Se Nos Agigantamos…

por Pedro Nunes*

O conforto é muitas vezes um lugar pequeno, seguro, rodeado de “muralhas”.

É assustador sair da área de conforto…

Quando somos assolados por uma tempestade como a Kristin, e o seu rasto de destruição (à qual a Figueira da Foz não escapou), somos imediatamente confrontados com a banalidade do conforto, a impotência de nos rodearmos de muralhas e a transcendência de um acordar que nos faz ver tudo à nossa volta como frágil.

Na música, um dos estilos musicais que consegue representar estas variações, é post-rock/pós-rock. Se pegarmos num grupo como os Godspeed You! Black Emperor (GY!BE), podemos ouvir algo que vai para além do conforto da canção, somos levados por “movimentos”, crescendos, que atingem muitas vezes uma intensidade que se agiganta.

Outro exemplo para além dos GY!BE são os Swans (grupo liderado por Michael Gira). A sua música é física, usa-se o volume como recurso para atingir determinada intensidade, assim como a repetição, a vibração, etc. algo muito semelhante à pressão sentida por uma tempestade como a Kristin.

… perdemos o controlo perante a vibração da natureza…

Gira, nos Swans explora a submissão, amadurecendo a sentimento de que o poder pode desumanizar.

A força da música e a força da natureza, ambas podem colocar em causa as estruturas sociais. Nestes momentos as “muralhas”, as hierarquias, tornam-se irrelevantes.

Outro exemplo musical é o dos islandeses Sigur Rós. Apesar de se tratar de uma sonoridade mais suave, exploram um cenário vasto e etéreo. Aliás, uma das marcas criativas do grupo é o uso do arco de violoncelo na guitarra, o que provoca um som que parece vindo do fundo do mar. Estes cantam numa língua inventada (Vonlenska), e desta forma libertam o ouvinte do controlo da linguagem, não deixando margem para a explicação. É a música a abrir-se ao mistério e a tanta coisa que não conseguimos compreender.

Deixo mais um exemplo musical, os Sunn O))). Algo mais extremo, muitas vezes difícil de “apreciar” mas que é representativo do sentido figurado da tempestade. Aqui as notas são graves e prolongadas até criarem um drone que perturba a noção do tempo, destroem-se as estruturas rítmicas, ficando apenas a ressonância…

Assim como na música, as tempestades despertam rituais que abalam as estruturas sob as quais nos movimentamos, cheios de pressa, a olhar para o relógio que nos indica quando tudo começa e acaba…

O nosso controlo é ter uma cidade de luzes acesas, o descontrolo é a Kristin. Somos pequenos perante uma tempestade assim. Porém, assim como na música, podemos agigantarmo-nos à fúria da natureza e coletivamente repararmos aquilo que for possível daquilo que esta nos resta… Há aqui um claro ato de humildade, aceitamos o ruído, em vez de o tentar controlar. Ao contrário do punk que é um grito de rebelião, no post-rock temos a resistência e a persistência. É aqui que nos agigantamos.

Resistimos e persistimos.

Figueira da Foz, 6 de fevereiro de 2026

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Imagem: Tempestade Kristin na Figueira da Foz, fotografia de Paulo Novais (LUSA)

*Pedro Nunes, sociólogo e mediador linguístico e cultural por ofício. Residente na Figueira da Foz, o seu percurso cruza projetos de inclusão social com a fundação de espaços de cultura independente. Interessa-se pelas linguagens, manifestas ou latentes, que definem a nossa relação com o território e com os outros.