{"id":1800,"date":"2026-04-11T07:20:48","date_gmt":"2026-04-11T07:20:48","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1800"},"modified":"2026-04-11T07:20:48","modified_gmt":"2026-04-11T07:20:48","slug":"rako-1946-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1800","title":{"rendered":"Rako (1946-2026)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>O artista pl\u00e1stico Reinaldo Ant\u00f3nio Costa, conhecido por Rako, faleceu de doen\u00e7a prolongada aos 80 anos no Brasil, onde residia desde h\u00e1 alguns anos. A not\u00edcia foi divulgada pela Associa\u00e7\u00e3o Magenta, da qual foi s\u00f3cio-fundador.<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size wp-block-paragraph\"><strong><em>O TRIUNFO DO CAMINHANTE<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>por Chuva Vasco<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sujeito-artista que caminha \u00e9 aquele que descobre e se maravilha, se deslumbra com a natureza das coisas, e das pessoas. O sujeito-artista que caminha \u00e9 aquele que explicita para o mundo a sua mundivid\u00eancia, l\u00f3gica para si, antin\u00f3mica para os outros. Para ele, a obra de arte n\u00e3o \u00e9 uma ideia que surge do nada, ou resultante da inspira\u00e7\u00e3o brilhante de um indiv\u00edduo isolado. Ele desacredita o conceito de g\u00e9nio e, ao contr\u00e1rio, insiste nas influ\u00eancias do passado que alimentam o processo de cada criador.&nbsp;Toda a hist\u00f3ria, todo o passado nos precede, e o artista s\u00f3 tira desta tradi\u00e7\u00e3o viva, um conjunto de refer\u00eancias pr\u00e9-existentes, j\u00e1 pensadas e modeladas pelos seus antecessores. Por isso, Rako (1946-2026) \u00e9 esse sujeito caminhante, que nutre uma fervorosa paix\u00e3o pelas coisas belas, um amor m\u00fatuo pela arte e pelo material, uma admira\u00e7\u00e3o inef\u00e1vel pelo passado, pela hist\u00f3ria e a hist\u00f3ria da arte em particular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ele, cada indiv\u00edduo acumula apenas um conjunto de palavras, pensamentos e gestos herdados do passado, que o move, acompanha e lhe d\u00e1 profundidade.&nbsp;As suas viagens permitiram-lhe, ap\u00f3s o \u201c25 de Abril\u201d, contactar com as mais recentes produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, e conhecer profundamente a cultura africana, espanhola, tantos outros pa\u00edses Europeus e o Brasil, pa\u00eds com o qual alternou a sua resid\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mito de uma ideia absolutamente individual que iluminaria a nossa mente \u00e9 mera utopia. Assim, percebemos que a obra de Rako baseia-se numa compila\u00e7\u00e3o de leituras, notas e fragmentos em torno dos quais se desenvolvem as suas ideias norteadoras. Na verdade, \u00e9 tudo uma quest\u00e3o de v\u00ednculos, rela\u00e7\u00f5es e conex\u00f5es, fundadas em viagens e leituras de Marx (evidenciado pela luta de classes), de Mao (aprisionado \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o cultural), de Tolstoi (sobre a purifica\u00e7\u00e3o da arte), mas tamb\u00e9m em Pauline R\u00e9age (pseud\u00f3nimo&nbsp;de Anne Desclos) quando nos explora as quest\u00f5es femininas, t\u00e3o presentes nalguma das suas obras (e.g. \u201cMulher luta pela igualdade\u201d).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os seus primeiros trabalhos chamam a aten\u00e7\u00e3o e assumem um car\u00e1ter especial,&nbsp;atestando o apego do artista \u00e0s suas origens, bem impresso numa arte social, que quase se op\u00f5e \u00e0 ideia parnasianista de \u201carte pela arte\u201d. Interveniente na sociedade, os eventos dos anos 60 e 70 conduziram-no a reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, culturais e sociais, tendo contribu\u00eddo como cartoonista no jornal humor\u00edstico angolano \u201cMiau\u201d (1965), mas tamb\u00e9m, no p\u00f3s \u201c25 de Abril\u201d na produ\u00e7\u00e3o de cartazes, folhetos e slogans de car\u00e1cter pol\u00edtico-social de pacifica\u00e7\u00e3o dos movimentos de independ\u00eancia de Angola: Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (MPLA), Uni\u00e3o Nacional para a Independ\u00eancia Total de Angola (UNITA) e Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (FNLA).