Um ano em revista

por Carolina Campos

A Passarola faz um ano hoje. Achámos que fazia sentido ela levantar voo neste dia, com um artigo simbólico e tudo. Assim é neste dia que todos os anos olhamos (olharemos) à nossa volta e fazemos um balanço. Da Passarola e não só. Vamos lá ver.

Há duas eleições atrás conseguimos um feito impressionante como país: tantos deputados de extrema-direita no parlamento como anos passados desde o 25 de Abril. Hoje, aos cinquenta e dois anos de democracia, a extrema-direita já a ultrapassou, com sessenta deputados. José Mário Branco teve a generosidade para com os descontentes do futuro de incluir no FMI frases para tudo, e a que se podia citar aqui é: “Uma porra pá, um autêntico desastre o 25 de Abril”. Ou então estas: “As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia. Não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem.” 

Pois aqui estamos. Nós os que estávamos à frente, e agora estamos a ir recuando mais e mais na escala do progresso, a debater muito sobre as eleições na Hungria mas falando só das políticas externas de Orbán antes que as internas envergonhem de tão familiares que parecem, cada vez mais. Mas não há mal em ficar para trás a afundar na lama da crise económica e da crise da habitação e do emprego precário e do desemprego crónico e do preconceito mesquinho porque os estrangeiros vêm cá na mesma no Verão para as praias e as carteirinhas bonitinhas de cortiça. E há actrizes portuguesas em Hollywood! “Entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante enquanto tu adormeces a não pensar em nada.

Isto soa tudo muito pessimista, mas é difícil não o ser. Percorrendo o primeiro ano de publicações da Passarola e os males do mundo para que apontou o dedo, muito continua na mesma. O “Genocídio em Curso” continua em curso. Os versos que citámos da poetisa palestiniana sediada em Portugal Shahd Wadi continuam a ser verdade: “Também neste abril, meio ano depois, não / haverá exportação de cravos de Gaza. / Ó mundo, aprende os nomes dos números. / Antes do bloqueio, Gaza enviava ao mundo mais / de quarenta milhões de cravos por ano.” Aliás, nesse mesmo artigo citámos também Marjane Satrapi sobre a necessidade de solidariedade entre americanos e iranianos, e olhemos para as notícias agora. De mal a pior, e os caças americanos, assassinos bárbaros, concedem a Portugal a honra gloriosa de lhes dar poiso nas Lajes, ó-p’ra-nós-que-os-topo-de-gama-poisam-aqui, e voltamos ao FMI“e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu.” Tudo numa boa com os “milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de polícia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Hsiao-ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II.” Foi tudo escrito há décadas porque o povo português continua igual a si próprio. Vá lá, pelo menos o alarido para um novo referendo sobre a lei do aborto não deu em nada, por exemplo. Mas no seu lugar temos um novo alarido, desta vez para a descriminalização das terapias de conversão. Dê por onde der este país tem um impulso quase magnético para voltar à Idade Média. É a vitória do obscurantismo.

Pela Figueira também pouco vai mudando, para melhor pelo menos. Continua a ser uma terra tão avessa a tudo o que faça sentir-se vida no ar que até põe em questão o que veio antes. Se calhar só conseguiu ser o berço de tantas figuras fora-da-caixa por ser uma caixa tão bafienta que dava vontade de se sair dela, e esses foram os poucos que conseguiram. Talvez a Figueira só tenha dado à luz a Fernandes Tomás e Cristina Torres e Joaquim Namorado e Cândido Costa Pinto e outros que tais dando-lhes algo de que fugir com tanta força que eles assim se tornaram quem foram, e a única atmosfera viva que cá havia era a que eles criavam à sua volta. Talvez a ideia da Figueira de antigamente que despoletava cultura e pensamento livre seja uma ilusão e isto sempre foi como é agora. Se alguém souber, não sou eu; quando eu nasci já nem o Café Nau era como dantes, segundo me dizem. Ainda mal sabia ler legendas quando acabou o Festival de Cinema.

Mas posso dizer que há vida a tentar brotar na Figueira agora, que nem ervas daninhas entre as pedras da calçada – das que resistem a ser pisadas, esperamos nós. As conferências de arqueologia e de arte de Fevereiro e Março e quem as organizou, e quem fez as descobertas no Museu que lá foram apresentadas; os encontros no último domingo de cada mês no Studio Northfront para quem quer uma Figueira diferente (estão todos convidados, quantos mais melhor, são às 17h); a exposição de fotografia aqui e ali que revela uma nova forma de ver a terra; a lojinha de puzzles que se atreve a fazer coisas novas com as santas imagens da Figueira antiga; as sessões de cinema de sexta-feira à noite no CAE que se vão tornando cada vez mais um evento social para cinéfilos… pouco a pouco a vida vai brotando nesta terra que se deixou ficar para trás quando o país avançou. A Figueira tinha tanto orgulho em ser a Rainha das Praias, com aquela servidão inata que mesmo em filmes a preto e branco envergonha, que quando outras praias a substituíram esse orgulho, atado à servidão, ficou sem lado nenhum para onde ir e esmoreceu. Mas aleluia que há agora vida nova a descobrir que se não há motivos para gostarmos da nossa terra, pois que se criem, do nada se for preciso. Que se vá buscar ao passado o legado dos que nunca fizeram parte desse espírito servil colectivo, e se continue o que eles tentaram criar, e se faça novo.

Vai tudo dar aos mesmos apelos à acção, ditos e reditos mas que não deixam de ser verdade. Como escreveu Pedro Nunes num dos seus artigos, “porque a indiferença não é neutralidade — é uma escolha”. Alguém tem de fazer alguma coisa e passar a pasta a outro foi o que nos trouxe até aqui. Para usar a metáfora de Charles Rafferty, a casa já está em chamas, mas ainda cá estamos nós. Temos de acreditar que podemos apagar o fogo, e relembrar o tempo em que, como escreveu António Augusto Menano depois do 25 de Abril num dos poemas que cedeu à Passarola, “Os que vinham calados / traziam os lugares, os nomes, / palavras guardadas há anos / Bastava a tabuada da primeira / para entender a libertação da peste.

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Imagem: Figueira da Foz, Postal do 25dAbril (colagem digital), Fernando Campos