{"id":1784,"date":"2026-03-15T08:31:24","date_gmt":"2026-03-15T08:31:24","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1784"},"modified":"2026-03-15T08:32:09","modified_gmt":"2026-03-15T08:32:09","slug":"joao-afonso-um-escultor-de-quatrocentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1784","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Afonso, um escultor de quatrocentos"},"content":{"rendered":"\n<p>Decorreu esta quarta-feira a pen\u00faltima confer\u00eancia, a segunda sobre temas de arte, da 10\u00aa edi\u00e7\u00e3o do ciclo sobre Arqueologia e Arte, que os servi\u00e7os culturais do Munic\u00edpio da Figueira da Foz promovem em parceria com a Associa\u00e7\u00e3o Viver em Alegria e a Livraria do Largo. Carla Gon\u00e7alves, Professora da Universidade Aberta e investigadora do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ci\u00eancias do Patrim\u00f3nio da Universidade de Coimbra, apresentou <strong>\u201cJo\u00e3o Afonso: Um mestre dos sinos que se tornou escultor\u201d<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira vez que historiadores da arte portuguesa ouviram falar de Jo\u00e3o Afonso foi atrav\u00e9s do t\u00famulo de D. Fern\u00e3o Gomes de Goes, um nobre que foi, por exemplo, cavaleiro-mor de D. Jo\u00e3o I na conquista de Ceuta. O seu t\u00famulo est\u00e1 datado de 1440 e assinado, coisa rara para a \u00e9poca, pelo artista que o fez: \u201cMestre dos sinos Jo\u00e3o Afonso\u201d. Carla Gon\u00e7alves percorreu a lista de factos que isto revelou: primeiro, que Jo\u00e3o Afonso seria de uma mentalidade quase moderna como artista e reconhecido como tal, para lhe ser permitido assinar a sua obra. Segundo, seria um artista de elei\u00e7\u00e3o para t\u00famulos, dado que este foi, evidente pela data, encomendado d\u00e9cadas antes da morte de D. Fern\u00e3o Gomes de Goes. Ficou portanto a pairar o mist\u00e9rio do porqu\u00ea de ele se identificar como \u201cmestre de sinos\u201d e n\u00e3o \u201cimagin\u00e1rio\u201d, como eram chamados os escultores.<\/p>\n\n\n\n<p>Por esta altura os of\u00edcios ainda n\u00e3o eram regimentados como viriam a ser no s\u00e9culo seguinte, portanto o que se pode dizer sobre um \u201cmestre de sinos\u201d, ou sineiro, \u00e9 que saberia fazer os moldes, fundir os sinos, produzir as ligas de metal que resultavam em sons espec\u00edficos, e teria ouvido para esses sons. E sabe-se que os sinos nesta \u00e9poca eram produzidos em fossos perto dos campan\u00e1rios que eram destru\u00eddos logo a seguir, para guardar \u201cos segredos do of\u00edcio\u201d: os sinos governavam a vida das pessoas ao marcar as horas e assinalar nascimentos, mortes, missas, tudo \u2013 eram benzidos depois de feitos porque eram tidos como estando a \u201cdar voz a Deus\u201d, fazer sinos era um trabalho muito importante. Este Jo\u00e3o Afonso, sobre cuja vida at\u00e9 agora n\u00e3o se sabe nada, teria ent\u00e3o uma forma\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica, e ter\u00e1 sido primeiro sineiro e s\u00f3 mais tarde imagin\u00e1rio. Da\u00ed a assinatura.<\/p>\n\n\n\n<p>Carla Gon\u00e7alves deu esta introdu\u00e7\u00e3o a Jo\u00e3o Afonso e depois saltou no tempo para falar da hist\u00f3ria da arte portuguesa que nos levou a ele, e dos efeitos da sua obra que se repercutiram na escultura dos v\u00e1rios s\u00e9culos seguintes \u2013 a chamada \u201cirradia\u00e7\u00e3o\u201d. A m\u00e3o das Virgens do Leite que segura o p\u00e9 do menino numa determinada posi\u00e7\u00e3o, a forma como a m\u00e3o de outras Virgens ampara o menino ao seu colo, aquilo a que ela chama o \u201car de fam\u00edlia\u201d da fisionomia das caras, estas e outras marcas tornam figuras reconhec\u00edveis como obra de Jo\u00e3o Afonso, e j\u00e1 foram identificadas obras suas do Alentejo a Santiago de Compostela.