{"id":1668,"date":"2025-10-23T13:33:37","date_gmt":"2025-10-23T13:33:37","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1668"},"modified":"2025-10-23T13:33:37","modified_gmt":"2025-10-23T13:33:37","slug":"memoria-historica-cristina-torres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1668","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria hist\u00f3rica &#8211; Cristina Torres"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Fernando Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ela \u00e9 uma das figuras mais incontorn\u00e1veis do pante\u00e3o de refer\u00eancias culturais e c\u00edvicas da Figueira da Foz. Toda a sua vida foi uma luta incans\u00e1vel pela justi\u00e7a e pela emancipa\u00e7\u00e3o dos humildes e dos desfavorecidos. Ela pensava que atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras seria poss\u00edvel emancipar os homens da sujei\u00e7\u00e3o e do alcoolismo (uma praga social devastadora no seu tempo), as mulheres da depend\u00eancia e da supersti\u00e7\u00e3o (outra praga devastadora, que persiste) e as crian\u00e7as de ambos os sexos da ignor\u00e2ncia (a mais devastadora, porque m\u00e3e de todas as outras) &#8211; a todos queria emancipar da explora\u00e7\u00e3o, do obscurantismo, da indignidade; de todos queria fazer cidad\u00e3os da rep\u00fablica que sonhou. Est\u00e1 claro que falhou redondamente; a sua <em>rep\u00fablica<\/em> nunca chegou e ela pr\u00f3pria acabou mal, como ali\u00e1s s\u00f3i acontecer aos melhores na Figueira da Foz e aos her\u00f3is antigos nas trag\u00e9dias exemplares. Mas foi magn\u00edfico. Por isso \u00e9 que gostamos de evocar o seu nome.<\/p>\n\n\n\n<p>CRISTINA TORRES dos Santos Mendes Pinheiro nasceu em 1891 e faleceu em 1975 na Figueira da Foz. Filha de Ricardo Torres dos Santos, alfaiate, e de Delfina da Cruz Marques.<br>Frequentou desde muito cedo as sociedades oper\u00e1rias, recreativas, educativas, republicanas e ma\u00e7\u00f3nicas, e festejou nas ruas da Figueira a implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. De origem humilde, come\u00e7ou a trabalhar ainda menina como costureira e estudou, \u00e0 noite, na Escola Industrial local.<br>Fundou, em 1911, a <em>Fraternidade Feminina<\/em>, Associa\u00e7\u00e3o de Instru\u00e7\u00e3o e Benefic\u00eancia, respons\u00e1vel pelo funcionamento de uma Escola Nocturna para raparigas e, no ano seguinte, com 21 anos, partiu para Coimbra, onde continuou a labutar como costureira para financiar os estudos no Liceu e posteriormente na Universidade.<br>Formou-se pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Hist\u00f3rico-Geogr\u00e1ficas. Leccionou, entre 1915 e 1922, em Escolas M\u00f3veis de Coimbra e Montemor-o-Velho e, entre Janeiro de 1922 e Julho de 1924, exerceu como Professora provis\u00f3ria na Escola Comercial da Figueira da Foz. Neste \u00faltimo ano, foi nomeada Professora Efectiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia da sua experi\u00eancia de Educadora e Pedagoga, exp\u00f4s Teses em v\u00e1rios Congressos sobre Educa\u00e7\u00e3o (Coimbra, 1918; Porto, 1927; Lisboa, 1931); associou-se ao projecto da funda\u00e7\u00e3o, na Figueira da Foz, de uma Delega\u00e7\u00e3o da Universidade Livre de Coimbra (1929), onde foi respons\u00e1vel pelo funcionamento dos <em>Cursos Nocturnos de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica<\/em>. Foi nomeada <em>Delegada Volunt\u00e1ria de Vigil\u00e2ncia para a Tutoria da Inf\u00e2ncia<\/em> da C\u00e2mara Municipal da Figueira da Foz. Manteve simultaneamente intensa actividade propagand\u00edstica, promoveu confer\u00eancias, discursou em sess\u00f5es p\u00fablicas e pronunciou-se, na imprensa regional da Figueira e de Coimbra, sobre quest\u00f5es feministas, educativas e pol\u00edticas, para al\u00e9m de publicar esporadicamente poemas e contos para crian\u00e7as. Utilizou os pseud\u00f3nimos de <em>Maria Rep\u00fablica<\/em>, nos artigos de car\u00e1cter pol\u00edtico, e <em>N\u00f4-quim<\/em> nos textos dirigidos aos mais novos.<\/p>\n\n\n\n<p>Obreira de uma persistente actividade pedag\u00f3gica dirigida aos mais desfavorecidos, ao operariado e \u00e0s mulheres, e de corajosa oposi\u00e7\u00e3o ao regime fascista institu\u00eddo em 1926, Cristina Torres foi desde logo perseguida, censurada e transferida compulsivamente, em Dezembro de 1932, para a Escola Industrial de Bartolomeu dos M\u00e1rtires em Braga, onde permaneceu 17 anos, at\u00e9 que acabou por ser afastada do ensino e finalmente obrigada a aposentar-se, em 1949, na sequ\u00eancia da participa\u00e7\u00e3o na Campanha de Norton de Matos \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>De regresso \u00e0 Figueira da Foz, subsistiu pobremente de explica\u00e7\u00f5es particulares, mas continuou na resist\u00eancia ao Estado Novo \u2013 ainda pertenceu \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional do III Congresso da Oposi\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica, realizado em Aveiro, em 1973 e saudou o MFA com emo\u00e7\u00e3o e alegria no dia 27 de