{"id":1816,"date":"2026-05-01T07:50:32","date_gmt":"2026-05-01T07:50:32","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1816"},"modified":"2026-05-01T07:50:32","modified_gmt":"2026-05-01T07:50:32","slug":"o-homem-que-se-esqueceu-de-como-pensar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=1816","title":{"rendered":"O homem que se esqueceu de como pensar"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Pedro Nunes<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Havia um homem que se esqueceu de como pensar. N\u00e3o foi de uma vez &#8211; n\u00e3o foi um acidente, nem uma doen\u00e7a, nem sequer uma escolha dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os dias entregava um pouco da sua aten\u00e7\u00e3o a algo que pedia com urg\u00eancia, e todos os dias recebia em troca a ilus\u00e3o de que estava mais informado, mais conectado, mais presente no mundo. At\u00e9 que um dia, sentado num banco de jardim, deu por si sem o telem\u00f3vel na m\u00e3o, e ficou em p\u00e2nico. N\u00e3o sabia o que fazer com o sil\u00eancio. N\u00e3o estava preparado para o desconforto sem ter logo uma resposta imediata. A tecnologia tinha colonizado o seu sil\u00eancio. Tinha-se ido o sil\u00eancio e algo mais que n\u00e3o conseguia nomear, algo que fazia parte de n\u00f3s &#8211; o intervalo entre o est\u00edmulo e a resposta onde, durante muito tempo, o pensamento aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Walter Benjamim escreveu sobre o fl\u00e2neur &#8211; uma figura que vagueava pelas galerias de Paris sem destino, deixando que a cidade lhe fosse trabalhando a mente. O fl\u00e2neur existia \u00e0 margem do pensamento e o pensamento se tornava escrita. O fl\u00e2neur dos nossos dias tem os olhos presos ao ecr\u00e3, n\u00e3o viu nada. Caminhou, mas ficou parado.<\/p>\n\n\n\n<p>Bernardo Soares, de Fernando Pessoa, ficava a olhar pela janela do seu escrit\u00f3rio e dessa perspetiva extra\u00eda todo um universo. N\u00e3o precisava de ir a lado nenhum. Tinha o t\u00e9dio, tinha a luz da tarde, tinha os sons da rua. E tinha tempo &#8211; tempo morto que hoje vemos como um desperd\u00edcio. O mundo exige respostas imediatas, e certamente Bernardo Soares seria despedido por falta de produtividade. Mas foi ele quem escreveu o Livro do Desassossego.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 a tecnologia. O problema \u00e9 o que fazemos do espa\u00e7o que ela ocupa. Se n\u00e3o temos espa\u00e7o para o aborrecimento, deixamos de nos poder surpreender com o que quer que seja. O t\u00e9dio \u00e9 a porta de entrada para a imagina\u00e7\u00e3o, \u00e9 o momento que antecede a ideia, quando ainda n\u00e3o sabemos que est\u00e1 para chegar.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem do banco de jardim ficou ali algum tempo. N\u00e3o fez nada &#8211; e isso custou-lhe muito. Sentiu a ansiedade a subir, o impulso de pegar no telem\u00f3vel, de verificar algo, qualquer coisa. E ao fim de um tempo &#8211; come\u00e7ou a ouvir os p\u00e1ssaros. Depois reparou nas nuvens, nos sons das crian\u00e7as que brincavam no parque, pensou que a sua filha de manh\u00e3 tinha-lhe dito que o amava e que ele nem sequer tinha dado grande aten\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fujamos da tecnologia, s\u00f3 n\u00e3o lhe entreguemos todo o sil\u00eancio. Deixemos o t\u00e9dio existir. Pensar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pesquisar. Precisamos de tempo para podermos fazer coisas maravilhosas.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem levantou-se do banco. Ia diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Imagem:<\/strong> Fernando Pessoa flanando no Rossio, Lisboa (algures no s\u00e9culo vinte).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>As opini\u00f5es expressas nos textos da Passarola s\u00e3o da responsabilidade dos(as) autores(as)<\/strong><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Pedro Nunes Havia um homem que se esqueceu de como pensar. N\u00e3o foi de uma vez &#8211; n\u00e3o foi um acidente, nem uma doen\u00e7a, nem sequer uma escolha dele. 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