<\/p>\n\n\n\n<p>Por entre explica\u00e7\u00f5es de tudo isto, a confer\u00eancia foi tamb\u00e9m uma aula sobre como \u00e9 feito o estudo da hist\u00f3ria da arte. Tudo o que se consegue aprender sobre a vida quotidiana ao longo da hist\u00f3ria, como que penteados foram estando na moda, pode ajudar a datar obras. Oficinas podiam ter v\u00e1rias pessoas a trabalhar na mesma pe\u00e7a, obras iniciais e menos desenvolvidas de um artista podem ser confundidas com irradia\u00e7\u00f5es e \u00e9 sempre arriscado afirmar sem sombra de d\u00favidas que m\u00e3os fizeram uma pe\u00e7a, nobres foram acumulando colec\u00e7\u00f5es particulares sem se preocuparem muito com a proveni\u00eancia do que l\u00e1 tinham. Por isto e mais ainda, muito de estudar a hist\u00f3ria da arte num pa\u00eds como Portugal, em que muito pouco valor foi sendo dado \u00e0 arte e muito pouco foi sendo registado, \u00e9 especular. \u00c9 acima de tudo uma quest\u00e3o de ter no\u00e7\u00e3o dos limites do m\u00e9todo, e de fazer o que se puder para chegar \u00e0s especula\u00e7\u00f5es mais informadas e ponderadas poss\u00edvel. Sem nunca perder de vista que as obras que comp\u00f5em a hist\u00f3ria da arte n\u00e3o s\u00e3o apenas objectos, s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de como as pessoas pensavam e viviam, s\u00e3o reflexos da hist\u00f3ria da Humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Carla Gon\u00e7alves destacou que as imagens dos Santos e Virgens a que Jo\u00e3o Afonso se dedicou estavam inseridas num mundo de significados muito tang\u00edvel para quem nele vivia: quando surgia uma nova corrente art\u00edstica e se perdia o apego a determinadas esculturas elas eram \u201cdessacralizadas\u201d, partidas para perderem o seu poder e ele ser retido nas novas: como Gon\u00e7alves disse por v\u00e1rias vezes, as imagens eram \u201cmortas\u201d, porque antes disso estavam como que vivas. E ela acrescentou tamb\u00e9m que outra forma de matar uma escultura \u00e9 um mau restauro ou uma pintura que achata as formas e esconde o trabalho do escultor. Sendo assim, estamos todos rodeados de figuras mortas, j\u00e1 que em qualquer terra h\u00e1 Santos pintados assim. Cabe-nos a n\u00f3s tentar olhar atrav\u00e9s da tinta para o que est\u00e1 por baixo, e ver l\u00e1 o passado da arte portuguesa e, contido nele, a humanidade da hist\u00f3ria, que \u00e9 no fundo o que aquilo a que a disciplina da hist\u00f3ria pretende chegar. E talvez criar um Portugal onde se d\u00ea mais valor \u00e0 arte, tanto do passado como do presente.<\/p>\n\n\n\n<p>No concelho da Figueira, podem-se ver obras de Jo\u00e3o Afonso, pintadas, na Igreja do Senhor da Paci\u00eancia em Maiorca e na Igreja de S. Pedro nas Alhadas (o mestre tamb\u00e9m passou por aqui), e outras, sem tinta, no Museu Municipal Santos Rocha, mesmo em frente \u00e0 entrada para a exposi\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao ciclo de confer\u00eancias, concluir\u00e1 na pr\u00f3xima quarta-feira, 18 de Mar\u00e7o, com <strong>\u201cTestemunhos materiais da presen\u00e7a de Portugal na \u00c1sia nos s\u00e9culos XVI a XVIII: As colchas de motivos bot\u00e2nicos ao modo da \u00cdndia e da P\u00e9rsia do Museu Municipal Santos Rocha\u201d<\/strong>, por Ana Barros Ferraz, mestre em Hist\u00f3ria da Arte da \u00c9poca moderna, especialista em t\u00eaxteis orientais.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Imagem: <\/strong>Calv\u00e1rio e Santa Catarina de Jo\u00e3o Afonso no Museu Municipal Santos Rocha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decorreu esta quarta-feira a pen\u00faltima confer\u00eancia, a segunda sobre temas de arte, da 10\u00aa edi\u00e7\u00e3o do ciclo sobre Arqueologia e Arte, que os servi\u00e7os culturais do Munic\u00edpio da Figueira da Foz promovem em parceria com a Associa\u00e7\u00e3o Viver em Alegria e a Livraria do Largo. 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