por Pedro Nunes*
Primo Levi escreveu “Se Questo è un Uomo” como uma pergunta dirigida aos algozes – provai-me que ainda são humanos. Decorreram 4 anos desde o início da invasão russa à Ucrânia – provai-me que ainda somos uma sociedade. Coloquemos no gira-discos duas músicas que representaram a Ucrânia no festival da canção, “Shum” de Go_A e “Stefania” dos Kalush Orchestra – em ambas, a tradição folclórica (instrumentos, danças, etc.), misturam-se com o contemporâneo (house, trap, hip-hop, etc.). Trata-se de uma afirmação de identidade num momento em que essa identidade está a ser apagada pela força. Para nós, que vivemos à beira-mar, a guerra não é abstrata, já que nos cruzamos todos os dias com os rostos que vieram de lá. A guerra de alguém é sempre a guerra de todos, porque a indiferença não é neutralidade — é uma escolha. E quando escolhemos não ver, tornamo-nos cúmplices do silêncio.
Como é a saudade dos ucranianos? É a mesma saudade portuguesa, a de um lamento sobre a forma de música nas cordas de uma guitarra dedilhada até às lágrimas, acompanhada na voz pelo Fado? A saudade que é dor para lá do corpo, um torpor que nos amarra os pensamentos, que nos atira para um passado que já não volta mais. Gostava que esta saudade fosse outra, a saudade da Bossa Nova, a que o escritor Osvaldo Orico descreveu como sendo mais feliz que triste, mais imaginação que dor… a saudade que em vez de chorar, canta! Ficamos à janela vigilantes pela aurora da vida, enquanto a vela se despede e aquece o quarto num halo quente, mas cansado pela paz que tarda em aparecer.
Em ucraniano existe a palavra туга (tuha) – um lamento, uma saudade profunda, enraizada na terra e na perda. Não é exatamente o mesmo que o fado, nem a leveza da bossa nova. É algo mais antigo, mais coletivo, ligado à memória de um povo que tem sido sistematicamente privado da sua identidade – pelos czares, pelos soviéticos, e agora pela Rússia de Putin. E essa tuha tinha quem a cantasse.
Os kobzari eram músicos ambulantes, muitas vezes cegos, percorriam as aldeias ucranianas a cantar dumy – baladas que preservam a memória coletiva do povo. Tocavam bandura, um instrumento de cordas que parece um cruzamento entre uma harpa e um alaúde. O regime soviético de Estaline reuniu centenas deles numa conferência em 1930 e mandou-os executar ou deportar – porque percebeu que matar a memória cultural era matar um povo. Não há imagem mais clara de que a guerra atual não é nova. Também nós sabemos o que é uma canção guardar aquilo que o poder quer apagar. A PIDE proibiu “Grândola, Vila Morena” porque percebeu, tal como Estaline com os kobzari que matar a memória cultural é matar um povo. Felizmente, essa música foi o sinal da Revolução de Abril. A música sobreviveu à censura e tornou-se o som da liberdade.
E talvez seja essa resposta à pergunta de Primo Levi: uma sociedade que ainda é sociedade é aquela que quando não pode chorar, canta. E nós, do lado de fora, estamos a ouvir?
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Imagem: fotografia de um grupo de kobzari na cidade de Okhtyrka em 1911.
*Pedro Nunes, sociólogo e mediador linguístico e cultural por ofício. Residente na Figueira da Foz, o seu percurso cruza projetos de inclusão social com a fundação de espaços de cultura independente. Interessa-se pelas linguagens, manifestas ou latentes, que definem a nossa relação com o território e com os outros.


