{"id":1704,"date":"2025-12-06T10:55:38","date_gmt":"2025-12-06T10:55:38","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1704"},"modified":"2025-12-20T11:30:25","modified_gmt":"2025-12-20T11:30:25","slug":"o-estado-do-sitio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1704","title":{"rendered":"O estado do s\u00edtio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\"><em>por <strong>Fernando Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-medium-font-size\"><strong><em>\u00c9 muito raro que a fealdade se conhe\u00e7a a si pr\u00f3pria<\/em><\/strong><br><strong><em>e parta o espelho onde se reflecte<\/em><\/strong><br><strong>Xavier de Maistre<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No seu c\u00e9lebre ensaio sobre o riso, Henri Bergson sugere que um dos elementos do c\u00f3mico \u00e9 o exagero da fealdade. Ou seja, que quando a consci\u00eancia do feio \u00e9 partilhada (o riso \u00e9 humano e <em>comunit\u00e1rio<\/em>) a implica\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do exagero das suas assimetrias \u00e9 <em>captada<\/em> e <em>processada <\/em>\u2013 a comicidade \u00e9 terap\u00eautica &#8211; <em>o riso corrige os costumes<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O feio \u00e9 muito mais do que apenas a torpeza do seu aspecto pois agrega em si, para l\u00e1 dessa disformidade visual expl\u00edcita, a dimens\u00e3o psicol\u00f3gica de um medonho aleij\u00e3o moral sem remiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando por\u00e9m n\u00e3o existe consci\u00eancia individual do feio, nem sensibilidade social na interpreta\u00e7\u00e3o do seu exagero, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 riso poss\u00edvel, nem <em>rem\u00e9dio para os costumes; <\/em>h\u00e1 um ricto pervertido que \u00e9 apenas um reflexo alarve da estupidifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta inconsci\u00eancia social da fealdade \u00e9 consp\u00edcua, facilmente observ\u00e1vel, por um olhar atento e perscrutador, em qualquer lugar. H\u00e1 lugares em que o feio n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 <em>apercebido<\/em>, como o seu exagero \u00e9 interiorizado nas consci\u00eancias como um novo <em>normal. <\/em>O horror <em>vulgariza-se<\/em>, torna-se <em>o novo lindo.<\/em> Isto n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 uma <em>nova est\u00e9tica<\/em> como uma nova filosofia, uma esp\u00e9cie de nova religi\u00e3o, uma nova <em>moda <\/em>sem absolutamente nenhum medo do rid\u00edculo. Algo muito <em>s\u00e9rio<\/em> e circunspecto, portanto. E igualmente melindroso, pois como o que \u00e9 <em>maiorit\u00e1rio <\/em>tende a <em>totalit\u00e1rio<\/em> a presun\u00e7\u00e3o sem discernimento tamb\u00e9m exibe, inflex\u00edvel, pruridos do velho <em>respeitinho<\/em>. Est\u00e1 por toda a parte. Na Figueira da Foz, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mosteiro de St\u00aa Maria de Sei\u00e7a. 30 de Setembro de 2025. Segunda-feira. A mais recente e rutilante j\u00f3ia do patrim\u00f3nio municipal <em>requalificado<\/em>, utilizada ami\u00fade pelo presidente do munic\u00edpio para as suas selectas recep\u00e7\u00f5es privadas, s\u00f3 abre ao p\u00fablico de Quarta a Domingo. \u00c0s Segundas e Ter\u00e7as, o incauto visitante n\u00e3o tem outro rem\u00e9dio sen\u00e3o perscrutar a sua <em>zona envolvente \u2013 <\/em>entremeia d\u00fazia de velhos sobreiros e oliveiras no meio do deserto eucaliptal<em> &#8211;<\/em> reflectindo talvez sobre o papel do acaso, do desmazelo e do voluntarismo da premedita\u00e7\u00e3o na banaliza\u00e7\u00e3o da atrocidade no \u201calindamento\u201d da paisagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo em frente do monumento, para cuja ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica e <em>decora\u00e7\u00e3o de exteriores<\/em> n\u00e3o sobraram verbas no or\u00e7amento da <em>requalifica\u00e7\u00e3o<\/em>, \u00e9 vis\u00edvel, ao longo da sinuosa estrada de acesso \u00e0 capela de N\u00aa Sr\u00aa de Sei\u00e7a, a profus\u00e3o arqueol\u00f3gica e intrincada de postes, estranhos t\u00f3tens de cimento ou de eucalipto, erectos ou inclinados em todos os azimutes, com os seus cabos el\u00e9ctricos riscando o c\u00e9u em bizarras composi\u00e7\u00f5es de diagonais e perpendiculares ou enrolados como cabelos em obsoletos novelos despenteados. Nota-se tamb\u00e9m, mesmo \u00e0 entrada do mosteiro, um bisonho <em>monumento,<\/em> certamente tamb\u00e9m