{"id":978,"date":"2025-05-04T08:30:35","date_gmt":"2025-05-04T08:30:35","guid":{"rendered":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=978"},"modified":"2025-05-04T08:30:35","modified_gmt":"2025-05-04T08:30:35","slug":"memoria-historica-manuel-fernandes-tomas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/odezanovedejunho.pt\/?p=978","title":{"rendered":"mem\u00f3ria hist\u00f3rica &#8211; Manuel Fernandes Tom\u00e1s"},"content":{"rendered":"\n<p><em>por <strong>Fernando Campos<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, aquilo que se chama <em>normal \u00e9<\/em> apenas vulgar e mediano, ou med\u00edocre. N\u00e3o na Figueira da Foz. Este car\u00e1cter de <em>excep\u00e7\u00e3o \u00e0 regra<\/em> da <em>generalidade<\/em> faz da Figueira um local peculiar onde a <em>norma <\/em>\u00e9, <em>de ordin\u00e1rio,<\/em> mais rasa e amorfa do que em outras latitudes, e a excep\u00e7\u00e3o \u00e9, em simult\u00e2neo, de ordem<em> inversa;<\/em> isto \u00e9, tende a ser superlativa, luminosa, magn\u00edfica,\u00a0 excelsa, admir\u00e1vel.<br>H\u00e1 figueirenses &#8211; raros, claro, excepcionais &#8211; que parecem ter nascido e vivido para justificar este paradoxo.<br>A<strong> <u>Passarola<\/u><\/strong> vai evocar alguns deles &#8211; n\u00e3o <em>como exemplo<\/em> &#8211; porque seria desnecessariamente embara\u00e7oso para a bitola figueirense de <em>normalidade<\/em> &#8211; mas como <em>mem\u00f3ria hist\u00f3rica,<\/em> e <em>ilustra\u00e7\u00e3o do paradigma<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Manuel Fernandes Tom\u00e1s (1711-1822)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>\u201cA Religi\u00e3o nasceu com o homem,<\/em><\/strong><br><strong><em>e h\u00e1-de acabar com ele.<\/em><\/strong><br><strong><em>N\u00e3o se espere outra coisa.\u201d<\/em><\/strong><br><strong>Manoel Fernandes Thomaz<\/strong>,<br>in <em>discurso sobre a liberdade de imprensa<\/em>,<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Manoel Fernandes Thomaz*<\/em><\/strong> nasceu a 31 de Julho de 1711 na Rua dos Trope\u00e7\u00f5es, na Figueira da Foz e est\u00e1 sepultado mais abaixo, na Pra\u00e7a Nova, aos p\u00e9s do monumento que lhe foi dedicado, erigido por subscri\u00e7\u00e3o p\u00fablica proposta por quatro oper\u00e1rios figueirenses e inaugurado em 1911. O feriado municipal na Figueira chegou a ser comemorado a 31 de Julho mas, como as revolu\u00e7\u00f5es num pa\u00eds velho e relho como o nosso nunca passam de pequenos sobressaltos na pasmaceira, em menos de tr\u00eas quinze dias voltou tudo a como era dantes (as <em>gentes<\/em> gostam de <em>viver habitualmente<\/em>) e hoje \u00e9 comemorado no dia de um dos santinhos mais populares. Ah, e a Rua dos Trope\u00e7\u00f5es chama-se agora Rua 31, mas <em>de Janeiro<\/em> (n\u00e3o h\u00e1 melhor, para nublar as refer\u00eancias da mem\u00f3ria hist\u00f3rica, do que <em>embaralhar<\/em> datas e eventos).<\/p>\n\n\n\n<p>O nosso Manel era um gajo invulgar, peculiar, excepcional. Ele era um advogado, jurisconsulto &#8211; at\u00e9 chegou a juiz-de-fora, em Arganil &#8211; que n\u00e3o tolerava a injusti\u00e7a, imaginem. Autor de diversos estudos sobre Direito e Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, redigiu o curios\u00edssimo \u201c<em>Repert\u00f3rio Geral ou \u00cdndice Alphabetico das Leis Extravagantes, publicadas depois das Ordena\u00e7\u00f5es, comprehendendo tambem algumas anteriores, que se ach\u00e3o em observancia\u201d<\/em> (1815, 2 volumes) que, como o t\u00edtulo indica, era uma compila\u00e7\u00e3o das leis medievais ainda em vigor no seu tempo, isto \u00e9, j\u00e1 depois do <em>s\u00e9culo das luzes<\/em>. Contudo, mesmo influenciado pelo <em>iluminismo<\/em>, a revolu\u00e7\u00e3o francesa e pelas ideias da <em>Enciclop\u00e9dia<\/em> de Diderot, combateu os <em>franci\u00fas<\/em> &#8211; organizando a resist\u00eancia ao general Junot na Figueira, e chegou mesmo a <em>intendente dos v\u00edveres <\/em>no quartel-general do marechal William Kerr Beresford (um estafermo fachola escolhido a dedo pelo duque de Wellington para comandar o ex\u00e9rcito portugu\u00eas e que depois foi ficando ficando ficando, e acabou a ditador plenipotenci\u00e1rio, a <em>comandar<\/em> tudo). Depois deste ter ordenado a vil execu\u00e7\u00e3o do General Gomes Freire de Andrade, o nosso Manel, que abominava o despotismo e amava a liberdade, fez-se agitador, subversivo, panflet\u00e1rio, escreveu proclama\u00e7\u00f5es, manifestos, folhetos de pol\u00e9mica p\u00fablica, artigos na imprensa peri\u00f3dica e foi ao Porto inventar o Sin\u00e9drio para conspirar a revolu\u00e7\u00e3o contra a tirania dos <em>bifes<\/em> (e o absolutismo e a estupidez em geral). Revolu\u00e7\u00e3o que haveria de chegar na manh\u00e3 radiosa do dia 24 de Agosto de 1820, dando