{"id":1809,"date":"2026-04-25T06:28:38","date_gmt":"2026-04-25T06:28:38","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1809"},"modified":"2026-04-25T06:28:38","modified_gmt":"2026-04-25T06:28:38","slug":"um-ano-em-revista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1809","title":{"rendered":"Um ano em revista"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Carolina Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A Passarola faz um ano hoje. Ach\u00e1mos que fazia sentido ela levantar voo neste dia, com <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=736\">um artigo simb\u00f3lico<\/a> e tudo. Assim \u00e9 neste dia que todos os anos olhamos (olharemos) \u00e0 nossa volta e fazemos um balan\u00e7o. Da Passarola e n\u00e3o s\u00f3. Vamos l\u00e1 ver.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 duas elei\u00e7\u00f5es atr\u00e1s conseguimos um feito impressionante como pa\u00eds: tantos deputados de extrema-direita no parlamento como anos passados desde o 25 de Abril. Hoje, aos cinquenta e dois anos de democracia, a extrema-direita j\u00e1 a ultrapassou, com sessenta deputados. Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco teve a generosidade para com os descontentes do futuro de incluir no FMI frases para tudo, e a que se podia citar aqui \u00e9: \u201c<em>Uma porra p\u00e1, um aut\u00eantico desastre o 25 de Abril<\/em>\u201d. Ou ent\u00e3o estas: <em>\u201cAs conquistas de Abril! Eram s\u00f3 paleio a partir do momento que tas come\u00e7aram a tirar e tu ficaste quietinho, n\u00e9 filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabe\u00e7a na areia. N\u00e3o \u00e9 nada comigo, n\u00e3o \u00e9 nada comigo, n\u00e9? E os da frente que se lixem.<\/em>\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pois aqui estamos. N\u00f3s os que est\u00e1vamos \u00e0 frente, e agora estamos a ir recuando mais e mais na escala do progresso, a debater muito sobre as elei\u00e7\u00f5es na Hungria mas falando s\u00f3 das pol\u00edticas externas de Orb\u00e1n antes que as internas envergonhem de t\u00e3o familiares que parecem, cada vez mais. Mas n\u00e3o h\u00e1 mal em ficar para tr\u00e1s a afundar na lama da crise econ\u00f3mica e da crise da habita\u00e7\u00e3o e do emprego prec\u00e1rio e do desemprego cr\u00f3nico e do preconceito mesquinho porque os estrangeiros v\u00eam c\u00e1 na mesma no Ver\u00e3o para as praias e as carteirinhas bonitinhas de corti\u00e7a. E h\u00e1 actrizes portuguesas em Hollywood! \u201c<em>Entret\u00e9m-te filho e vai para a cama descansado que h\u00e1 milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante enquanto tu adormeces a n\u00e3o pensar em nada.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Isto soa tudo muito pessimista, mas \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o o ser. Percorrendo o primeiro ano de publica\u00e7\u00f5es da Passarola e os males do mundo para que apontou o dedo, muito continua na mesma. O <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1195\">\u201cGenoc\u00eddio em Curso\u201d<\/a> continua em curso. Os versos <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1671\">que cit\u00e1mos<\/a> da poetisa palestiniana sediada em Portugal Shahd Wadi continuam a ser verdade: \u201c<em>Tamb\u00e9m neste abril, meio ano depois, n\u00e3o \/ haver\u00e1 exporta\u00e7\u00e3o de cravos de Gaza. \/ \u00d3 mundo, aprende os nomes dos n\u00fameros. \/ Antes do bloqueio, Gaza enviava ao mundo mais \/ de quarenta milh\u00f5es de cravos por ano<\/em>.\u201d Ali\u00e1s, nesse mesmo artigo cit\u00e1mos tamb\u00e9m Marjane Satrapi sobre a necessidade de solidariedade entre americanos e iranianos, e olhemos para as not\u00edcias agora. De mal a pior, e os ca\u00e7as americanos, assassinos b\u00e1rbaros, concedem a Portugal a honra gloriosa de lhes dar poiso nas Lajes, \u00f3-p\u2019ra-n\u00f3s-que-os-topo-de-gama-poisam-aqui, e voltamos ao FMI\u201c<em>e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o bra\u00e7o, meio Rol\u00e3o Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu.<\/em>\u201d Tudo numa boa com os \u201c<em>milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de pol\u00edcia secreta, telefones, carros de assalto, ex\u00e9rcitos inteiros, congressos universit\u00e1rios, eu sei l\u00e1! Podes estar descansado que o Teng Hsiao-ping est\u00e1 a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev est\u00e1 a tratar de ti com o Jo\u00e3o Paulo II.<\/em>\u201d Foi tudo escrito h\u00e1 d\u00e9cadas porque o povo portugu\u00eas continua <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1209\">igual a si pr\u00f3prio<\/a>. V\u00e1 l\u00e1, pelo menos <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1266\">o alarido para um novo referendo sobre a lei do aborto<\/a> n\u00e3o deu em nada, por exemplo. Mas no seu lugar temos um novo alarido, desta vez para a descriminaliza\u00e7\u00e3o das terapias de convers\u00e3o. D\u00ea por onde der este pa\u00eds tem um impulso quase magn\u00e9tico para voltar \u00e0 Idade M\u00e9dia. \u00c9 <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1744\">a vit\u00f3ria do obscurantismo<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela Figueira tamb\u00e9m pouco vai mudando, <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1804\">para melhor pelo menos<\/a>. Continua a ser uma terra t\u00e3o avessa a tudo o que fa\u00e7a sentir-se vida no ar que at\u00e9 p\u00f5e em quest\u00e3o o que veio