{"id":1685,"date":"2025-11-22T12:36:52","date_gmt":"2025-11-22T12:36:52","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1685"},"modified":"2025-11-22T12:36:52","modified_gmt":"2025-11-22T12:36:52","slug":"memoria-historica-luis-wittnich-carrisso-1886-1937","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1685","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria hist\u00f3rica &#8211; Lu\u00eds Wittnich Carrisso (1886-1937)"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Fernando Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><em>Colher plantas, semear ideias<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Lu\u00eds Carrisso nasceu na Figueira da Foz e foi um dos mais not\u00e1veis naturalistas portugueses do s\u00e9culo vinte. O seu nome \u00e9 homenageado na taxonomia bot\u00e2nica, nomeadamente no g\u00e9nero <em>Carrissoa<\/em> da fam\u00edlia Fabaceae (onde se inclui a <em>Carrissoa angolensis<\/em>) e no <em>ep\u00edteto espec\u00edfico<\/em> da esp\u00e9cie <em>Dissotis carrissoi<\/em> da fam\u00edlia Melastomataceae. Tamb\u00e9m foi presidente da C\u00e2mara Municipal de Coimbra, Reitor interino da universidade, Presidente da Comiss\u00e3o de Obras da cidade Universit\u00e1ria e Presidente da Junta de Constru\u00e7\u00e3o do Ensino Secund\u00e1rio e T\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, em 1918, Lu\u00eds Carrisso foi nomeado professor catedr\u00e1tico e 15\u00ba director do Instituto Bot\u00e2nico da Universidade de Coimbra,&nbsp; Portugal era ainda, e j\u00e1 havia quatro s\u00e9culos, o garboso detentor de um imp\u00e9rio em \u00c1frica. Mas &#8220;\u00f3<em> gl\u00f3ria de mandar! \u00d3 v\u00e3 cobi\u00e7a.<\/em>..\u201d, n\u00e3o fazia a mais puta ideia das gentes que o habitavam, nem dos animais, nem das pedras, nem das plantas. De facto podiam-se escrever comp\u00eandios inteiros de antropologia, zoologia, geologia e bot\u00e2nica com tudo o que Portugal ignorava do seu imenso imp\u00e9rio. Pois foi isso mesmo que Lu\u00eds Carrisso fez; e n\u00e3o apenas no que diz respeito \u00e0 bot\u00e2nica: na sua primeira viagem (em 1927) ficou \u201cenfeiti\u00e7ado por \u00c1frica\u201d (quem n\u00e3o?) e na segunda (em 1929) percorreu 6.000 km em Angola onde estudou a flora, a fauna, as potencialidades econ\u00f3micas, as condi\u00e7\u00f5es de vida social e os problemas locais. Segundo F\u00e1tima Sales, da UC, \u201c<em>Carrisso foi mais um homem de ac\u00e7\u00e3o, um explorador, um condutor de homens, do que um investigador de laborat\u00f3rio. (&#8230;) ficou mem\u00f3ria de v\u00e1rias confer\u00eancias vibrantes e sempre, sempre frontais na aprecia\u00e7\u00e3o que fazia da sociedade portuguesa.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Lu\u00eds Carrisso enfrentou os problemas decorrentes de escasso pessoal e dota\u00e7\u00e3o financeira (o sempiterno calv\u00e1rio de quem se interessa por ci\u00eancia em Portugal) mas desenvolveu todas as componentes do Instituto (Jardim, Laborat\u00f3rios e Herb\u00e1rio) com dinamismo e imagina\u00e7\u00e3o sabendo rodear-se de bons colaboradores. Quanto ao Herb\u00e1rio, em 1921 convidou para o lugar de assistente e jardineiro-chefe o licenciado Francisco d\u2019Ascen\u00e7\u00e3o Mendon\u00e7a, que mais tarde haveria de o acompanhar nas suas tr\u00eas <em>miss\u00f5es recolectoras<\/em> a Angola. Organizou v\u00e1rias herboriza\u00e7\u00f5es em Portugal e desenvolveu colabora\u00e7\u00e3o com amadores, alguns antigos alunos, que regularmente enviavam material das ent\u00e3o col\u00f3nias portuguesas. Nesse tempo n\u00e3o havia nem grandes colec\u00e7\u00f5es de \u00c1frica em Coimbra nem uma biblioteca adequada. Dado que as melhores colec\u00e7\u00f5es e conhecimentos sobre a flora de Angola estavam em Londres, no British Museum, Carrisso estabeleceu, ent\u00e3o, uma colabora\u00e7\u00e3o oficial entre o Conselho da Faculdade de Ci\u00eancias da Universidade de Coimbra