{"id":1723,"date":"2026-01-12T12:19:19","date_gmt":"2026-01-12T12:19:19","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1723"},"modified":"2026-01-12T12:19:19","modified_gmt":"2026-01-12T12:19:19","slug":"da-diversao-pela-arte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1723","title":{"rendered":"Da divers\u00e3o pela arte"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong><em>Devaneios de barro em fins de tarde <\/em>\u2013<\/strong><br><strong>uma exposi\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Santos Silva e Jo\u00e3o Valente Pereira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>por <strong>Fernando Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No princ\u00edpio n\u00e3o havia arte popular. N\u00e3o existia. Ou melhor, n\u00e3o se lhe concedia sequer o direito de existir. As mais doutas almas das academias de antanho consideravam mesmo que Arte era um conceito demasiado elevado, inacess\u00edvel ao povo raso. Os termos \u201carte\u201d e \u201cpopular\u201d nem se pronunciavam na mesma frase.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ent\u00e3o que chegou a Barcelos o fabuloso pintor e poeta Ant\u00f3nio Quadros. E Ant\u00f3nio Quadros &#8211; que era amigo de Jos\u00e9 Afonso e tudo &#8211; viu as <em>alminhas<\/em>, os <em>cristos<\/em>, os <em>cabe\u00e7udos<\/em>, os <em>galos<\/em>, os <em>galos-mulher<\/em>, os<em> homens-sereia<\/em>, os <em>carrochos<\/em>, as <em>cabras<\/em>, as <em>pinhas<\/em>, as <em>bandas<\/em>, as <em>ceias <\/em>eos <em>cavaleiros,<\/em> achou que aquilo tudo era bom, muito bom; <em>revolucion\u00e1rio<\/em> &#8211; e ent\u00e3o disse: \u201cEis Rosa Ramalho\u201d (nesses tempos, belos tempos, os intelectuais viviam fascinados com o <em>poder popular<\/em> &#8211; etn\u00f3logos como Michel Giacometti percorriam campos e&nbsp; brejos ouvindo e gravando melopeias antigas que o povo cantava e m\u00fasicos eruditos e sofisticados como Fernando Lopes-Gra\u00e7a compunham complexas pe\u00e7as inspiradas nessa simplicidade aut\u00eantica e <em>original<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>E assim, de repente, primeiro a escola superior de Belas-Artes do Porto e depois as <em>elites art\u00edsticas<\/em> de todas as academias descobriram o prodigioso, fant\u00e1stico, surreal e subversivo poder da <em>olaria tradicional portuguesa<\/em> &#8211; um <em>figurado<\/em> concebido sem <em>pecado, sem<\/em> forma(ta)\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica, sem complexos nem preconceitos, sem elaborados conhecimentos t\u00e9cnicos nem pretensiosas inten\u00e7\u00f5es art\u00edsticas ou decorativas, apenas com as m\u00e3os nuas, terra molhada, o olhar lavado, o fogo e a mal\u00edcia de um humor ing\u00e9nuo, a imagina\u00e7\u00e3o atrevida e a inten\u00e7\u00e3o l\u00fadica de quem d\u00e1 forma original \u00e0s suas perplexidades.<\/p>\n\n\n\n<p>A olaria tradicional, que anteriormente era uma arte an\u00f3nima, ganhou estatuto cultural e Rosa Ramalho tornou-se a primeira <em>barrista<\/em> a ser conhecida pelo seu pr\u00f3prio nome; as suas pe\u00e7as passaram a ser procuradas por in\u00fameros coleccionadores, portugueses e estrangeiros, e a 9 de abril de 1981 a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica decidiu atribuir-lhe, a t\u00edtulo p\u00f3stumo, o grau de <em>Dama da Ordem Militar de Santiago da Espada<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Actualmente esta arte popular mant\u00e9m o seu prest\u00edgio cultural elevado e toda uma constela\u00e7\u00e3o de novos e prol\u00edficos <em>barristas<\/em> activos, muito disputados no mercado da arte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jos\u00e9 Santos Silva, <\/strong>que \u00e9 s\u00f3cio-fundador d&#8217;Odezanovedejunho <em>e tudo<\/em><strong>,<\/strong> n\u00e3o \u00e9 um artista convencional; n\u00e3o