antes. Se calhar s\u00f3 conseguiu ser o ber\u00e7o de tantas figuras fora-da-caixa por ser uma caixa t\u00e3o bafienta que dava vontade de se sair dela, e esses foram os poucos que conseguiram. Talvez a Figueira s\u00f3 tenha dado \u00e0 luz a <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=978\">Fernandes Tom\u00e1s<\/a> e <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1668\">Cristina Torres<\/a> e <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1214\">Joaquim Namorado<\/a> e <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1201\">C\u00e2ndido Costa Pinto<\/a> e outros que tais dando-lhes algo de que fugir com tanta for\u00e7a que eles assim se tornaram quem foram, e a \u00fanica atmosfera viva que c\u00e1 havia era a que eles criavam \u00e0 sua volta. Talvez a ideia da Figueira de antigamente que despoletava cultura e pensamento livre seja uma ilus\u00e3o e isto sempre foi como \u00e9 agora. Se algu\u00e9m souber, n\u00e3o sou eu; quando eu nasci j\u00e1 nem o Caf\u00e9 Nau era como dantes, segundo me dizem. Ainda mal sabia ler legendas quando acabou o Festival de Cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas posso dizer que h\u00e1 vida a tentar brotar na Figueira agora, que nem ervas daninhas entre as pedras da cal\u00e7ada &#8211; das que resistem a ser pisadas, esperamos n\u00f3s. As <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1773\">confer\u00eancias de arqueologia<\/a> e <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1781\">de arte<\/a> de Fevereiro e Mar\u00e7o e quem as organizou, e quem fez <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1763\">as descobertas no Museu<\/a> que l\u00e1 foram apresentadas; os encontros no \u00faltimo domingo de cada m\u00eas no Studio Northfront para quem quer uma Figueira diferente (est\u00e3o todos convidados, quantos mais melhor, s\u00e3o \u00e0s 17h); a exposi\u00e7\u00e3o de fotografia aqui e ali que revela uma nova forma de ver a terra; a lojinha de puzzles que se atreve a fazer coisas novas com as santas imagens da Figueira antiga; as sess\u00f5es de cinema de sexta-feira \u00e0 noite no CAE que se v\u00e3o tornando cada vez mais um evento social para cin\u00e9filos\u2026 pouco a pouco a vida vai brotando nesta terra que se deixou ficar para tr\u00e1s quando o pa\u00eds avan\u00e7ou. A Figueira tinha tanto orgulho em ser <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1236\">a Rainha das Praias<\/a>, com aquela servid\u00e3o inata que mesmo em filmes a preto e branco envergonha, que quando outras praias a substitu\u00edram esse orgulho, atado \u00e0 servid\u00e3o, ficou sem lado nenhum para onde ir e esmoreceu. Mas aleluia que h\u00e1 agora vida nova a descobrir que se n\u00e3o h\u00e1 motivos para gostarmos da nossa terra, pois que se criem, do nada se for preciso. Que se v\u00e1 buscar ao passado o legado dos que nunca fizeram parte desse esp\u00edrito servil colectivo, e se continue o que eles tentaram criar, e se fa\u00e7a novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Vai tudo dar aos mesmos apelos \u00e0 ac\u00e7\u00e3o, ditos e reditos mas que n\u00e3o deixam de ser verdade. Como escreveu Pedro Nunes <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1793\">num dos seus artigos<\/a>, \u201c<em>porque a indiferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 neutralidade \u2014 \u00e9 uma escolha<\/em>\u201d. Algu\u00e9m tem de fazer alguma coisa e passar a pasta a outro foi o que nos trouxe at\u00e9 aqui. Para usar <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1754\">a met\u00e1fora de Charles Rafferty<\/a>, a casa j\u00e1 est\u00e1 em chamas, mas ainda c\u00e1 estamos n\u00f3s. Temos de acreditar que podemos apagar o fogo, e relembrar o tempo em que, como escreveu Ant\u00f3nio Augusto Menano depois do 25 de Abril <a href=\"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1258\">num dos poemas que cedeu \u00e0 Passarola<\/a>, \u201c<em>Os que vinham calados \/ traziam os lugares, os nomes, \/ palavras guardadas h\u00e1 anos \/ Bastava a tabuada da primeira \/ para entender a liberta\u00e7\u00e3o da peste.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Imagem: <\/strong>Figueira da Foz, Postal do 25dAbril (colagem digital), Fernando Campos<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Carolina Campos A Passarola faz um ano hoje. Ach\u00e1mos que fazia sentido ela levantar voo neste dia, com um artigo simb\u00f3lico e tudo. Assim \u00e9 neste dia que todos os anos olhamos (olharemos) \u00e0 nossa volta e fazemos um balan\u00e7o. Da Passarola e n\u00e3o s\u00f3. Vamos l\u00e1 ver. H\u00e1 duas elei\u00e7\u00f5es atr\u00e1s conseguimos um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1814,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"saved_in_kubio":false,"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-1809","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-passarola"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1809","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1809"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1809\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1815,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1809\/revisions\/1815"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1809"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1809"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1809"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}