguagem herm\u00e9tica, os autores criticavam a repress\u00e3o pol\u00edtica, a guerra colonial e a mis\u00e9ria s\u00f3cio-econ\u00f3mica. \u00c0 laia de exemplos, Jos\u00e9 Afonso criava o <em>O Cavaleiro e o Anjo<\/em> (1968) e Adriano Correia de Oliveira dava voz a <em>E Alegre Se Fez Triste<\/em> (1971).<br>Com o 25 de Abril, surgiram composi\u00e7\u00f5es abertamente revolucion\u00e1rias, apelando \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa, democr\u00e1tica e solid\u00e1ria. A can\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o era agora uma ferramenta de participa\u00e7\u00e3o activa na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. <em>A Cantiga \u00c9 Uma Arma<\/em> (1975), de Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, e <em>O Patr\u00e3o e N\u00f3s <\/em>(1974), de Fausto, espelham bem este per\u00edodo de exalta\u00e7\u00e3o e voluntarismo.<br>O canto de interven\u00e7\u00e3o de hoje \u00e9 mais plural, menos panflet\u00e1rio, continuando, contudo, a denunciar as injusti\u00e7as e a questionar o status quo. Surge de forma mais dispersa e fragmentada, muitas vezes integrado noutros g\u00e9neros como o hip-hop, o rock ou a m\u00fasica electr\u00f3nica. As tem\u00e1ticas tamb\u00e9m se diversificaram: al\u00e9m das quest\u00f5es pol\u00edticas, aborda-se a crise clim\u00e1tica, as desigualdades s\u00f3cio-econ\u00f3micas, o racismo, a imigra\u00e7\u00e3o ou a precariedade laboral. JP Sim\u00f5es, Capicua e A Garota N\u00e3o s\u00e3o nomes que me v\u00eam \u00e0 cabe\u00e7a, em registos e est\u00e9ticas bem diferentes.<br>Hoje, o canto de interven\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o tem o mesmo espa\u00e7o nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas nem o mesmo impacto colectivo. A m\u00fasica comercial domina, e o consumo \u00e9 r\u00e1pido e superficial, o que dificulta a divulga\u00e7\u00e3o de mensagens pol\u00edticas mais profundas. Isto n\u00e3o significa, contudo, que o canto de interven\u00e7\u00e3o tenha perdido a sua relev\u00e2ncia. Al\u00e9m disso, o contexto actual \u2014 marcado por crises econ\u00f3micas, tens\u00f5es pol\u00edticas e o crescimento galopante da extrema-direita \u2014 tem vindo a reavivar a necessidade de uma arte mais cr\u00edtica e participativa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante todo o m\u00eas de Agosto a Passarola est\u00e1 a editar uma s\u00e9rie de artigos e pequenas entrevistas para dar a conhecer os artistas que participam no evento EnCantar pela Paz que, produzido pel&#8217;Odezanovedejunho &#8211; Associa\u00e7\u00e3o de Ideias, decorrer\u00e1 de 3 a 27 de Setembro no Audit\u00f3rio Madalena Biscaia Perdig\u00e3o. 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