in\u00edcio \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o de um regime constitucional. Logo a seguir integrou a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino e redigiu o <em>Manifesto aos Portugueses<\/em>, um documento de divulga\u00e7\u00e3o dos objectivos do movimento \u2013 a convoca\u00e7\u00e3o de Cortes e a aprova\u00e7\u00e3o de uma Constitui\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eleito deputado pela Beira, destacou-se como um dos mais activos tribunos, com especial relevo na elabora\u00e7\u00e3o das <em>Bases da Constitui\u00e7\u00e3o da Monarquia Portuguesa <\/em>e para o articulado da <em>Constitui\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica da Monarquia Portuguesa<\/em>. A 26 de Fevereiro de 1821 foi eleito presidente das Cortes Constituintes, cargo que exerceu at\u00e9 26 de Mar\u00e7o do mesmo ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Da sua intensa actividade parlamentar, destaca-se a apresenta\u00e7\u00e3o do <em>Relat\u00f3rio acerca do Estado P\u00fablico de Portugal<\/em> (Sess\u00e3o de 5 de Fevereiro de 1821) e a participa\u00e7\u00e3o no debate do projecto para a aboli\u00e7\u00e3o da Inquisi\u00e7\u00e3o: \u201c<em>N\u00e3o se declare antes raz\u00e3o nenhuma: essa \u00e9 ofensiva ao decoro e luzes do S\u00e9culo e sentimentos desta Assembleia. Seria rid\u00edculo que no Mundo se dissesse que se tinha extinguido a Inquisi\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o se podia sustentar, extingue-se porque n\u00e3o deve existir num Pa\u00eds em que h\u00e1 homens livres<\/em>.\u201d (Sess\u00e3o de 31 de Mar\u00e7o de 1821).<\/p>\n\n\n\n<p>Morreu em Lisboa, a 19 de Novembro de 1822, duas semanas ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o do texto constitucional. Combateu o absolutismo, os franceses e os ingleses; e venceu-os a todos, sem jamais ter aceite ser remunerado pelo seu desempenho de cargos p\u00fablicos (\u00e9 claro que &#8211; para que se veja quanto as suas ideias eram avan\u00e7adas para a \u00e9poca &#8211; logo a seguir, em 1823, a sua Constitui\u00e7\u00e3o foi contestada por D. Miguel e, depois da guerra civil, foi substitu\u00edda por outra, muito mais <em>maneirinha<\/em> e <em>consensual<\/em>, pelo seu <em>mano <\/em>mais velho, D. Pedro).<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, para as novas gera\u00e7\u00f5es, e at\u00e9 para as velhas, Manuel Fernandes Tom\u00e1s \u00e9 um ilustre desconhecido, apenas um nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas<strong> <em>\u201c<\/em><\/strong><em>Que nome, senhores, que nome nos fastos da liberdade! que preg\u00e3o \u00e0s idades futuras! que brado \u00e0s gera\u00e7\u00f5es que h\u00e3o-de vir! Este nome ser\u00e1 s\u00f3 por si a hist\u00f3ria de muitos s\u00e9culos, este nome encerra em comp\u00eandio milh\u00f5es de males arredados de um grande povo: bens incont\u00e1veis acarretados sobre ele. <\/em>[\u2026] <em>&nbsp;escrevei-lhe sobre a l\u00e1pide sepulcral: Aqui jaz o libertador dos Portugueses: salvou a P\u00e1tria, e morreu pobre\u201d , disse dele o poeta <\/em>Almeida Garrett (este tamb\u00e9m era um gajo do <em>carago \u2013<\/em> ele era do Porto &#8211; mas hoje n\u00e3o \u00e9 para aqui chamado).<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo o caso, se quereis saber mais deste figueirense excepcional, e da sua \u00e9poca<strong><em>,<\/em><\/strong> tendes que ler. Por isto a <strong><u>Passarola<\/u><\/strong> recomenda:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8211; Escritos pol\u00edticos e discursos parlamentares: <em>1820-1822<\/em>,<\/strong>\u00a0 Manuel Fernandes Tom\u00e1s<br><strong>&#8211; Manuel Fernandes Tom\u00e1s: <em>ensaio hist\u00f3rico-biogr\u00e1fico<\/em>,<\/strong> Jos\u00e9 Lu\u00eds Cardoso<br><strong>&#8211; A revolu\u00e7\u00e3o de 1820<\/strong>, Manuel Fernandes Tom\u00e1s; pref\u00e1cio de Jos\u00e9 Tengarrinha<br><strong>&#8211; A revolu\u00e7\u00e3o de 1820: <em>mem\u00f3rias,<\/em><\/strong> Jos\u00e9 Maria Xavier de Ara\u00fajo<br><strong>&#8211; A revolu\u00e7\u00e3o de 1820: <em>a sua obra e os seus homens<\/em>,<\/strong> Jo\u00e3o de Barros<\/p>\n\n\n\n<p>Se fordes da Figueira, podeis requisit\u00e1-los na Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tom\u00e1s. Se n\u00e3o fordes, podeis faz\u00ea-lo em qualquer outra biblioteca p\u00fablica que se preze.<\/p>\n\n\n\n<p>Lede, lede. E podeis dizer que ides daqui.<\/p>\n\n\n\n<p>*O retrato do nosso Manel \u00e9 da autoria do pintor lisboeta Silva Oeirense (1797-1868) e tamb\u00e9m n\u00e3o ficou nada mal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Fernando Campos Em geral, aquilo que se chama normal \u00e9 apenas vulgar e mediano, ou med\u00edocre. N\u00e3o na Figueira da Foz. 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