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com refer\u00eancias consistentes dos anos 1960 at\u00e9 \u00e0 actualidade, a sua obra tra\u00e7a cinco d\u00e9cadas de cria\u00e7\u00e3o, reunindo o <em>cr\u00e8me de la cr\u00e8me<\/em> da sua vasta obra. Contactar com Rako, \u00e9 cair estranhamente nas ant\u00edpodas do expect\u00e1vel, ao mesmo tempo deslumbrantes e comoventes.&nbsp;Ao contr\u00e1rio da alegoria da caverna de Plat\u00e3o, passamos da luz \u00e0 sombra, entramos no seu mundo pl\u00e1stico-visceral, mas \u00e9 tamb\u00e9m a\u00ed que se desventra e se desvenda. O seu mundo medeia entre uma dada figura\u00e7\u00e3o inicial, <em>incipit<\/em> da sua carreira, e a abstra\u00e7\u00e3o pura, orientada pelo grau zero malevichiano. O artista n\u00e3o mostra falta de imagina\u00e7\u00e3o precisamente por n\u00e3o se limitar a uma \u00fanica iconografia pl\u00e1stica. Possui uma diacronia que oscila entre a Figura\u00e7\u00e3o Expressionista, at\u00e9 \u00e0 sua Anti-arte, passando por per\u00edodos que nos lembram algumas vanguardas europeias, a Color Field Painting, a Arte Povera, o Informalismo Europeu, mas tamb\u00e9m, ao observarmos algumas pinturas, n\u00e3o nos podemos desvincular de algumas caracter\u00edsticas fundamentais, sentido frio e austero, contornos r\u00edgidos, representa\u00e7\u00e3o s\u00f3bria, que combinam perfeitamente com a defini\u00e7\u00e3o do Minimalismo. Um artista que flutua entre a tradi\u00e7\u00e3o e a altermodernidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O seu trabalho forma uma diacr\u00f3nica dial\u00e9tica inextric\u00e1vel entre cria\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o, servindo de pretexto \u00e0 materializa\u00e7\u00e3o de uma ideia, onde o subjectivo e o objectivo estabelecem o seu ponto de incid\u00eancia e de fus\u00e3o, onde nada pode ser retirado ou adicionado. Cada detalhe torna-se signo. Ele vence a pregui\u00e7a rotineira do nosso esp\u00edrito, objectivando os mecanismos \u00edntimos da natureza, quer dizer, abstractizando as coisas sem anular a sua projec\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o. Rako prop\u00f5e-nos composi\u00e7\u00f5es onde a vida, para melhor se afirmar, desvenda uma realidade at\u00e9 aqui desconhecida. \u00c9 um passeio magistral por um labirinto de palavras (e.g. \u201cAbstrac\u00e7\u00e3o dos sentidos para gozo da lucidez\u201d) e materiais (e.g. \u201c\u00c0 volta do vidro\u201d), que faz o fruidor dan\u00e7ar num t\u00e9nue fio entre a mem\u00f3ria e o esquecimento, o peso e a leveza. Noutros casos, a linguagem desenvolvida por Rako multiplica e cruza os mais variados padr\u00f5es est\u00e9ticos, num estilo ao mesmo tempo burlesco, cru e inquietante.&nbsp;Ao ampliar universos radicalmente diferentes, o artista quebra todas as categoriza\u00e7\u00f5es, dogmas e proibi\u00e7\u00f5es estabelecidas, e por ironia, sequestra frequentemente uma sistem\u00e1tica par\u00f3dia subversiva, objeto de s\u00e1tira feroz (e.g. \u201c\u00c9 uma flor com o credo na boca\u201d)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este sujeito caminhante, objectivo no encontro com a vida, torna-se ele pr\u00f3prio totalmente intransitivo para a sociedade, e subjectivo para o mundo. Nas palavras de Rimbaud, autodenominar-se-ia <em>Je est un autre<\/em>. Mas outro eu? Rako descobre-se num outro n\u00f3s, no que de n\u00f3s cabe \u00e0 arte, do que de n\u00f3s faz o Rako, revelando o mundo f\u00edsico, no esp\u00edrito, para todos n\u00f3s a partir do desconhecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele explora a mat\u00e9ria e a cor com desconcertante facilidade. O uso da cor lembra-nos algumas refer\u00eancias