{"id":1744,"date":"2026-01-24T09:16:12","date_gmt":"2026-01-24T09:16:12","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1744"},"modified":"2026-01-24T09:17:27","modified_gmt":"2026-01-24T09:17:27","slug":"do-desconhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1744","title":{"rendered":"Do desconhecimento"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Carolina Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tenho andado a ler sobre medicina do s\u00e9culo XIII. Podia dar-me para pior. Especificamente sa\u00fade feminina \u2013 muitos homens a falarem do que n\u00e3o sabiam. Estava na altura a estabelecer-se a universidade como institui\u00e7\u00e3o na Europa, a educa\u00e7\u00e3o estava a formalizar-se, o conhecimento j\u00e1 se estruturava mais fixamente em linhagens e escolas. Em rela\u00e7\u00e3o ao ciclo menstrual havia umas poucas escolas principais, como a dos aristot\u00e9licos e a dos que seguiam as tradu\u00e7\u00f5es nessa altura em circula\u00e7\u00e3o de autores \u00e1rabes como Avicena. Nenhum deles era propriamente progressista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, mas Avicena via o ciclo menstrual como algo natural e at\u00e9 moralmente positivo, ligado a fun\u00e7\u00f5es de limpeza e purifica\u00e7\u00e3o. J\u00e1 Arist\u00f3teles dizia que era algo imundo e perigoso, sinal da verdadeira natureza das mulheres, inferiores e mal\u00e9volas. A escola aristot\u00e9lica das ci\u00eancias naturais (junto com teologias como a de Tom\u00e1s de Aquino) abriu caminho na era medieval para o desenvolvimento da chamada \u201cmisoginia cient\u00edfica\u201d, profundamente enraizada na pr\u00e1tica da medicina durante s\u00e9culos. Tradu\u00e7\u00f5es como as de Avicena tornaram-se problem\u00e1ticas a partir do final do s\u00e9culo XIII, quando a \u201cnatureza infiel\u201d da sabedoria mu\u00e7ulmana come\u00e7ou a ser oficialmente condenada e autores que a usavam como refer\u00eancia muitas vezes escondiam as fontes do que estavam a dizer. Um ac\u00e9rrimo seguidor de Arist\u00f3teles na Europa, por outro lado, Albertus Magnus, aplicou-se \u00e0 causa da misoginia cient\u00edfica com muito afinco, e um dos seus disc\u00edpulos escreveu depois um livro chamado <em>De Secretis Mulierum<\/em>, Dos Segredos das Mulheres, em que expandia essas ideias. Nem sequer soava l\u00e1 muito cient\u00edfico, mas mesmo assim serviu para ser a base de outro livro, chamado <em>Malleus Maleficarum<\/em> \u2013 o manual da Inquisi\u00e7\u00e3o para os julgamentos das bruxas. E foi assim que ideias como \u201co sangue menstrual envenena os olhos que por sua vez envenenam tudo aquilo para que olham\u201d levaram \u00e0 morte violenta, absurda, de centenas ou milhares de mulheres. Antes de tudo isto, no s\u00e9culo XII, tinha andado pela Alemanha uma freira exc\u00eantrica chamada Hildegarde von Bingen, compositora, bot\u00e2nica, fil\u00f3sofa, artista, que fundou o seu pr\u00f3prio convento, inventou uma l\u00edngua e escreveu livros de medicina. Uma das poucas pessoas a escrever sobre ciclos menstruais com experi\u00eancia pr\u00f3pria, e sem acesso sequer \u00e0s tradu\u00e7\u00f5es de Avicena, ela foi respons\u00e1vel pelo \u00fanico texto cient\u00edfico medieval que compara o per\u00edodo a feridas sofridas por homens em batalha, debilitantes e merecedoras de tratamento m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p>Fala-se muito de como o desconhecimento leva ao \u00f3dio, e a ignor\u00e2ncia leva \u00e0 crueldade. Mas muitas vezes a solu\u00e7\u00e3o proposta para isso \u00e9 uma fantasia, ilustrada com um filmezeco curtinho qualquer que a legenda do Facebook diz que ganhou tr\u00eas \u00f3scares, em que a verdade \u00e9 revelada aos pobres ignorantes num momento muito bonito que os faz mudar de ideias e no fim ficam todos amigos. \u00c9 bonito, sem d\u00favida, e muitos dir\u00e3o que \u00e9 a simplifica\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o que faz sentido para um p\u00fablico infantil. Seria uma estrat\u00e9gia vi\u00e1vel num mundo em que o desconhecimento \u00e9 genu\u00edno e acidental, mas o nosso inimigo aqui na vida real \u00e9 o obscurantismo organizado. Tom\u00e1s de Aquino (tamb\u00e9m a seguir Arist\u00f3teles) tinha motivos, de fortalecimento da vergonha e repress\u00e3o, para pregar que a mulher era um <em>vir occasionatus<\/em>, um homem defeituoso. A Inquisi\u00e7\u00e3o aproveitou-se de todas estas teorias, do fervor religioso \u00e0 volta delas \u2013 e do desconhecimento acerca de doen\u00e7as mentais, acrescentou o realizador dinamarqu\u00eas Benjamin Christensen no seu filme <em>H\u00e4xan: A Feiti\u00e7aria Atrav\u00e9s dos Tempos<\/em> h\u00e1 j\u00e1 104 anos, por exemplo \u2013 para cortar o conceito de mulheres intelectualmente e materialmente independentes pela raiz antes que pudesse germinar. Mais gente a ser tratada como propriedade privada \u00e9 sempre mais propriedade privada para quem a detiver, afinal de contas.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje em dia poucos ou nenhuns negar\u00e3o, esperamos n\u00f3s, que os julgamentos de bruxas foram uma barbaridade, uma mancha vergonhosa na hist\u00f3ria que\u2026 teria ensinado alguma li\u00e7\u00e3o se a Humanidade tivesse o h\u00e1bito de aprender com a hist\u00f3ria. (E para este ponto, j\u00e1 agora, para quem quiser mais cultura, vejam outro bom filme sobre esses julgamentos, o <em>Beladona <\/em>de Eiichi Yamamoto). Mesmo nesta era em que estamos, em que membros do parlamento surgem nas redes sociais a dizer que o ferro de engomar fez mais pelas mulheres que o feminismo, tentativas de espalhar obscurantismo \u00e0 moda antiga sobre as mulheres v\u00e3o sendo de forma geral criticadas. Outros obscurantismos t\u00eam mais sorte.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos: o que \u00e9 que o cidad\u00e3o portugu\u00eas m\u00e9dio sabe, genuinamente sabe, sobre o Bangladesh? Sobre o Nepal? Sobre o Isl\u00e3o? Sobre \u00c1frica no geral? Sobre a \u00cdndia? Portugal, que tanto se orgulha de ter l\u00e1 estado, de ter \u201cdescoberto\u201d esses s\u00edtios. V\u00e3o a um dos milhentos <em>posts<\/em> nas redes sociais a dizer \u201cAngola \u00e9 nossa\u201d, peguem num dos autores dessas exorta\u00e7\u00f5es pelo colarinho ou pela camisola amarrada nos ombros e perguntem-lhe que l\u00ednguas se falam em Angola para al\u00e9m do portugu\u00eas. Mostrem-lhe arte bakongo perguntem-lhe se j\u00e1 alguma vez viu aquilo, ou maconde, ou guarani. Perguntem-lhe que l\u00edngua se fala em Timor-Leste. \u201c\u00c9 nosso\u201d o qu\u00ea, exactamente? Milh\u00f5es e milh\u00f5es de pessoas e de quil\u00f3metros quadrados de propriedade privada, nada mais. A gl\u00f3ria do imp\u00e9rio portugu\u00eas. O que est\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o interessa de qualquer maneira, n\u00e3o vale a pena conhecer. Caixas e caixas de objectos trazidos s\u00f3 para serem assertivamente relegados a prateleiras nas caves de museus que mostram a beleza da arte europeia nos andares de cima, como disse o acad\u00e9mico gan\u00eas Nii Kwate Owoo a prop\u00f3sito do Museu Brit\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma quest\u00e3o sobre a redu\u00e7\u00e3o do mundo a N\u00f3s e Eles que aqueles filmezecos bonitinhos do Facebook n\u00e3o referem \u00e9 que \u00e9 f\u00e1cil. De todas as vis\u00f5es do mundo \u00e9 a que d\u00e1 menos trabalho. N\u00e3o \u00e9 preciso aprender sobre nada, nem falar com ningu\u00e9m que d\u00ea outras perspectivas, nem fazer o esfor\u00e7o da introspec\u00e7\u00e3o. \u00c9 simples: N\u00f3s somos bons, as coisas boas do mundo s\u00e3o \u2013 ou deviam ser \u2013 Nossas, e as coisas m\u00e1s s\u00e3o culpa d\u2019Eles, os Outros, os que est\u00e3o fora do grupo que somos N\u00f3s, que \u00e9 definido em fun\u00e7\u00e3o do que se quer excluir; o que \u00e9 muito conveniente porque assim N\u00f3s estamos sempre dentro e Eles est\u00e3o sempre fora. Parece-me uma maneira exaustiva de ver a vida, o cansa\u00e7o constante da f\u00faria contra quase tudo, porque neste mundo moderno todos os dias nos aparece \u00e0 frente alguma coisa que foi l\u00e1 posta por Eles (quase como se essas coisas fizessem parte do nosso mundo, naturalmente). Mas \u00e9 um cansa\u00e7o nobre, que