e o museu brit\u00e2nico. Em 1934 convidou Arthur Wallis Exell(<strong>1<\/strong>) (naturalista experimentado em trabalho de campo e de herb\u00e1rio) para tomar conhecimento dos trabalhos j\u00e1 iniciados em Coimbra. Convidou John Gossweiller(<strong>2<\/strong>) com o mesmo objectivo. Organizou a visita de Mendon\u00e7a aos herb\u00e1rios de Londres e Berlim-Dahlem tornando-o num naturalista cosmopolita. Mas foram as suas actividades em \u00c1frica, as quais duraram dez anos dif\u00edceis, que dimensionaram substancialmente o Herb\u00e1rio em mais de 25.000 esp\u00e9cies e lhe permitiram compilar o monumental <strong><em>Conspectus Flora Angolensis <\/em><\/strong>(ainda hoje inacabado) e outros estudos da flora de Angola.<\/p>\n\n\n\n<p>No total, as tr\u00eas viagens somaram cerca de 30.000 km, mais do que os 28.000 km da rede de estradas de Angola \u00e0 \u00e9poca. O material de herb\u00e1rio colhido durante estas expedi\u00e7\u00f5es foi juntar-se \u00e0s colec\u00e7\u00f5es do alem\u00e3o Friedrich Welwitsch (1806-1861) e de Gossweiller, constituindo o todo material de refer\u00eancia de uma parte muito interessante de \u00c1frica. De facto, Angola estende-se dos paralelos 5\u00ba (incluindo Cabinda) \u2013 18\u00baS e dos meridianos 12\u00ba \u201324\u00ba cobrindo uma variedade enorme de habitats, da floresta tropical ao deserto, da orla mar\u00edtima, passando pela longa escarpa at\u00e9 ao vasto planalto interior o qual, no seu extremo este, v\u00ea passar o rio Zambeze. Esp\u00e9cies novas descritas de Angola t\u00eam muitas vezes distribui\u00e7\u00e3o ou em todo o sul da \u00c1frica ou na \u00c1frica central \u2014 da\u00ed a grande import\u00e2ncia destas colec\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Fevereiro de 1937 Carrisso e os seus companheiros de Coimbra partiram de Lisboa rumo a Luanda. L\u00e1 juntaram-se a Exell, sua esposa e Gossweiller e iniciaram a sua terceira e derradeira viagem. A 14 de Junho de 1937 a expedi\u00e7\u00e3o subia um morro conhecido pelo nome de Kane-wia(<strong>3<\/strong>) e colhia plantas, a 102 km a sul da cidade do Namibe (antiga Mo\u00e7\u00e2medes). Carrisso sentiu-se mal e a\u00ed morreu, de s\u00edncope card\u00edaca, com o cajado numa m\u00e3o e um molhe de plantas na outra, a 2 km do <em>Morro das Paralelas<\/em>, onde est\u00e1 sepultado. Tinha 53 anos. N\u00e3o teve filhos. Publicou artigos cient\u00edficos. Colheu plantas. Semeou ideias.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>1<\/strong>) <strong>Arthur Wallis Exell<\/strong> (1901-1993), bot\u00e2nico ingl\u00eas formado por Cambridge (1926), que durante perto de tr\u00eas d\u00e9cadas exerceu fun\u00e7\u00f5es no Museu Brit\u00e2nico. Participou em tr\u00eas expedi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas realizadas em \u00c1frica, de que resultou a publica\u00e7\u00e3o de obras ainda hoje consideradas de refer\u00eancia para o estudo da flora daquele continente.<br><strong>2<\/strong>) <strong>Johannes Gossweiler<\/strong>, bot\u00e2nico sui\u00e7o (1873-1952) que trabalhou para o governo colonial\u00a0 portugu\u00eas de Angola desde 1899 at\u00e9 \u00e0 sua morte. Fez importantes colec\u00e7\u00f5es em todos os distritos de Angola e criou (1939) o primeiro mapa fito-geogr\u00e1fico daquele pa\u00eds.<br><strong>3<\/strong>) <strong>Kane-wia<\/strong>\u00a0 &#8211; literalmente \u201c<em>quem o subir n\u00e3o volta<\/em>\u201d, em idioma tchierero (l\u00edngua do povo mucubal).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Na foto (provavelmente da autoria de Arthur W. Exell): Francisco Mendon\u00e7a, Lu\u00eds Carrisso, a senhora Exell e Gossweiller (1937).<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Fernando Campos Colher plantas, semear ideias Lu\u00eds Carrisso nasceu na Figueira da Foz e foi um dos mais not\u00e1veis naturalistas portugueses do s\u00e9culo vinte. 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