{"id":1664,"date":"2025-10-16T13:34:51","date_gmt":"2025-10-16T13:34:51","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1664"},"modified":"2025-10-16T13:36:31","modified_gmt":"2025-10-16T13:36:31","slug":"joao-cesar-monteiro-mais-na-america-que-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1664","title":{"rendered":"Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, mais na Am\u00e9rica que aqui"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Carolina Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Foi anunciado no dia 13 de Outubro que o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) ir\u00e1 exibir a obra de Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, numa retrospectiva intitulada \u201cSinfonias de um Libertino\u201d. Entre hoje e o dia 6 de Novembro, passar\u00e1 quase toda a filmografia do cineasta, restaurada pela Cinemateca Portuguesa, que participou na organiza\u00e7\u00e3o junto com o produtor Paulo Branco. J\u00e1 v\u00e1rios jornais e <em>sites<\/em> portugueses reportaram a not\u00edcia, usando todos praticamente o mesmo texto como \u00e9 costume com qualquer not\u00edcia, chamando a Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro \u201cprovocador\u201d, \u201ciconoclasta\u201d, \u201crebelde\u201d, essas coisas que s\u00f3 s\u00e3o elogios agora que ele j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 c\u00e1 a exigir apoios para provocar mais. Na Figueira da Foz, terra onde ele nasceu, h\u00e1 algo em que n\u00e3o podemos deixar de reparar: os americanos d\u00e3o-lhe um destaque que n\u00f3s n\u00e3o damos. Dos dois audit\u00f3rios do Centro de Artes e Espect\u00e1culos, foi-lhe dado o nome no Pequeno \u2013 o que j\u00e1 agora torna quase imposs\u00edvel pesquisar quando foi a \u00faltima vez que passaram l\u00e1 um filme dele \u2013 e foi-lhe dada tamb\u00e9m uma prateleira de DVDs na sala dos filmes da Biblioteca Municipal, e meia prateleira de livros na Sala Figueirense. Pronto. Trabalho feito. Agora quem quiser saber mais sobre ele, ou ver os filmes dele, que os procure, que quando&nbsp; provoca\u00e7\u00f5es s\u00e3o genu\u00ednas n\u00e3o conv\u00e9m difundi-las muito. No Quartel da Imagem, edif\u00edcio camar\u00e1rio dedicado \u00e0 fotografia e ao cinema, uma s\u00f3 personalidade tem direito a espa\u00e7o de exposi\u00e7\u00f5es (com merecido valor hist\u00f3rico, de que a Passarola ali\u00e1s j\u00e1 falou). Sobre um dos maiores nomes do cinema portugu\u00eas, nem est\u00e1 l\u00e1 nada do col\u00f3quio que aconteceu quando rebatizaram o Pequeno Audit\u00f3rio h\u00e1 uns meros cinco anos atr\u00e1s (e em que j\u00e1 na altura foi dito que ele \u201cmerecia mais\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos o que dizem dele l\u00e1 fora, mais de vinte anos depois da sua morte. Nick Newman, cr\u00edtico de cinema americano e grande apoiante da difus\u00e3o da obra de Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, chama-lhe \u201c<em>o mais pr\u00f3ximo que o cinema chegou de ter o seu pr\u00f3prio Philip Roth<\/em>\u201d*. Ian Barr (australiano) descreve-o como \u201c<em>o vagabundo de Chaplin fundido com a vida sexual de Chaplin<\/em>\u201d*. A Cinema Guild, que distribui os seus filmes nos EUA, diz: \u201c<em>Ao mesmo tempo um dandye um pobre, um hedonista e um monge, um revolucion\u00e1rio e um classicista, um realista e um rom\u00e2ntico, Monteiro foi um artista de profundas contradi\u00e7\u00f5es. O seu trabalho combina um burlesco perverso de f\u00farias latentes que v\u00e3o desabrochando com o sentido formal de um modernista elevado e a no\u00e7\u00e3o de um poeta de linguagem e lirismo. Indo buscar \u00e0 alta e baixa cultura, ele sintetizou o avant-garde com um espect\u00e1culo popular, lan\u00e7ando uma revolta furiosa e carnavalesca contra a ordem estabelecida<\/em>\u201d*; \u201c<em>realizador de alguns dos maiores filmes de sempre.