Achados no espólio do Museu Municipal

Continuou esta semana a 10ª edição do ciclo de conferências sobre Arqueologia que o Município da Figueira da Foz promove, desta vez a assinalar o 132.º aniversário do Museu Municipal Santos Rocha, em parceria com a Associação Viver em Alegria e a Livraria do Largo, e com a adição de temas ligados à Arte.

O tema desta quarta-feira foi “A imagem fotográfica na Arqueologia em Portugal (1850-1950): Um projecto em construção”, apresentado por Carlos Batista, arqueólogo do Município da Figueira da Foz que abordou este tema na sua tese de doutoramento, ligada às universidades de Évora e de Reims. Nela ele analisa o papel da fotografia no estudo da arqueologia e na história da própria arqueologia, e nesta palestra focou-se em particular em contributos da fotografia para o seu trabalho de arqueólogo na Figueira da Foz.

Desde a invenção dos daguerreótipos que foi imediatamente reconhecido o valor para a ciência de “um dispositivo técnico capaz de reduzir a interferência humana”, um método que se tornou facilmente um símbolo da importância da objectividade. Mas claro, a existência da fotografia como arte prova que a câmara pode ser subjectiva, por isso não se é fotógrafo de arqueologia à toa, é preciso saber as normas do que fotografar e como que se foram desenvolvendo ao longo do tempo – e o Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal dinamiza oficinas mensais para quem quiser aprender. À medida que se foi popularizando, a fotografia ajudou a transformar o espírito de “antiquarismo” da arqueologia numa prática científica coerente, e eventualmente a imprensa do século XIX que era responsável pela divulgação da área ao público geral em Portugal adoptou o hábito de imprimir fotografias – algo que ainda era caro, e em muitas publicações era por si só como que uma afirmação de estatuto. Mesmo assim, não foi sendo dado muito relevo aos fotógrafos responsáveis pelas imagens que nos davam acesso aos achados arqueológicos, e estas pessoas essenciais à prática e divulgação da arqueologia tornaram-se em grande parte figuras esquecidas da história da ciência.

Uma figura que Carlos Batista tem vindo a resgatar no seu trabalho é António Mesquita de Figueiredo (1880-1954), que deixou um arquivo de, entre provas em papel e negativos, cerca de 5000 imagens – algumas das quais apresentadas a estudantes de cursos de Arqueologia portugueses sem o devido crédito. Ele correspondia-se com vários dos maiores nomes da arqueologia europeia da época, incluindo Santos Rocha, e era sócio da Sociedade Arqueológica da Figueira da Foz, daí este arquivo estar agora na posse do Museu Municipal. Carlos Batista tem estado a digitalizá-lo: fotografias sobretudo ligadas a um projecto de Mesquita da Figueiredo de fazer um “mapa patrimonial do país”, inserido numa corrente nacionalista de etnografia que se via como uma busca da verdadeira identidade portuguesa. Muitas destas imagens são da zona do Baixo Mondego, e junto com muito trabalho de pesquisa já levaram a várias descobertas. Uma delas foi um dólmen no Casal do Mato, um monumento de localização inserta cuja escavação Mesquita de Figueiredo fotografou, e um processo trabalhoso de cruzamento de dados indicou as prováveis coordenadas onde esta escavação decorreu – um processo que Carlos Batista relatou em pormenor nesta palestra, numa janela para os bastidores de um estudo científico deste género.

Portanto, para além de escavar o passado da humanidade na terra, é também possível escavar o passado da própria arqueologia em arquivos fotográficos. Para quem quiser ler mais sobre isto, foi recomendado o livro What Photographs Do: The Making and Remaking of Museum Cultures, de Elizabeth Edwards e Ella Ravilious. Como revista cultural, a Passarola aproveita a oportunidade de recomendar também um filme que aborda isto: La Chimera, de Alice Rohrwacher. Para quem preferir sair de casa e pôr a fotografia ao serviço do património no presente e pelas suas próprias mãos, o Museu Municipal Santos Rocha aproveitou este evento para pedir a quem saiba de incidentes de danos pelas tempestades recentes que tire fotos e as envie para o endereço de e-mail museu@cm-figfoz.pt.

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Imagem: Foto de António Mesquita de Figueiredo, publicada em Estudos Arqueológicos de Oeiras, volume 26, de João Cardoso.