{"id":1781,"date":"2026-03-06T10:41:43","date_gmt":"2026-03-06T10:41:43","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1781"},"modified":"2026-03-06T10:41:43","modified_gmt":"2026-03-06T10:41:43","slug":"manuel-filipe-um-precursor-do-neo-realismo-esquecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1781","title":{"rendered":"Manuel Filipe: um precursor do neo-realismo esquecido"},"content":{"rendered":"\n<p>Continua a decorrer o ciclo de confer\u00eancias sobre Arqueologia que o Munic\u00edpio da Figueira da Foz promove em parceria com a Associa\u00e7\u00e3o Viver em Alegria e a Livraria do Largo. A edi\u00e7\u00e3o deste ano \u00e9 tamb\u00e9m a primeira a incluir temas de Arte, uma vertente que foi inaugurada esta quarta-feira com <strong>\u201dManuel Filipe: Da obra ao negro \u00e0s cores da Liberdade\u201d<\/strong>, por Pedro Ferr\u00e3o e Fernanda Alves, especialistas em Hist\u00f3ria da Arte e conservadores do Museu Nacional de Machado de Castro. Seguiu-se a esta palestra a inaugura\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o \u201c<strong>Da Obra ao Negro \u00e0s Cores da Liberdade\u201d<\/strong>, que estar\u00e1 patente no Museu at\u00e9 dia 25 de Abril.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro Fraz\u00e3o come\u00e7ou por explicar a origem do projecto: uma ideia de assinalar os 50 anos do 25 de Abril no Museu Nacional Machado de Castro, que parecia condenada por falta de acervo ligado ao tema, at\u00e9 ser salva ao encontrarem doa\u00e7\u00f5es de obras de Manuel Filipe nas reservas. Achamos n\u00f3s que parece um evento simb\u00f3lico: Manuel Filipe, revolucion\u00e1rio subvalorizado, permite celebrar o esp\u00edrito de Abril atrav\u00e9s duma exposi\u00e7\u00e3o que ao mesmo tempo o resgata do esquecimento nos anais da hist\u00f3ria da arte portuguesa. Quem foi ent\u00e3o Manuel Filipe?<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 30 e 40 do s\u00e9culo XX surgiu em Portugal o movimento neo-realista, uma nova era que brotou de ideias que j\u00e1 circulavam desde o s\u00e9culo XIX de que a arte podia servir para mais que o belo e para falar de mais do que as partes da vida que eram consideradas (por quem?) belas, que podia falar da vida comum e dos trabalhadores. O modernismo misturou-se com o expressionismo alem\u00e3o, com o que veio a ser chamado o realismo social, e o resultado em Portugal manifestou-se primeiro, como muitas outras coisas, na literatura. Nomes como Soeiro Pereira Gomes, Joaquim Namorado, Fernando Namora, Alves Redol, Carlos de Oliveira, viraram-se para viv\u00eancias que at\u00e9 a\u00ed eram normalmente consideradas impr\u00f3prias para retratos, e o movimento come\u00e7ou logo a ganhar uma for\u00e7a est\u00e9tica nas capas dos seus livros. Entre os artistas ligados a esta corrente liter\u00e1ria estavam J\u00falio Pomar, Marcelino Vespeira, \u00c1lvaro Cunhal, e Manuel Filipe. Era, nas palavras de J\u00falio Pomar, arte \u201cdo povo, para o povo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Manuel Filipe (1908-2002) estreou-se na arte com a Fase Negra, a primeira de tr\u00eas em que a sua obra se divide. Como resposta a relatos de uma das maiores atrocidades da hist\u00f3ria da Humanidade, a 2\u00aa Guerra Mundial, Filipe come\u00e7ou em 1942 uma s\u00e9rie de desenhos a carv\u00e3o de refugiados, \u00f3rf\u00e3os, trabalhadores exaustos, as v\u00edtimas da crueldade do seu tempo. S\u00e3o desenhos fortes, tristes, que obrigavam quem os via a enfrentar os problemas da sociedade, e que almejava a um papel da arte no reconhecimento de vidas humanas para l\u00e1 da imagem propagada pelo Estado Novo. Como se poder\u00e1 adivinhar, n\u00e3o foram bem recebidos nas exposi\u00e7\u00f5es que os revelaram ao p\u00fablico: foram criticados em Coimbra, vandalizados no Porto, e levaram as portas a fechar mais cedo que o previsto em Braga. Em 1947, Manuel Filipe foi \u201caconselhado\u201d (ap\u00f3s uma deten\u00e7\u00e3o pela PIDE) a \u201cdeixar-se de provoca\u00e7\u00f5es\u201d, ou arriscava perder o seu emprego como professor de desenho em Leiria.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 voltou a pintar em 1962 \u2013 uma nova fase que durou at\u00e9 1974, a Fase Interm\u00e9dia. J\u00e1 com cores, mas muitas delas frias, muitos brancos, azuis, cinzentos, pretos, pintou muitas paisagens do Alentejo, ou como lhe chamou, o Al\u00e9m-Tejo. O 25 de Abril deu in\u00edcio \u00e0 sua \u00faltima fase, denominada por Joaquim Namorado a Fase Colorida, mais abstracta, com um novo f\u00f4lego mas um optimismo resguardado, sem perder de vista problemas que estavam ainda por resolver.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro Fraz\u00e3o relatou o percurso da obra de Filipe, do carv\u00e3o \u00e0s cores, da censura \u00e0s \u201ccores da liberdade\u201d, dando sempre destaque ao cerne da sua miss\u00e3o: afirmar Manuel Filipe com um dos grandes precursores do neo-realismo em Portugal, lugar que n\u00e3o lhe tem sido dado numa injusta subvaloriza\u00e7\u00e3o da sua obra. A exposi\u00e7\u00e3o agora patente no Museu Municipal Santos Rocha, tornada poss\u00edvel atrav\u00e9s de uma colabora\u00e7\u00e3o do Museu Nacional Machado de Castro com o Plano Nacional das Artes, o Munic\u00edpio de Condeixa \u2013 de onde Manuel Filipe era natural \u2013 e o PO.RO.S &#8211; Museu Portugal Romano em Sic\u00f3, acrescentou ao passar pela Figueira algumas obras que c\u00e1 estavam, tamb\u00e9m relegadas \u00e0s reservas. Podem ser vistas no nosso Museu durante os pr\u00f3ximos dois meses.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto aos temas de Arte do ciclo, continuar\u00e3o nas pr\u00f3ximas duas semanas com as seguintes palestras:<\/p>\n\n\n\n<p>11 de Mar\u00e7o \u2013 <strong>\u201cJo\u00e3o Afonso: Um mestre dos sinos que se tornou escultor\u201d<\/strong>, por Carla Gon\u00e7alves, Professora da Universidade Aberta e investigadora do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ci\u00eancias do Patrim\u00f3nio da Universidade de Coimbra;<br>18 de Mar\u00e7o \u2013 <strong>\u201cTestemunhos materiais da presen\u00e7a de Portugal na \u00c1sia nos s\u00e9culos XVI a XVIII: As colchas de motivos bot\u00e2nicos ao modo da \u00cdndia e da P\u00e9rsia do Museu Municipal Santos Rocha\u201d<\/strong>, por Ana Barros Ferraz, mestre em Hist\u00f3ria da Arte da \u00c9poca moderna, especialista em t\u00eaxteis orientais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continua a decorrer o ciclo de confer\u00eancias sobre Arqueologia que o Munic\u00edpio da Figueira da Foz promove em parceria com a Associa\u00e7\u00e3o Viver em Alegria e a Livraria do Largo. 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