se carrega para servir a causa da protec\u00e7\u00e3o do que \u00e9 Nosso. \u00c0 medida que esta vis\u00e3o vai fermentando, o outro lado vai ficando mais nebuloso, e nem quem o combate o consegue descrever. O que \u00e9 a \u201cideologia de g\u00e9nero\u201d? Os mu\u00e7ulmanos e os imigrantes do Bangladesh v\u00eam c\u00e1 fazer o qu\u00ea que \u00e9 t\u00e3o mau, para al\u00e9m de simplesmente existir em Portugal? Nem sabem bem, nem querem saber, e \u00e9 bom que continuem sem saber porque assim a culpa de tudo o que est\u00e1 mal \u00e9 dos Outros e n\u00e3o da m\u00e3o que aponta para eles. E defender o pa\u00eds \u00e9 defender uma vers\u00e3o completamente fabricada da hist\u00f3ria porque aprender hist\u00f3ria como deve ser d\u00e1 muito trabalho e essa vers\u00e3o \u00e9 mais emocionante. Pois bem, \u00e9 preciso salvar a cultura portuguesa da influ\u00eancia isl\u00e2mica? Comecem ent\u00e3o por adoptar outro sistema num\u00e9rico, perder bastantes palavras, bastantes avan\u00e7os cient\u00edficos, grande parte da arquitectura algarvia e alentejana que tanto encanta os turistas (esses tamb\u00e9m s\u00e3o Nossos), e tentem desemaranhar os \u00faltimos 1200 anos de hist\u00f3ria do ADN portugu\u00eas para ver o que querem manter nos genomas e o que querem tirar, com uma pin\u00e7a se calhar ou com uma tenaz. Por quem sois, estejam \u00e0 vontade. Ou ent\u00e3o admitam que o que verdadeiramente assusta \u00e9 a ideia de que N\u00f3s n\u00e3o somos o centro do universo, e que tudo na vida tem uma complexidade que acham desconfort\u00e1vel. Face a isto, t\u00e3o abstracto e dif\u00edcil de destrin\u00e7ar, a reac\u00e7\u00e3o violenta a tudo o que \u00e9 diferente e estranho \u00e9 f\u00e1cil de vender como alternativa. E \u00e9 mesmo uma venda, com publicidade nos telejornais e em cada manchete alarmista e desinforma\u00e7\u00e3o descarada. Cada vez que se cai no apelo ao medo do que foge \u00e0s normas, est\u00e1-se a comprar essas normas e esse medo, e a pagar a quem os p\u00f4s \u00e0 nossa frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas aprender sobre os outros n\u00e3o tem de ser dif\u00edcil, nem tem de ser algo que se faz por dever. A luta contra o obscurantismo \u00e9 das mais prazerosas que h\u00e1, uma vida de descobrir coisas novas. Parece uma frase bacoca mas isto sim \u00e9 o que se deve dizer \u00e0s crian\u00e7as, antes que se tornem lacaias de uma ideologia que se aproveita da ignor\u00e2ncia delas para fazer o que quiser, at\u00e9 aproveitar-se delas pr\u00f3prias (nas palavras do escritor Adrian Bott: \u201c\u2019Nunca pensei que fossem comer a minha cara!\u2019, diz mulher que votou no partido dos Leopardos Que Comem Caras.\u201d) \u00c9 de pequenino que se torce o pepino e se aprende que aprender e ter os olhos abertos para o mundo pode ser um bom passatempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa nota que parece n\u00e3o ter nada a ver, celebrou-se esta semana, no dia 23 de Janeiro, o Dia da Escrita \u00e0 M\u00e3o. Numa actividade proposta pel\u2019Odezanovedejunho, imigrantes pais de alunos do Agrupamento de Escolas da Zona Urbana da Figueira da Foz foram \u00e0 escola ensinar a crian\u00e7as a escrever nas suas l\u00ednguas, nos seus alfabetos. Escreveram palavras simb\u00f3licas, como \u201cpaz\u201d, em portugu\u00eas, castelhano, \u00e1rabe, russo, ucraniano, kimbundu, maia, entre outras l\u00ednguas, guiados pela m\u00e3o de quem as sabe e que alinhou em partilhar um bocadinho da sua cultura com as gera\u00e7\u00f5es mais novas; e algumas crian\u00e7as viram em primeira m\u00e3o que o russo n\u00e3o envenena, o \u00e1rabe n\u00e3o queima, o kimbundu n\u00e3o morde. Assim se avan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/strong> <em>A cria\u00e7\u00e3o do mundo em seis dias<\/em> (1152), de Hildegarde von Bingen (1098-1179)<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Carolina Campos Tenho andado a ler sobre medicina do s\u00e9culo XIII. Podia dar-me para pior. Especificamente sa\u00fade feminina \u2013 muitos homens a falarem do que n\u00e3o sabiam. 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