estudou anatomia, perspectiva, geometria, hist\u00f3ria, nem desenhou modelos de gesso segundo normas cultas sufragadas por academias durante s\u00e9culos mas est\u00e1 habituado a lidar com arte e cer\u00e2mica antiga h\u00e1 muitos anos, porque \u00e9 <em>t\u00e9cnico de conserva\u00e7\u00e3o<\/em> no Museu Municipal. Al\u00e9m disso, ele \u00e9 um estudioso e profundo conhecedor da olaria tradicional. Ao ponto de se ter tornado tamb\u00e9m um criterioso e exigente coleccionador. A sua colec\u00e7\u00e3o, dedicada a um segmento do <em>figurado<\/em> popular, <em>os diabos<\/em>, j\u00e1 conta com centenas de valiosas pe\u00e7as dos mais reputados artes\u00e3os e ele pensa at\u00e9 mostr\u00e1-la ao p\u00fablico brevemente, numa grande exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, na estreita e fraternal convivialidade que estabeleceu com barristas do <em>figurado<\/em> de Barcelos (ele trata por tu os melhores de Portugal) foi-lhe contagiada a vontade de ele pr\u00f3prio p\u00f4r as m\u00e3os na massa; quero dizer, no barro fresco e informe. Foi assim que aliciou o seu genro <strong>Jo\u00e3o Valente Pereira <\/strong>para, em \u201cdevaneios de fim de tarde\u201d descobrirem, a quatro m\u00e3os, \u201d<em>um meio visceral<\/em>\u201d de \u201c<em>dar corpo \u00e0 alma<\/em>\u201d que est\u00e1 patente numa exposi\u00e7\u00e3o no CAE desde 7 de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu fui l\u00e1 ver. E achei aquilo tudo t\u00e3o estranhamente entranh\u00e1vel e desopilante como a mais pura, sincera, honesta, despretensiosa e inteligente divers\u00e3o &#8211; a figura\u00e7\u00e3o de um besti\u00e1rio repleto do non-sense espont\u00e2neo da melhor arte popular e da informalidade de um humor directo e desconcertante sobre a actualidade numa parafern\u00e1lia exuberante de pe\u00e7as, vidradas ou pintadas, de terrinas, telhas, cristos pat\u00e9ticos e <em>inconvenientes<\/em>, diabos cornudos e encarni\u00e7ados, prociss\u00f5es delirantes, ceias extravagantes, mostrengos fant\u00e1sticos e absurdos, vermes, carac\u00f3is e outros <em>bichos m\u00f3is,<\/em> at\u00e9 uma p\u00edcara \u00e1rvore dos sexos e outras alegorias comp\u00f3sitas e um espampanante e surreal <em>casal de tamburiles <\/em>numa <em>tentativa<\/em> (amplamente conseguida, diga-se) de, nas suas pr\u00f3prias palavras,<em> \u201ctraduzir em mat\u00e9ria a mem\u00f3ria e a beleza imperfeita da condi\u00e7\u00e3o humana\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de uma reconfortante terapia estou certo de que, ao moldarem com os dedos \u201c<em>as mem\u00f3rias que os habitam\u201d<\/em>, ambos descobriram em si o espanto de se verem como \u201cartistas\u201d e a estranha e divertida incomodidade de terem que por vezes dar nome \u00e0 bizarra e alucinante <em>bonecada<\/em> que lhes sai das m\u00e3os&nbsp; desvairada pela imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande Arte, com todas as letras; visceral, genu\u00edna, de uma honestidade t\u00e3o franca e t\u00e3o funda que me parece &#8211; tal como Rosa Ramalho dever\u00e1 ter parecido a Ant\u00f3nio Quadros &#8211; <em>uma coisa<\/em> do princ\u00edpio dos tempos que ningu\u00e9m sabe como chegou inc\u00f3lume at\u00e9 n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Excelente exposi\u00e7\u00e3o. V\u00e3o por mim que fui l\u00e1 ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sala Z\u00e9 Penicheiro. No CAE. At\u00e9 1 de Fevereiro.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Devaneios de barro em fins de tarde \u2013uma exposi\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Santos Silva e Jo\u00e3o Valente Pereira por Fernando Campos No princ\u00edpio n\u00e3o havia arte popular. N\u00e3o existia. Ou melhor, n\u00e3o se lhe concedia sequer o direito de existir. 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