involunt\u00e1rio, constitu\u00eddo por umamisteriosa <em>instala\u00e7\u00e3o<\/em> comp\u00f3sita de postes, pilaretes e tabuletas de pau, cimento armado e pl\u00e1stico reciclado; e mais adiante, entre mais um poste e uma ru\u00edna de tijolos nus quase devorada pelas silvas, a sedi\u00e7a rel\u00edquia, talvez votiva, de um extravagante frigor\u00edfico abandonado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a <em>pi\u00e8ce de resistance<\/em> \u00e9, ao fundo da estradinha sinuosa, a vis\u00e3o dantesca da capela de N. Sr\u00aa de Sei\u00e7a. Algu\u00e9m se lembrou, aqui decerto <em>altamente<\/em> <em>autorizado<\/em>, que para <em>valorizar<\/em> uma j\u00f3ia \u00fanica do patrim\u00f3nio hist\u00f3rico portugu\u00eas nada melhor que lhe <em>prantar<\/em> \u00e0 frente da sua forma barroca octogonal uma barraca rectangular, uma esp\u00e9cie de marquise minimalista (sem vidra\u00e7a), em ferro zincado e cobertura de lona plastificada, certamente para acomodar os vendilh\u00f5es do templo na romaria de Agosto. Eis uma imagem que depois de claramente vista \u00e9 imposs\u00edvel de <em>desver, <\/em>e de descrever<em>&#8211; <\/em>por isso fiz a fotografia.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o retrato, alvar e patibular, do enlevo de cada vez mais paisanos pros\u00e9litos desta nova <em>filosofia est\u00e9tica<\/em>. Um retrato que \u00e9 o reflexo sombrio do <em>spleen <\/em>cognitivo de uma certa atitude c\u00edvica, ou sentimento colectivo, cada vez mais alegremente complacente com todas as degrada\u00e7\u00f5es da barbaridade.<\/p>\n\n\n\n<p>De iniciativa popular, privada ou institucional, frutos do acaso, do improviso, do desleixo ou do voluntarismo municipal, s\u00e3o mais do que muitos os exemplos, antigos e recentes, deste fasc\u00ednio alarve pelo <em>grotesco bo\u00e7al<\/em> &#8211; uma patologia que consiste numa esp\u00e9cie de indiferen\u00e7a m\u00f3rbida; um mais que vago prazer equ\u00edvoco, uma absoluta condescend\u00eancia p\u00e9rfida; um verdadeiro <em>gosto,<\/em> obsceno e maligno, assumido e entusiasmado, pela submiss\u00e3o volunt\u00e1ria \u00e0 sev\u00edcia moral que \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o constante a toda a sorte de abomin\u00e1veis e repulsivas aberra\u00e7\u00f5es visuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto est\u00e1 em exibi\u00e7\u00e3o permanente na Figueira da Foz, de forma mais ou menos escatol\u00f3gica, no triunfo deste <em>novo gosto<\/em> cujas\u00a0refer\u00eancias s\u00e3o a desmem\u00f3ria, a abulia e o desprezo envaidecido por qualquer no\u00e7\u00e3o de belo, de elevado, de decente ou t\u00e3o s\u00f3 de asseado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; O teatro-circo Saraiva de Carvalho, por exemplo, devorado por um casino e depois sepultado semi-vivo numa sauna infame debaixo de uma redoma de vidro que parece um <em>showroom<\/em> da expo-sal\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ou o forte de St\u00aa Catarina, monumento nacional, sequestrado e brutalizado por um <em>Club de Tennis<\/em> at\u00e9 \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o, hoje travestido de estabelecimento que vende cerveja-a-copo conservado em ru\u00ednas no meio da sua <em>zona envolvente,<\/em> entre uma horrenda escadaria de cimento armado e um nefando e artificial <em>espelho d&#8217;\u00e1gua<\/em> &#8211; a meia d\u00fazia de metros da foz natural do maior rio de Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ou ent\u00e3o o relvado fronteiro ao memorial ao Maestro David de Souza &#8211; transformado pelo <em>uso<\/em> popular (mais <em>classe-m\u00e9dia-alta<\/em>, diga-se) num emblem\u00e1tico <em>defec\u00f3d<\/em><em>romo<\/em> canino.<\/p>\n\n\n\n<p>Poder-se-ia descrever mais, muitos, imensos, demasiados casos assim <em>emblem\u00e1ticos<\/em> de um gosto que n\u00e3o \u00e9 duvidoso porque \u00e9 paradigm\u00e1tico; mas seria uma viagem ao fim da noite, muito para l\u00e1 do cora\u00e7\u00e3o das trevas, ao horror do pesadelo <em>normalizado <\/em>por uma mediocridade sem rem\u00e9dio e por uma estupidez sem reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Fernando Campos \u00c9 muito raro que a fealdade se conhe\u00e7a a si pr\u00f3priae parta o espelho onde se reflecteXavier de Maistre No seu c\u00e9lebre ensaio sobre o riso, Henri Bergson sugere que um dos elementos do c\u00f3mico \u00e9 o exagero da fealdade. 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