<\/em>\u201d* Mais: \u201c<em>Um dos mais controversos e invulgares cineastas da sua gera\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d* (cr\u00edtico ingl\u00eas Zac Ntim). \u201c<em>Um daqueles realizadores brilhantes que nos d\u00e3o aqueles mundos absurdos que reflectem a nossa pr\u00f3pria realidade tr\u00e1gica<\/em>\u201d* (cr\u00edtico e realizador canadiano Neil Bahadur). \u201c<em>Transgress\u00e3o total \u2013 Monteiro desmonta as engrenagens de tudo com alegre entusiasmo<\/em>\u201d* (realizadora francesa Catherine Breillat). \u201c<em>Saudemos todos os artistas perversos sem os quais o mundo seria um lugar t\u00e3o mais pobre<\/em>\u201d* (cr\u00edtico brasileiro Filipe Furtado).<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma voz invulgar e inconveniente. A revista <em>online<\/em> portuguesa ArteCapital, uma das poucas a desviar-se do texto padr\u00e3o na not\u00edcia da retrospectiva, destaca o seu fasc\u00ednio com o Marqu\u00eas de Sade (que, acrescente-se, partilhava com outros cineastas inconvenientes, como Robbe-Grillet e Pasolini), e diz que ele \u201c<em>fez do cinema uma forma de resist\u00eancia libertina e anticlerical, uma arma est\u00e9tica contra os poderes instalados<\/em>\u201d. Poderes t\u00e3o instalados, e cada vez mais abertamente reaccion\u00e1rios, que os filmes de Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro continuam em muitos aspectos actuais, e talvez por isso sejam t\u00e3o pouco vistos. O Presidente da C\u00e2mara que acabou h\u00e1 j\u00e1 uns vinte anos com o grande e pioneiro Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz est\u00e1 de volta, e acaba de ser re-eleito; portanto o n\u00edvel de apre\u00e7o e dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura que este ex-Secret\u00e1rio de Estado da Cultura trouxe com ele \u00e9 o que a maioria quer, em que regra geral as salas de exposi\u00e7\u00f5es camar\u00e1rias t\u00eam recebido em vez de produzirem porque o que vem de fora (e fica l\u00e1 durante meses e meses) \u00e9 que \u00e9 bom. Porque neste nosso pa\u00eds, pequenino de esp\u00edrito e tacanho de ambi\u00e7\u00f5es, servil acima de tudo, para o nosso ser bom precisa de um selo de aprova\u00e7\u00e3o estrangeiro \u2013 se Miguel Torga tivesse mesmo ganho o Nobel como alguns defendiam, talvez se conseguisse hoje encontrar a obra dele fora dos alfarrabistas, por exemplo, e se Saramago n\u00e3o tivesse ganho o Nobel talvez n\u00e3o fosse reeditado e ensinado nas escolas. E quando os americanos dedicam um m\u00eas a Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, o destaque dado ao evento revela as mentalidades: toca tudo a reportar mas sem se darem ao trabalho de ter algo pr\u00f3prio para dizer sobre o assunto. Se ele c\u00e1 estivesse, continuaria a n\u00e3o receber apoios.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Nova-Iorquinos podem ver a obra dele no grande ecr\u00e3. C\u00e1, passa \u00e0s vezes na RTP2 \u2013 que, j\u00e1 agora, alguns partidos querem eliminar. V\u00e1rios filmes est\u00e3o dispon\u00edveis <em>online<\/em> no <a href=\"https:\/\/archive.org\/details\/portuguese-film-archive\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/archive.org\/details\/portuguese-film-archive\">Arquivo do Cinema Portugu\u00eas<\/a> (que tem o nome escrito em ingl\u00eas). Em Aveiro, pode-se ir passear pelas ruas e pela Baixa e ficar a saber quem foi o artista e cineasta Vasco Branco; na Figueira, h\u00e1 alguns livros na Biblioteca P\u00fablica Municipal Pedro Fernandes Tom\u00e1s, numa prateleira no fundo da Sala Figueirense, e DVDs de filmes com extras de entrevistas \u00e0s v\u00e1rias pessoas que trabalharam com Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro. Vale a pena ir procur\u00e1-los, mas ele realmente merecia mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">*Tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Carolina Campos Foi anunciado no dia 13 de Outubro que o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) ir\u00e1 exibir a obra de Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, numa retrospectiva intitulada \u201cSinfonias de um Libertino\u201d. 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