Terminou na passada quarta-feira a 10ª edição do ciclo de conferências sobre Arqueologia, promovido pelos serviços culturais do Município da Figueira da Foz em parceria com a Associação Viver em Alegria e a Livraria do Largo. Este ano, a par da celebração do 132.º aniversário do Museu Municipal Santos Rocha, o ciclo passou a incluir temas de Arte, e concluiu o certame com uma palestra que fundiu arte, história, e o espólio do Museu: “Testemunhos materiais da presença de Portugal na Ásia nos séculos XVI a XVIII: As colchas de motivos botânicos ao modo da Índia e da Pérsia do Museu Municipal Santos Rocha”, por Ana Barros Ferraz, mestre em História da Arte da Época moderna, especialista em têxteis orientais.
Uma contextualização histórica inicial começou com uma visualização de uma residência senhorial do século XVI: por costume da época a mobília não era muita, e era hábito mudá-la de um lado para outro muito mais do que agora, portanto o encargo de decorar a casa, com tudo o que isso implicava – beleza, ostentação de riqueza – ia para os têxteis. Havia alcatifas, tapeçarias, panos de armar, estofos, estrados, coberturas de paredes, dosséis de camas, colchas, revestimentos de cadeiras, riquíssimos em cores, com fio de ouro, prata, seda… e eram tidos como alguns dos objectos mais valiosos de uma casa, acima deles só os ouros, pratas e jóias.
As tapeçarias eram “a decoração figurativa por excelência”, com muitas feitas em França e na Bélgica a partir de quadros, eventos históricos ou elementos do quotidiano com carga simbólica – essas são agora uma fonte importante de informação sobre os pequenos pormenores desse quotidiano, como o que as pessoas vestiam e que ferramentas usavam, por exemplo. Já em termos de tapetes os mais bem-vistos eram os espanhóis, os turcos e os mais valiosos, os persas, notando-se aqui uma abertura para o Oriente, que se tornou o centro do mundo no que toca às colchas aqui faladas.
Com o estabelecimento da Carreira da Índia surgiu “uma nova cultura material”, uma “necessidade de posse do luxo dos interiores domésticos”, e uma burguesia que se tentava aproximar dos hábitos dos nobres, das igrejas e das famílias reais. E apareceram os gabinetes de curiosidades, que muitas vezes incluíam curiosidades do mundo natural junto com têxteis asiáticos (tudo tipos adjacentes de exótico para a mente colonial europeia). Eram muito apreciadas as colchas bordadas e impressas, da China e da Índia, e quando abriu uma “fábrica” ligada a Portugal no século XVII no estado indiano de Gujarat, os motivos históricos e mitológicos europeus foram abandonados a favor de inspirações botânicas.
Foi este o percurso histórico que levou às colchas sobre as quais se debruçou Ana Barros Ferraz, no trabalho inédito que desenvolveu na sua tese de mestrado. Vinte peças, espalhadas pelo país em palácios, igrejas, museus, foram descritas e analisadas ao pormenor de forma sistematizada pela primeira vez. Estes objectos “reflectem a mistura cultural que havia no reino” nos séculos XVII e XVIII, e a sua análise revela também a influência do Oriente em formas de arte normalmente consideradas mais hermeticamente portuguesas: tapetes de Arraiolos e colchas bordadas de Castelo Branco passaram a servir como “produções de substituição”, peças que reproduziam as estéticas indianas, chinesas e persas de formas que quem não tinha dinheiro para as originais podia comprar.
Foi a observação destas influências nas colchas de Castelo Branco que levou originalmente Ana Barros Ferraz, licenciada em Direito e mais tarde rendida à sua paixão pela História da Arte, a abordar este tema no seu mestrado. Teve de escrever descrições que nunca tinham sido feitas, cruzar dados dispersos, pedir autorizações especiais para ver e fotografar peças escondidas, e o resultado foi um trabalho pioneiro de aplaudir. O espanto é perceber que estes objectos, que sintetizam tanto da relação entre um Portugal de hierarquias sociais e económicas e uma Ásia em processo de colonização, nunca tinham sido estudados.
Como são então estas colchas? São imponentes, com cerca de dois a três metros cada uma, todas com uma face frontal de seda e um reforço de linho, bordadas com os mesmos tipos de pontos, e paletes de cores fixas. Algumas das cores já não são o que eram, e o que se pode induzir sobre quais seriam as cores originais dependerá de mais estudos – há sempre mais para investigar, é preciso é pessoas que o façam. Têm todas a mesma estrutura de frisos, de influência persa. Dividem-se em três grupos, num gradiente de um extremo com flores de espécies asiáticas mais estilizadas e com mais cores, a outro com flores mais literais e imagética mais europeizada como vasos e grinaldas. Resumidamente, são trabalhos impressionantes de bordado que traçam quase duzentos anos de relações entre dois continentes.
Como com tudo em Portugal, há poucos registos, muita gente ao longo dos séculos que não quis saber da proveniência de nada e deixou os historiadores do presente sem pontas por onde pegar, e é por vezes difícil distinguir peças indianas, de portuguesas, de indianas feitas por encomenda portuguesa. Podíamos talvez aprender alguma coisa com o quão misturadas as nossas culturas estão há tanto tempo, e por outro lado também com o resultado a longo prazo do desprezo pelo contexto histórico e social da arte. Mas graças a pessoas que decidem pôr mãos à obra e investigar, vamos aprendendo mais sobre a nossa história, através da arte. Uma ideia animadora que foi uma excelente conclusão para este ciclo de conferências de Arqueologia e Arte.
Podem ver três destas colchas no Museu Municipal Santos Rocha, e outra estará visível na Igreja Buarcos quando abrir para esta Semana Santa. Há muito para ver nelas, se se souber olhar. A tese de mestrado de Ana Barros Ferraz pode ser lida na íntegra aqui.
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Imagem: detalhe de uma das colchas em exposição no Museu Municipal Santos Rocha.