iniciais a Horst Antes, e Sandro Chia, mas \u00e9 totalmente insepar\u00e1vel da sobriedade de Anselm Kiefer. Por outro lado, existe uma marcante materialidade pr\u00f3xima de De Kooning, contudo, quanto mais avan\u00e7amos na compreens\u00e3o da sua obra, mais identificamos os motivos inspiradores, seja na exuber\u00e2ncia da sua pintura ou no trabalho do material, ou ainda, na recusa em pertencer a um movimento marcante figurativo ou abstrato. Convir\u00e1 real\u00e7ar que n\u00e3o se trata de conceber a arte como algo extraordin\u00e1rio, n\u00e3o s\u00e3o grandes manifesta\u00e7\u00f5es ou egos espelhados na tela: a sua pr\u00e1tica \u00e9 prudente, discreta e tranquila, colocada ao servi\u00e7o do quotidiano. Esta serenidade pode ser encontrada em toda a sua geografia pl\u00e1stica, onde tudo \u00e9 mod\u00e9stia, desde a rigorosa geometria das formas \u00e0 suavidade dos tons escolhidos, passando pela simplicidade dos materiais utilizados. Mas o que \u00e9 surpreendente \u00e9 que nada parece austero, como se, gra\u00e7as \u00e0 r\u00edgida ortodoxia que caracteriza o seu trabalho, ele tivesse conseguido extrair a ess\u00eancia da calma. Poesia matem\u00e1tica, podemos dizer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Artista, n\u00e3o totalmente dialogante, por vezes rizom\u00e1tico, s\u00f3 se consegue conhecer, a partir do seu caos vital onde n\u00e3o se co\u00edbe de autorretratar-se (e.g. \u201cEu sou o caos\u201d). Homem de uma cultura incomum, noct\u00edvago de whiskey refinado,&nbsp;o seu conhecimento art\u00edstico, e s\u00edntese criativa s\u00e3o levados a um n\u00edvel superior, tendo marcado presen\u00e7a nos maiores concursos nacionais de arte. Artista residente do extinto Centro de Arte de Buarcos e da Galeria da M\u00e1 L\u00edngua (1997-1998); integrante do grupo PSL \u2013 Pintores Sem Limites e do grupo Art Portugal (Lisboa, 2004); co-fundador da Galeria Augusto Pereira (Montemor-o-Velho, 1998); e s\u00f3cio-fundador da Associa\u00e7\u00e3o Magenta (Figueira da Foz, 2003), nutre desde o in\u00edcio um fervoroso interesse pela colectividade art\u00edstica e pelas celeum\u00e1ticas tert\u00falias intelectuais que versam sobre diferenciados temas. Ele n\u00e3o deixou de nos surpreender e de nos fazer pensar, este artista, Jovem no pensamento, onde o cora\u00e7\u00e3o, o c\u00e9rebro e a m\u00e3o, t\u00eam a coragem de conduzir \u00e0 maturidade, uma express\u00e3o de arte que situa a nossa \u00e9poca. Uma arte carregada do melhor dos legados, mas simultaneamente inteiramente pessoal e livre, cuja mensagem, para al\u00e9m de alegria, de luz, e de cren\u00e7a na vida, acordada no quadro desta exposi\u00e7\u00e3o, ir\u00e1 amplificar-se para continuar a sua busca, incessante, dif\u00edcil \u00e9 certo, da beleza e felicidade universal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O m\u00e9rito de Rako \u00e9 oferecer-nos, como resultado das suas explora\u00e7\u00f5es e das experi\u00eancias da\u00ed resultantes, um tesouro de cria\u00e7\u00f5es \u00fanicas, onde uma emotividade moderna consegue restituir todo o seu brilho. Sim, essas obras lembram-nos, por um lado, a beleza viva do que foi criado em tempo antanho, dos gestos art\u00edsticos humanos atrav\u00e9s de um labirinto de signos, por outro, do h\u00famus da nossa mem\u00f3ria, soltam-se imagens envoltas em neblina, subindo na nossa consci\u00eancia, e iluminam-se de forma distinta, encantando-nos pela resson\u00e2ncia e actualidade das suas cria\u00e7\u00f5es, numa palavra, pela sua contemporaneidade pl\u00e1stica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O artista pl\u00e1stico Reinaldo Ant\u00f3nio Costa, conhecido por Rako, faleceu de doen\u00e7a prolongada aos 80 anos no Brasil, onde residia desde h\u00e1 alguns anos. A not\u00edcia foi divulgada pela Associa\u00e7\u00e3o Magenta, da qual foi s\u00f3cio-fundador. O TRIUNFO DO CAMINHANTE por Chuva Vasco . 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