Abril de 1974, apesar dos seus 83 anos de idade. Depois disso ainda serviu de estandarte a um partido pol\u00edtico, proferindo, em Agosto de 1974 no Coliseu Figueirense, um (o \u00faltimo) discurso not\u00e1vel e acabou os seus dias quase esquecida, num quarto do hospital da Miseric\u00f3rdia, onde faleceu, a 1 de Abril de 1975; n\u00e3o sem ter legado o seu esp\u00f3lio, bem como o do marido, o jornalista <strong>Albano<\/strong> <strong>Duque<\/strong>, ao Museu e \u00e0 Biblioteca da Figueira da Foz. Ap\u00f3s a morte virou nome de escola secund\u00e1ria e de rotunda. Do seu esp\u00f3lio (manuscritos, correspond\u00eancia, artigos publicados, discursos, panfletos, documentos biogr\u00e1ficos e fotografias) foi feita uma exposi\u00e7\u00e3o em 1992, dizem que com um cat\u00e1logo \u201cminucioso\u201d. Os seus escritos dispersos (artigos, discursos, palestras, etc.) nunca foram, por\u00e9m, reunidos, nem estudados, nem publicados. A sua obra liter\u00e1ria nunca foi re-editada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018 o poeta Ant\u00f3nio Augusto Menano evocou os seus derradeiros dias numa l\u00facida e desencantada cr\u00f3nica, publicada no jornal \u201cAsbeiras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Os mortos n\u00e3o t\u00eam defeitos.<br>Ap\u00f3s a morte, todos foram boas pessoas. Se for caso disso, antifascistas.<\/em><br><em>N\u00e3o estou a fulanizar, mas os meus oitenta anos viram, e ouviram, muita coisa.<br>Como o politicamente correcto nunca foi meu gosto, re\ufb01ro, talvez repetindo-me, o caso de Cristina Torres, a minha velha amiga e professora.<\/em><br><em>Acabou num quarto do Hospital da Miseric\u00f3rdia, para onde a minha mulher e eu a transport\u00e1mos, depois de a encontrarmos, ca\u00edda no ch\u00e3o, ensanguentada, em sua casa.<br>Passou os \u00faltimos tempos quase esquecida.<br>Apenas o j\u00e1 falecido M\u00e1rio Moniz Santos a visitava.<br>Morreu, e o seu estatuto de democrata, que serviu a alguns como estandarte, tornou-se mais vis\u00edvel.<br>Mas n\u00e3o esque\u00e7o os muitos dias em que ia at\u00e9 ao p\u00e9 dela (era o gerente da hospital e, por raz\u00f5es pro\ufb01ssionais, estava l\u00e1 diariamente) e a encontrei triste e s\u00f3.<br>A velhice cobra-nos muitas vezes o custo de uma vida cheia.<br>A morte, os corpos enterrados, ou cremados, nivela-nos a todos.<br>Quem n\u00e3o procura afugentar, fechar a morte, seja com rem\u00e9dios, seja refugiando-se na religi\u00e3o? Mas o tempo tem uma \u201ccomponente\u201d indel\u00e9vel: a mem\u00f3ria dos outros.<br>Como, felizmente, nem todos temos Alzheimer, de vez em quando, h\u00e1 uns \ufb02ashes a instigarem-nos a n\u00e3o esquecer.<br>A imagem da morte, um esqueleto embrulhado num sud\u00e1rio, com uma foice \u00e0s costas, a imagem tradicional, provoca-me uma pergunta: a morte vai nua, como todos n\u00f3s quando nascemos?&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mas se quereis saber mais sobre esta <strong>Figueirense<em> excepcional,<\/em><\/strong> <em>n\u00e3o h\u00e1 pai<\/em>, tendes que ler. A<strong> Passarola,<\/strong> porque n\u00e3o h\u00e1 mais, aconselha a \u00fanica <em>biografia pol\u00edtica<\/em> que se conhece:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Cristina Torres, <\/strong>de <em>Joaquim de Sousa<\/em> (1983)<br>(uma edi\u00e7\u00e3o do <em>Secretariado Executivo das Comemora\u00e7\u00f5es do Primeiro Centen\u00e1rio da Eleva\u00e7\u00e3o da Figueira da Foz a Cidade<\/em>)<\/p>\n\n\n\n<p>Se fordes da Figueira, podeis requisit\u00e1-lo na Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tom\u00e1s. Se n\u00e3o fordes, podeis faz\u00ea-lo em qualquer outra biblioteca p\u00fablica que se preze.<br>Lede, lede. E podeis dizer que ides daqui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Fernando Campos Ela \u00e9 uma das figuras mais incontorn\u00e1veis do pante\u00e3o de refer\u00eancias culturais e c\u00edvicas da Figueira da Foz. Toda a sua vida foi uma luta incans\u00e1vel pela justi\u00e7a e pela emancipa\u00e7\u00e3o dos humildes e dos desfavorecidos. Ela pensava que atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras seria poss\u00edvel emancipar os homens da sujei\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1669,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"saved_in_kubio":false,"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-1668","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-passarola"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1668","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1668"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1668\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1670,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1668\/revisions\/1670"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1669"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1668"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1668"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1668"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}